Os haitianos na mira: para entender o pano de fundo da barbárie

refugiados-haitianos-em-sao-paulo-refugiados-haitianos-em-sao-paulo-20140429-0001-original

Atentado terrorista a refugiados haitianos em São Paulo mostra como a atual crise do capitalismo colabora e infla o discurso sedutor e raso do conservadorismo terrorista brasileiro.

*Leomir C. Hilário

Meu objetivo nesse texto é fazer uma reflexão sobre o ato terrorista ocorrido em São Paulo, no dia 1º de Agosto de 2015, no qual seis haitianos foram baleados por um sujeito que, antes de efetuar os disparos, disse que os haitianos roubam os empregos dos brasileiros. A meu ver, é preciso pôr este ato individual em uma tela de análise mais ampla para poder compreender sua natureza e sua condição de possibilidade. Esta tela é a crise atual do capitalismo.

Tenho feito aqui na Revista Rever, de maneira pouco acadêmica, indisciplinada e com frequência irregular, é verdade, contribuições em torno dos efeitos da crise no contexto periférico brasileiro. É neste campo que se inscrevem alguns textos já publicados aqui, como A atual crise do capitalismo e seus efeitos em Sergipe e Pré-sal: riqueza fictícia, disputa irreal. Em ambos, tento trazer a reflexão sobre a crise como sendo de primeira ordem para a esquerda. Por outro lado, procuro também, através de meus textos aqui publicados, enfatizar a importância da crítica para a compreensão da atualidade e de como a atualidade deve forçar uma atualização da crítica. Com esse objetivo, escrevi os textos Black Blocs: a igualdade e a fraternidade se manifestando e 20 anos sem Guy Debord: notas sobre o déficit crítico.

Uma vez exposto o objetivo deste texto e mapeadas as preocupações que têm me servido de motivação para escrever aqui, gostaria de sublinhar que, em minha humilde opinião, a tarefa mais árdua e mais urgente para a esquerda brasileira contemporânea, a nível teórico-analítico, é a de produzir uma crítica da crise apesar do aparente boom [crescimento] da economia brasileira nas duas últimas décadas e mostrar como, dentre outras coisas, determinados mecanismos repousam sobre a base da crise estrutural do capitalismo, de tal modo que não a contornam e tampouco a evitam. Em verdade, estes mecanismos aprofundam a crise e o máximo que conseguem fazer é “comprar tempo” (W. Streeck), isto é, lançar a crise para um pouco mais adiante em termos históricos, uma “fuga para frente” (R. Kurz).

Suspeito, seguindo esta trilha interpretativa, que algumas estratégias brasileiras, tais quais os programas sociais [como bolsa família, expansão de crédito imobiliário etc.], a organização de megaeventos mundiais [como Copa do Mundo, Olimpíadas etc.], dentre tantos outras, constituem-se enquanto formas de “comprar tempo”, de jogar a crise para mais adiante, mobilizando quantias significativas de valor para queimá-lo em infraestrutura e no consumo, como tentativa de contornar a conjuntura de impossibilidade de produção de valor naqueles termos que ainda eram possíveis em boa parte do século XX. O fato é que se a crise é estrutural, não mais conjuntural, ela não é passível de ser superada, mas somente de ser desdobrada, gerenciada. Assim, a grande novidade histórica produzida pelo PT foi a de gerir a crise social (M. Menegat), a tal ponto que suas técnicas são exportadas para todo mundo, afinal de contas, o mundo inteiro se pergunta como uma sociedade tão desigual, violenta e antidemocrática como a brasileira ainda permanece de pé, sem grandes fissuras significativas no terreno político.

Vou dar um exemplo da relação indissociável entre boom [crescimento] e crise: preocupado com o crescimento do endividamento dentre os beneficiários do Bolsa Família, o Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à fome lançou, em outubro de 2009, uma cartilha intitulada Educação Financeira para Beneficiários do Programa Bolsa Família. Numa pesquisa de 2011 que investigava comportamentos financeiros de famílias inscritas no CADÚNICO [Cadastro Único para Programas Sociais], 30% dos beneficiários estavam com o nome inscrito no SPC/SERASA, isto é, com o “nome sujo na praça”. Há quem afirme que mais de 50% dos beneficiários possuem algum tipo de dívida com bancos. Além disso, o último reajuste do bolsa família ficou abaixo da inflação e as reduções de investimento em relação ao PAC podem significar o início do declínio do arranjo macroeconômico que servia de base para o programa do PT.

