A onda fascista

fascismo

O fascismo se revelou não como uma experiência de fora para dentro, não como uma assimilação ideológica, mas uma verdadeira onda, avassaladora, gerada na própria alma

*por Yago Licarião

Alemanha contemporânea. Uma sala de aula. Alunos de diferentes contextos sociais, ideários políticos e interesses pessoais se reúnem para frequentar uma cadeira escolar sobre autocracia, lecionada por um professor que ansiava falar sobre anarquismo. Impossibilitado de alterar seu tema, o desejo de tornar interessantes suas palestras a um grupo de desinteressados deságua em uma decisão arriscada: um experimento prático com a criação de um partido fascista.

As relações da película cinematográfica “A Onda” com as conclusões contundentes de Wilhelm Reich, em seu “Psicologia de Massas do Fascismo”, já se apresentam na gênese do grupo autocrata liderado pelo Prof. Rainer: a formação de suas bases não se dá com uma construção política organizada, uma posição econômica própria, tampouco com estratagemas militares definidos, mas sim, ergue-se na criação de símbolos, slogans e uniformes. De plano, percebe-se a investida direta ao imaginário coletivo.

De fato, como ensina Reich, o fascismo é menos uma “ideia política organizada”, tal qual era comumente considerado pelo senso comum do pré-nazismo, que uma verdadeira representação do inconsciente freudiano, preenchido de impulsos secundários reprimidos de crueldade, sadismo, luxúria e violência. Em outras palavras, a proliferação fascista se dá pela exaltação emocional dos indivíduos que, de forma irracional, dão vazão aos seus próprios instintos.

O olhar aos estudantes no início do curso é revelador: as primeiras aulas são recheadas de um ar jocoso e um clima amigável. Efetivamente, nenhum dos alunos acreditavam ser possível o retorno de uma dominação nazifascista numa Alemanha de muitas décadas da queda de Hitler. Tal qual o senso comum de outrora, o erro dos colegiais foi julgar a dominação fascista apenas como uma experiência política de repressão e autoritarismo.

É certo que a obra de Reich foi amplamente condenada pelos socialistas e comunistas de seu tempo, talvez pelas fortes críticas tecidas à análise estritamente econômica do fascismo, característica do marxismo; pela introdução de componentes psicanalíticos à sociologia e análise histórica, principalmente da economia sexual; ou, pelo atestado lancinante do fracasso da esquerda alemã, tanto em conter a escalada política nazista, como em perceber a complexidade do movimento liderado por Hitler.

Sobre a última hipótese, a conexão com o filme leva a perceber que essa ingenuidade perante a “serpente” é fator nuclear para entender a rápida metástase realizada entre os participantes do estudo que, no momento seguinte, se viram vislumbrados e absorvidos pela [i]lógica fascista, acometendo toda sorte de círculos sociais próximos. O partido “A Onda” esquece seu caráter pedagógico e passa à dominação das massas juvenis, refletindo o sucesso do Ministério da Propaganda, do gênio Goebbels, em garantir o apoio popular.

Algumas figuras se destacam, como o casal de namorados que procura, inutilmente, convencer a população do descontrole da experiência através de argumentos transcritos em panfletos, ou o irmão pequeno de um participante, que sem saber absolutamente nada sobre o assunto, passa a replicar as simbologias em seu próprio ambiente.

Mas ainda que todos os participantes do movimento estivessem imersos em um verdadeiro estado de transe, se distanciado de suas próprias personalidades diante do poder cada vez mais expressivo, certamente duas personagens exprimem com maior veemência o caráter psicológico do fascismo: o professor e seu admirador.

A construção de Rainer, do professor com sinceras pretensões de impactar pedagogicamente os estudantes acerca da constante possibilidade da autocracia, ao chefe que vê em suas mãos a concretização de suas ambições mais profundas, deflagrando os lados sombrios de sua alma, e por fim, o choque de realidade quando percebe que tudo já saíra de seu controle, mostram uma capacidade incrível do diretor Dennis Gansel em aprofundar o drama psicológico das personagens.

Essa escalada de crescimento frenética do grupo, capaz de dominar não só os incautos alunos, mas o próprio mentor do projeto, faz temer a análise de Foucault[1] acerca do Anti-Édipo, quando afirma que nosso inimigo é

“não somente o fascismo histórico de Hitler e de Mussolini – que tão bem souberam mobilizar e utilizar o desejo das massas -, mas o fascismo que está em nós todos, que martela nossos espíritos e nossas condutas cotidianas, o fascismo que nos faz amar o poder, desejar esta coisa que nos domina e nos explora.”

Daí a facilidade com que o admirador é levado ao mais profundo extremismo: o clima hostil gerido pelo movimento, tal qual o zeitgeist da Alemanha trintista, destravaram em seu inconsciente todas as potências mais recriminadas, todo o anseio por vingar as próprias frustrações. O fascismo se revelou não como uma experiência de fora para dentro, não como uma assimilação ideológica, mas uma verdadeira onda, avassaladora, gerada na própria alma.

O perigo fascista não está no aparecimento da reencarnação de Franco, Salazar ou Hitler, ou da viabilidade política de uma tomada de poder por grupos organizadamente autocratas. Mais que tudo, o temor vertiginoso que nos assalta é perceber que carregamos a centelha diabólica, tão fácil de arder como uma grande fogueira. Em qual esquina emergirá o monstro da lagoa?

[1] FOUCAULT, Michel. Por Uma Vida Não Fascista. Disponível em: https://cesarmangolin.files.wordpress.com/2011/08/foucault-por-uma-vida-nao-facista-pdf.pdf

* Yago Licarião é estudante de direito da UNIPÊ

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