O que é necessário para reduzir o consumo?

lixo eletronico

A obsolescência planejada, na qual o produto que se é fabricado já é criado com o intuito de ir para o lixo logo após seu uso, é um dos maiores entraves ao desenvolvimento socioambiental dos povos

*por Aniele Silveira

Inicialmente se faz necessário fazer certa viagem ao tempo para, então, entrarmos em nossa reflexão de fato. Comecemos, pois, com o ponto inicial: o capitalismo. Este surge na sociedade efetivamente em meados do século XVIII após a primeira revolução industrial, mas vem sendo mostrado desde o mercantilismo, onde já existia a troca de bens por moedas. É um modo de vida que, segundo Adam Smith, aponta para o que se acredita ser o valor dos indivíduos que buscam seus interesses próprios, que se opõe ao trabalho altruístico de servir o “bem comum”.

Temos, por conseguinte, a chegada do consumo como forma de expor ao meio social seu status na sociedade. A partir da segunda guerra mundial, o consumo é fixado como entidade capitalista, e, com isso, acaba-se tornando tendência entre a sociedade de quanto mais se tem mais se pode e vice versa. O consumismo concede certo status social: por ser o consumo dos bens de maior excelência prova da riqueza, ele se torna honorífico; reciprocamente, a incapacidade de consumir na devida quantidade e qualidade se torna uma marca de inferioridade e demérito.

Agora trago ao vosso conhecimento o que veio a ocorrer em 1992, na chamada conferência da Terra (a Conferência da Terra – Fórum Internacional do Meio Ambiente tem como objetivo primordial sensibilizar e mobilizar os diversos setores da sociedade para assegurar uma agenda ambiental comprometida com a conservação da biodiversidade e o desenvolvimento ecologicamente e socialmente equilibrado), realizada no Rio de Janeiro bem como no 5º Programa Europeu para o Ambiente e Desenvolvimento de 1993, em que foi colocada como uma medida de ação: a política dos 3 R’s. Esta política é válida para todo o tipo de resíduos/efluentes sólidos, líquidos e gasosos E prega a Redução, Reutilização e Reciclagem. A redução consiste em diminuir a produção de resíduos.

Digamos que “logo em seguida” no Brasil, em 2007, o Poder Executivo propõe, em setembro, o PL 1991. O projeto de lei da Política Nacional de Resíduos Sólidos considerou o estilo de vida da sociedade contemporânea, que aliado às estratégias de marketing do setor produtivo, leva a um consumo intensivo provocando uma série de impactos ambientais à saúde pública e sociais incompatíveis com o modelo de desenvolvimento sustentado que se pretende implantar no Brasil. O PL 1991/2007 apresenta forte inter-relação com outros instrumentos legais na esfera federal, tais como a Lei de Saneamento Básico (Lei nº 11.445/2007) e a Lei dos Consórcios Públicos (Lei nº 11.107/1995), e seu Decreto regulamentador (Decreto nº. 6.017/2007). De igual modo está inter-relacionado com as Políticas Nacionais de Meio Ambiente, de Educação Ambiental, de Recursos Hídricos, de Saúde, Urbana, Industrial, Tecnológica e de Comércio Exterior e as que promovam inclusão social.

Assim sendo, em 2010 no dia 11 de março, o plenário da Câmara dos Deputados aprovou em votação simbólica um substitutivo ao Projeto de Lei 203/91, do Senado, que institui a Política Nacional de Resíduos Sólidos e impõe obrigações aos empresários, aos governos e aos cidadãos no gerenciamento dos resíduos. No dia 23 de dezembro é publicado no Diário Oficial da União o Decreto nº 7.404, que regulamenta a Lei no 12.305, de 2 de agosto de 2010, que institui a Política Nacional de Resíduos Sólidos, cria o Comitê Interministerial da Política Nacional de Resíduos Sólidos e o Comitê Orientador para a Implantação dos Sistemas de Logística Reversa, e dá outras providências.

