A ATUAL SITUAÇÃO DOS REFUGIADOS NA EUROPA

Refugiados sírios Foto/Emilio Morenatti
Refugiados sírios Foto/Emilio Morenatti

“Nossa esperança é que a tragédia, mais uma vez não se transforme em farsa”

*por Fernando Magalhães

Nenhuma pretensão, exceto escrever em voz alta (sic), move o texto que escrevo neste momento. Ausente dele, qualquer esforço de análise minuciosa do problema. Preside o comentário apenas uma preocupação com o desenvolvimento da crise político-moral (talvez seja melhor falar em crise humanitária) que toma conta dos países ditos avançados da sociedade internacional (assim como o nosso), bem como o agravamento do genocídio que se pratica, no presente, contra (e entre) os países do “sul”, como se tornaram conhecidas as nações pobres e emergentes, e o pessimismo generalizado nos quatro cantos do nosso pequeno universo. É interessante que, com uma honrosa exceção (cujo nome não lembro, agora), nenhum jornalista brasileiro (também não percebi “muita” movimentação na mídia internacional) apontou, na imprensa, os verdadeiros responsáveis pelo que acontece no mundo.

Eu mesmo cheguei a criticar, aqui, a vergonhosa conduta de “apartheid” a que assistimos, hoje, e como permanecemos impotentes diante da barbárie que se comete contra aqueles que procuram asilo em solo europeu. Obviamente, a Europa não está isenta do que está ocorrendo, principalmente porque ela faz parte daquela organização quase mafiosa chamada OTAN, que defende os interesses econômicos de seus membros. E foi essa entidade que começou a armar a oposição Síria, em 2011. No ano seguinte, as forças especiais britânicas decidiram fazer seu ruidoso “debut” na destruição daquele país e, no mesmo ano, os Estados Unidos resolveram financiar a guerrilha de oposição.

Tudo isso com a ajuda da de uma feroz ditadura, a Arábia Saudita, que, através de uma base secreta na Turquia – se não me engano noticiado pela Reuters -, armava e treinava os rebeldes sírios. E, nesse “imbroglio” todo, os países do continente estão levando a pior. A Inglaterra, uma das responsáveis, pela situação, por enquanto está livre do fantasma que ronda a Europa. Se já existe dificuldade dos imigrantes chegarem a uma praia mais próxima, imaginem atravessar o canal ou ir àquela ilha por mar. E os Estados Unidos? Distante, desfrutando da riqueza da miséria que construiu com seus cúmplices de além mar.

Mas se não existe neutralidade científica – todos tomamos partido de um modo ou de outro -, um mínimo de imparcialidade, pelo menos, é necessário. Impossível negar a responsabilidade alemã no caso; mas apesar de minha aversão a mais recente “ditadora” européia, Frau Merkel, a Alemanha sozinha não é capaz de solucionar um problema que é geral (as demais questões, o problema dos sunitas, EI etc. são provenientes da bagunça iniciada pelos países desenvolvidos do mundo) e que tem a simpatia de seu próprio povo. É preciso chamar não só os Estados Unidos à ordem, mas igualmente a Inglaterra, para que eles sintam na pele as consequências do assassinato de civis inocentes (muitos deles crianças). E tudo com a complacência de seus parceiros europeus (e a omissão dos países do ex-bloco soviético), que pagam a conta da embriaguez norte-americana pela hegemonia mundial. O garçom chegou, mas tudo indica que a fatura é alta.

E pode aumentar após as eleições na Grécia e Espanha. Contudo, há outra questão que me incomoda no momento. Uma foto desse lamentável êxodo tornou-se viral numa das redes sociais: a de uma criança morta nos limites na areia e da água do mar de uma praia turca. A foto é chocante e serve, até mesmo, para representar o “estado de guerra” em que vivem milhares de sírios, afegãos, nigerianos e outros cidadãos africanos e asiáticos, ainda que a condição dos sírios seja a que mais chame atenção. Mencionei essa foto para demonstrar como nossas sociedades ainda se apegam a valores individuais e mesquinhos que fazem lembrar, apenas, aquele que se encontra imediatamente à vista.

Nos EUA o individualismo sempre foi comum – bem mais do que na Europa –, diagnóstico antigo que assombrou o primeiro intelectual que procedeu a uma análise da “democracia norte-americana. No Brasil, é muito próprio de determinado estrato social e da elite. Um autor brasileiro, num livro já antigo, intitulado “O Drama da Classe Média”, revelou como se comporta, no cotidiano, essa camada da sociedade brasileira (eu estenderia essa versão, hoje, a quase toda sociedade mundial). Diante de um fato isolado, ainda que de uma infelicidade e tragicidade impressionantes, ela assume uma indignação incomensurável; é capaz de chorar convulsivamente pelo sofrimento de uma heroína de TV, mas não verte uma lágrima pelas milhares de crianças (ou mesmo adultos) que morrem diariamente na pobreza nos continentes africano e asiático.