Portanto, o que se avizinha, após o boom econômico que promoveu a inclusão pelo consumo via assistência social, é o endividamento das massas possivelmente sem dinheiro num futuro bastante próximo. Programas como “Minha casa, Minha vida” também já dão sinais de endividamento familiar. Qual será o destino social destas massas é impossível prever, mas as situações espanhola e grega dão indícios do que está porvir. Os despejos na Espanha, por exemplo, mostram como a expansão do crédito fácil imobiliário se converte, a médio prazo, em dívidas impagáveis que fazem as famílias reféns de grandes bancos. Para ser ter uma ideia do tamanho da crise, apenas no segundo semestre de 2012 foram ditados quase 48 mil despejos pelos tribunais espanhóis.

Precisaria de mais espaço para traçar paralelos entre a conjuntura espanhola e a brasileira, mas vou aqui me contentar em defender que, de algum modo, a Espanha antecipa o Brasil. Lá, como aqui, houve um boom [crescimento] imobiliário: pessoas adquiriram dívidas de 30/40 anos para realizar “o sonho da casa própria”; outras passaram a investir em casas/apartamentos seguindo o dogma segundo o qual “a moradia nunca se desvaloriza” (adotando a retórica bancária de que este tipo de empréstimo nunca é um mal negócio, afinal de contas, se a verdade é que um imóvel nunca baixa de preço, então se algum dia você precisar vendê-lo por não conseguir pagar, ele vai valer mais do que o preço que você comprou, no final você vai sair ganhando!). Retórica fantasiosa em que muita gente acredita, apesar da valorização imobiliária ter ficado em 3,6% em 2012, depois de chegar a 20% em 2010. Em 2015, até agora, os preços dos imóveis tiveram queda real por cinco meses consecutivos. O fato é que, apesar de muitos espanhóis passarem a ter casa própria e sua vida aparentemente ter melhorado em níveis de consumo, tudo isso não impediu o agravamento da crise, porque há, como defende Robert Brenner, uma relação inseparável entre boom e bolha. Mais do que isso, ambos são a antessala de toda crise do capitalismo.

Voltando ao Brasil, por preferir uma leitura sistêmica e global, tendo a ler o processo de degeneração do Partido dos Trabalhadores não como uma questão de direção, embora reconheça o papel desempenhado pelas expulsões sistemáticas ocorridas dentro do Partido e suas modificações programáticas, mas como fenômeno ligado ao impacto desta crise. Dizer que o PT abandonou seu caráter combativo e classista é verdade, mas não toda a verdade, pois há, também, certa mudança de análise conjuntural e a adoção da ideia de que é preciso minimizar os efeitos de barbárie provocados por esta crise. E não há como negar que o PT fez isso de maneira bastante eficaz, basta verificar a imunidade ideológica do Bolsa Família no interior dos setores de esquerda. Dizer isso não significa concordar com este giro petista, mas compreender os contornos históricos que dão seu sentido. Deste modo, o giro do PT precisa ser situado nesta objetividade da crise, para que não se caia no subjetivismo politicista segundo o qual o problema do capitalismo atual é de gerenciamento. Quando, na verdade, a questão é a inviabilidade do próprio sistema enquanto forma social.

A atual crise político-econômica do Brasil reflete o esgotamento das técnicas de governabilidade produzidas pelo PT no quadro de crise estrutural, cujo objetivo era neutralizar a tendência dissolutiva do campo social. No entanto, aqui e ali as fissuras já não podem mais ser tapadas e aquilo que era seu grande mérito internacionalmente conhecido – ou seja, apaziguar os enfrentamentos sociais em conjunto com o crescimento econômico – torna-se seu maior algoz. Neste sentido, gostaria de focalizar a fissura ideológica conservadora que cresce exponencialmente nos últimos anos. Desta vez vou deixar o terreno macroeconômico e me focar no campo da subjetividade, isto é, no âmbito das relações entre indivíduos e das narrativas que visam dar coerência ao mundo que eles habitam. Fiz isso de uma maneira mais acadêmica em outro lugar, mas aqui gostaria de partir do exemplo concreto do ato terrorista mencionado no início e mostrar sua dinâmica, de maneira mais simples e direta. Entendo como “terrorista” todo ato violento, política e ideologicamente motivado, cujo alvo são membros da sociedade civil.