Consumo verde

Com a preocupação maior voltada à questão ambiental, na qual vivemos, a sociedade começa a questionar um novo modo de vida e também um novo modo de consumo. Temos então o surgimento do consumo verde, o qual se deu de fato a partir da Rio92 onde a preocupação com o meio ambiente em relação com o estilo de vida e consumo das sociedades se tornou relevante e ganhou força.

Esse foi o pontapé inicial para que entendamos o que será tratado de fato, que é o antagonismo no qual vivemos em sociedade: Redução x Consumo. Será que estamos realmente nos preocupando com o meio ambiente que vivemos? Será que a atitude de apenas uma pessoa influencia em uma sociedade? Será que poderemos reduzir esse consumo? Para tentar analisar e responder a tais questões é que faremos a reflexão num todo partindo do que temos.

De acordo com nosso novo modo de vida, uma nova forma de avaliação das sociedades nos é imposto –  um paradigma que nos faz refletir mais a respeito. O consumo é hoje um dos maiores problemas que enfrentamos em relação ao meio ambiente. Atualmente, a sociedade vive de forma exposta por meio dos seus bens, quanto mais bem material se tem, mostra que a sociedade tem poder (renda monetária alta ou média), o que leva a todos a certa disputa diária. A propaganda aí se torna uma incrível ferramenta para tal, por isso há tanto investimento nessa área, criando forte influência para o consumo exaustivo e exacerbado.

Como diz Retondar, acima de tudo, o desenvolvimento da indústria publicitária no final do século XIX passa a ter um papel fundamental na consolidação da moderna sociedade de consumo essencialmente por difundir a própria atividade de consumo não apenas como algo desejável, mas, especialmente, como um valor social moralmente legítimo, destituído de pecado. Com tal incentivo, vê-se ainda mais consolidado o consumismo através do capital. A economia de materiais dispõe dos principais pontos: a extração, produção, consumo e tratamento de lixo.

E tendo em vista que habitamos e fazemos parte de um planeta finito em recursos naturais e bens primários não se está levando em conta este pesar. Há cinquenta e uma corporações mundiais que incentivam e representam a maior parte dos estragos ambientais hoje causados. Cerca de duas mil árvores são derrubadas por minuto para que tais corporações sejam mantidas em seus status enquanto a sociedade de consumo alimenta todo esse fluxo obsoleto.

99% dos produtos consumidos no mundo são, em cerca de seis meses, descartados. O consumo promove a então obsolescência planejada, na qual o produto que se é fabricado já é criado com o intuito de ir para o lixo logo após seu uso, como é o caso de descartáveis, bebidas, e até computadores. E também a obsolescência perspectiva, que consiste em jogar fora os produtos em bom estado de uso e úteis por motivos de designer.

De acordo com Giacomini Filho, se o consumidor considerasse toda a “cadeia de consumo estendida” do produto que compra ou consome, por certo pensaria duas vezes antes de adquiri-lo. São embalagens, materiais orgânicos e inorgânicos, energia, transporte empregados para o desfrute do bem, que, multiplicado por milhares de unidades, também agravam os problemas ambientais, uma vez que esse conjunto é, de uma forma ou de outra, descartado.

Ou seja, as pessoas estão condicionadas e aficionadas a levarem uma vida de status social através de seus bens de consumo e constantes trocas dos mesmos sem pensar no acúmulo de lixo gerado e no que e como isso pode afligir no meio ambiente em sociedade. O lixo é o principal agente indicador do consumismo, como ele é gerado e principalmente quanto ele é gerado. E comprovadamente as pessoas que mais possuem renda são as que mais consomem, portanto, que mais produzem lixos de toda qualidade. O lixo e a sua destinação tornam-se então um grande problema a ser enfrentado pela sociedade, pelo governo e pelas grandes corporações.