Sem mencionar a América Latina. Até a ONU, que esteve por pouco tempo em Ruanda, abandonou o conflito entre tutsis e hutus, já que aquela briga não era dela. É possível que aqueles que dominam a organização não vissem interesses financeiros naquele combate fraticida. Agora é a hora – aliás, mais uma vez – de derramar lágrimas pelos casos individuais. Passado o episódio, todos voltam às suas poltronas para saber como anda o desfecho do último capítulo de uma das várias novelas que povoam o lixo televisivo do nosso país.

Muitos podem pensar que estas palavras emergem como algum exercício de insensibilidade diante do quadro dramático que chocou o mundo. Longe disso. Como qualquer ser humano preocupado com os destinos da humanidade – que não segue meia dúzia de energúmenos que clama (ou melhor, urra como uma besta selvagem atrás da caça) pela volta da ditadura e prega o assassinato de presidentes –, também me senti chocado com o quadro de uma criança morta brutalmente (há algo tão brutal como alguém se debatendo para não morrer afogado nas águas revoltas – ou mesmo calmas – do oceano?) como resultado de um conflito do qual ela não tem qualquer parcela de culpa. Mas não posso esquecer que, juntamente com ela, embora não nas mesmas condições, muitas outras crianças estão sendo massacradas, metralhadas, bombardeadas pela tragédia que se abate sobre aqueles que, para muitos, constituem-se “povos sem história”.

Nossa esperança é que a tragédia, mais uma vez não se transforme em farsa. Que a foto que correu o planeta apresente-se não somente como um pretexto para o choro estéril daqueles que silenciam imediatamente seus lamentos e fogem para as varandas de seus luxuosos apartamentos para se refugiar no fundo de uma caçarola assim que ouve (ou vê) o adversário lançar suas bobagens neoliberais e “autoajustáveis” na TV, mas sirva, da mesma forma, como lição para aqueles que pensam exclusivamente em suas “bolsas-privilégio”.

Terminado o espetáculo – é assim que esse segmento social enxerga a sociedade -, esquecido o “fato isolado”, essa camada vil bate asas para aquela cidade que atrai as mentes medíocres e vai juntar-se aos trapaceiros cubanos que esqueceram a rumba a não conseguiram assimilar o jazz. Aqui jaz, portanto, uma horda que busca refúgio na lama. As lágrimas secaram tão logo os olhos brilharam diante dos carrosséis que encantam os adultos- crianças que deixam cair rios de baba no lugar dos olhos antes umedecidos.

Estão satisfeitos ao lado daquele animalzinho asqueroso de orelhas grandes que mora em Orlando e que os intelectuais sérios já o analisaram como um personagem de conduta duvidosa, sem emprego fixo, mas cujo trabalho principal é ser alcaguete e informante da polícia. Não causa surpresa que seja simbolizado na figura de um rato. Enquanto isso a corrente migratória serpenteia o Velho Mundo, as pessoas são marcadas como gado (já vi isso acontecer – lembrei, aqui, da expressão de um amigo – nos velhos documentários em preto e branco, num lugar civilizado do globo por volta dos anos 30 do século passado).

Entre nós, as chacinas do Rio de Janeiro e o desaparecimento dos Amarildos desfilam diante de nossas vistas sem comover a audiência. Afinal, são tantos que ninguém tem condições de sentir-se chocado. Não li um único cartaz com a frase que já se tornou tradicional e universal em casos como esses: “Je suis réfugié”. Claro, não em nossos lares (aqui e alhures) tirando nossos empregos. Não obstante tudo isso, espero que esse exemplo trágico sirva como emblema de uma luta muito maior e mais séria do que uma provisória lágrima de crocodilo (às vezes até sincera em seu individualismo ideológico, incapaz, no entanto, de observar que o oceano já tragou a infância, a adolescência e mesmo a maturidade de grande parte de um povo esquecido a que se soma, nesse instante, a sofrida Síria) que cessa assim que se levanta da cadeira diante do computador ou da televisão. Não sei por que, mas em que pese todas essas palavras, ainda não consigo impedir que aflore, nos meus pensamentos, um sentimento de otimismo. Serei o último na Terra?

*Fernando Magalhães é professor aposentado da UFPE

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