O que realmente disse o sujeito quando, antes de disparar, falou que os haitianos roubam os empregos dos brasileiros? A meu ver, ele acredita que o problema da crise atual do capitalismo é algo ligado não a dinâmica autocontraditória deste sistema, mas sim ao resultado das ações oportunistas e usurpadoras de determinados indivíduos. Há alguns meses um vídeo no qual um indivíduo com vestimentas militares humilhava um frentista haitiano fez bastante sucesso nas redes sociais. A violência/agressividade que acompanha este tipo de discurso pode ser explicada como consequência lógica: se a crise é unicamente culpa da ação de indivíduos/grupos corruptos, o remédio é efetivamente excluí-los do campo político. O ato violento é a forma pela qual o conteúdo deste discurso se manifesta.

Mas por que esse discurso paranoico e agressivo consegue ter algum tipo de eficácia ideológica? Em primeiro lugar, eu diria que a crise instaura uma desordem social e um mal-estar difuso experimentado pela maioria dos indivíduos. Em segundo lugar, embora experimentada pela ampla maioria, ambos, principalmente o mal-estar, permanecem como um enigma, isto é, não se sabe exatamente o motivo que faz as coisas andarem tão mal. Em tempos de crise, portanto, nomear este mal-estar significa o ato político por excelência. Explicar sucintamente e de maneira clara, de preferência empírica, significa converter aquele mal-estar difuso inominável em força política.

No atual contexto em que nem a esquerda consegue elaborar um panorama claro desta crise, o simplismo conservador ganha muita força. Um exemplo disso é toda o falatório em torno da “Lava Jato” [investigação da polícia federal, também chamada de “Petrolão”] que teria movimentado R$ 10 bilhões. Pede-se que este ou aquele vá para a cadeia. No entanto, convém lembrar que a Petrobrás se desvalorizou em R$ 610 bilhões, passando a valer menos do que antes do pré-sal. Apenas um raciocínio superficial e simplista pode deixar R$ 600 bilhões de lado em sua construção. O fato é que com tamanha quantia fica difícil responsabilizar pequenos grupos ou indivíduos, teríamos que adentrar num campo de análise mais complexa da especulação financeira. E, infelizmente, isto nem a esquerda mais combativa está disposta a fazer, como ficou claro no caso do Pré-Sal.

Na ausência de uma crítica do capitalismo em tempos de crise estrutural que seja capaz de mostrar a autocontradição inerente a este modo de produção – e que consiste em minar sua própria base (o trabalho, sobretudo aquele formal, estável, com direitos adquiridos e que organiza grandes massas de trabalhadores) – o que resta em seu lugar é a substituição da natureza desta crise pela vontade de sujeitos que deliberadamente a produzem ou dela tiram proveito. O que é negativo e nebuloso deste sistema, isto é, o modo pelo qual ele vai dispensando grandes quantidades de massa humana, criando um verdadeiro exército supérfluo e descartável de gente, converte-se em alguma coisa positiva e empírica: são os haitianos os responsáveis pela crise, portanto bastaria matá-los/expulsá-los para que a ordem se reinstaurasse.

Há uma crença religiosa e fundamentalista no Mercado como mecanismo de funcionamento perfeito, no interior do qual os indivíduos podem efetivamente ser felizes, realizar seus planos de vida (ter uma casa, um carro, dois filhos e um cachorro, como diz a música). E assim ressurge, quando muitos conceituaram a pós-modernidade como fim das grandes narrativas, um culto que mobiliza a fé de muitos indivíduos: o Mercado. Tudo se passa como se houvesse pessoas que atrapalham o funcionamento do divino Mercado (D.-R. Dufour) e devem ser punidas em instituições carcerárias precarizadas, castigadas em postes públicos, empurradas para as margens periféricas da cidade etc. Nas teorias mais rebuscadas, não são as pessoas mas o Estado que deve ser extirpado. Mas como nem só de teorias rebuscadas vive o mundo…

Volto a insistir, para concluir, na necessidade vital de uma crítica adequada da crise atual, que demonstre seu dinamismo, seus efeitos e suas possibilidades de superação. Uma teoria que afirme a historicidade do capitalismo e que ponha a nu sua dinâmica irracional subjacente que o está levando ao colapso, ao mesmo tempo em que cria mecanismos para carregar consigo o maior número de massas humanas. É verdade que apenas isso não nos livrará da barbárie, mas também é verdade que sem isso não teremos a menor chance.

 

* Leomir Hilário é colaborador da REVER e doutorando em Psicologia Social pela UERJ.

Um comentário sobre “Os haitianos na mira: para entender o pano de fundo da barbárie

Comentar

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s