Somente em 2010 foram produzidas 195 mil toneladas de resíduos diariamente, em todo o território nacional. O resultado final foram 60,8 milhões de toneladas de lixo, sendo que pouco mais de 10% deste montante não foi sequer coletado, indo parar em córregos, terrenos baldios, ruas e rios. A produção de resíduos sólidos dos brasileiros já está perto de alcançar a mesma quantidade produzida pelos europeus. Enquanto cada um de nós gera 1,213 kg de lixo por dia, a Europa mantém média de 1,298 kg/habitante diariamente. “Os dados mostram que o país está em uma trajetória ascendente na geração de resíduos, o que já havia sido verificado nos anos anteriores. No entanto, a destinação adequada não avança no mesmo ritmo”, informa o diretor executivo da Abrelpe, Carlos Roberto Vieira da Silva Filho.

Diante dos problemas ambientais vividos atualmente, na Rio92 existiu a proposta de um novo modo de consumo que se é nomeado de consumo verde. Essa nova proposta traz ao consumidor a opção de consumir um bem que se teve uma construção de modo sustentável e aproximar o consumidor do que se está consumindo sem consumir por mero desejo supérfluo. Ora, o que vemos é uma boa proposta lançada, mas que o público alvo ainda não atendeu seu contingente, e o que atingiu ainda paira timidamente em sociedade.

O Brasil ficou em 2º lugar – atrás apenas da Índia – em um ranking de consumo verde, o levantamento foi feito com base em entrevistas e mediu o comportamento e o estilo de vida de 17 mil pessoas em 17 países. Como então resolver a questão do consumo, do lixo, e da redução ainda não alcançada? Apostando na principal resposta ao consumo, a redução, então, seria um caminho sábio a ser levado e aprendido, porém, se é necessário um comprometimento de colocar em um ciclo vicioso, como o caso do consumo, à parte em alguns momentos dispensáveis.

Tendo como iniciativa o consumo verde ao lado  muitos problemas ambientais seriam resolvidos de modo simples. Como cita Portilho: “o consumidor verde foi amplamente definido como aquele que, além da variável qualidade/preço, inclui, em seu “poder de escolha”, a variável ambiental, preferindo produtos que não agridam, ou são percebidos como não agredindo o meio ambiente”.

Certo que se precisa ter conscientização ambiental para tal passo, vimos que há uma forte cápsula que discute, debate e propaga os malefícios e trocas negativas que estamos vivendo com a natureza, a qual se mostra diferente e “indiferente” ao que te aflige.

O que seria necessário para se reduzir então?

Bom, é simples (ou nem tanto)! Mas existem consumos de modo tão supérfluo que seria sim muito fácil ter a posição de não consumir. A obsolescência planejada poderia diminuir seus números, dou um exemplo simples. Se em uma festa de aniversário compram talheres, copos, pratos descartáveis com o intuito de jogar fora logo após seu uso porque não comprar talheres, copos, pratos que possam ser utilizados em outro festejo?

Pois então vimos aí como este exemplo a simples opção de reutilizar, na qual os três R’s ele se encontra. A reutilização traz aí um papel de agente transformador que ajuda e disciplina a questão da redução. Com a forte tendência em transformar os consumidores em consumidores verdes e conscientes em minimizar o acervo de lixo que se produz, há certa esperança que as preocupações ambientais possam ser amenizadas trazendo certo conforto e uma boa relação entre homem/natureza.

É necessário que os consumidores tornem-se agentes transformadores, questionadores e conscientizados de todo o entorno que gira acerca da problemática hoje enfrentada, que é a degradação ambiental e o uso abusivo de nossos bens naturais. E que assim possam ser chamados ao invés de recursos naturais.

Que valorizemos o meio ambiente e o planeta que possuímos, pois um simples ato ou gesto torna-se precioso e imprescindível visto o modo de vida que está sendo levado, podemos mudar se assim quisermos. Um só não é apenas um, é um agente que multiplica seu pensar e seus atos. Que sejamos verdadeiros cidadãos, pois se temos direito, também possuímos deveres.

*Aniele Silveira é estudante de Ecologia, compôs o Espaço de Vivência Agroecológica da Universidade Federal de Sergipe (EVA/UFS) e atua na Teia de Agroecologia dos Povos.

 

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