Rever entrevista: Dudu Cordelista – I parte

10984238_1593587254192261_5210973329510224605_nDudu Cordelista fala sobre a sua trajetória de vida, seu contato com a poesia e a música

por Geilson Gomes e Rafa Aragão

Trocar ideia com Dudu Cordelista é muito gratificante. Amante do cordel, violeiro, contador de história e professor, ele transmite em suas histórias a música,  a rima e as marcas do nordeste: belo, resistente e criativo. Ele é o espinho e a flor do mandacaru. É a poesia das bodegas, dos saraus e das encruzilhadas. É a sonoridade da chuva caindo, do reio do baião e da viola. É os traços da terra seca, da cidade e do calo na mão.

Nesta primeira parte da entrevista, Dudu nos conta, com leveza, sobre sua infância, o encontro com o cordel, o seu amor por Luiz Gonzaga e as suas principais referências na música e na literatura.

REVER – Vamos começar falando sobre sua infância…

Dudu – Eu nasci em Aracaju, no bairro Siqueira Campos, no dia 4 de junho de 1986. Depois eu descobri que era no mesmo mês de Lampião.

A minha infância era de menino da cidade. Meu pai tinha uma bodega na avenida Maranhão com a Rio Grande do Norte. Fui criado nesse ambiente de menino de bairro. Brincava no muro Daleste na Rio Grande do Norte. Brincava nas ruas com os meninos. Só não gostava de futebol e bola de gude, tudo que tinha bola eu não gostava, mas todas as brincadeiras de correr eu gostava. Pega-pega, se esconder…

Eu era ruim de futebol. Ainda hoje não gosto de futebol. Não jogava bem e os meninos me deixavam de escanteio. Aí não adiantava ir pro jogo pra ficar sentado vendo.

A minha infância é importante na literatura de cordel, porque, às vezes vou buscar inspiração em algumas coisas da infância. Como meus pais tinham uma bodega, o fluxo de gente que entrava e que saia era grande. Isso impressiona um menino de 10 e 12 anos. Ele fica impressionado com determinadas figuras que entram no armazém e a forma como o bodegueiro interage com essas figuras. Tive muito contato com os velhos. Eu sempre conversava com as pessoas mais antigas. Gostava de escutar as histórias. Até aí, eu nunca tinha escutado falar de literatura de cordel. A literatura de cordel só foi aparecer na universidade.

Mas eu acho que já tinha, nesse momento, alguma coisa que serviria para a literatura de cordel e que ia me dar uma direção. Agora, nessa época aí já estava adoidado no forró. Foi uma tragédia. Os meninos aprendendo violão e tocando Legião Urbana – as coisas que os jovens escutavam lá no Siqueira Campos -, e eu aferrado por Luiz Gonzaga. Sofria muito com essas coisas. Botavam-me apelido na escola. Quando era guri, todo mundo querendo comprar um violão e eu querendo uma sanfona.

Luiz Gonzaga é uma paixão. Passei muito tempo com Luiz Gonzaga e não aceitava outra coisa..

REVER – Você escutava Luiz Gonzaga onde?

Dudu – Eu escutava no toca fita do Jipe do meu pai. O Jipe que ele usava pra pegar farinha e os pacotes de kiboa. Eu gurizinho, escutava no toca disco de casa, mas às vezes o toca disco estava ocupado, com o irmão ou mãe escutando outras coisas lá. Painho gostava de Nelson Gonçalves, minha mãe Reginaldo Rossi, os irmãos gostavam de reggae. O Luiz Gonzaga era mais no toca fita do jipe. Botava as fitas de Luiz Gonzaga e ficava escutando na garagem, no escuro, imaginando o que Luiz Gonzaga estava dizendo. Eu sou de ficar muito tempo namorando uma coisa. Namorei muito com Luiz Gonzaga. Agora, nos últimos anos, eu tenho escutado os outros forrozeiros que foram cobertos pela fama de Luiz Gonzaga. Escuto, muito distante mesmo, Trio Nordestino, Abdias dos Oitos baixos, Gerson Filho, Clemilda.

REVER – O que acha dos forrós modernos?

Dudu – Eu não gosto muito de falar disso. É uma questão de gosto. Eu gosto do pé-de-serra. Essas modernizações têm em todo canto. Tem na literatura de Cordel. Agora é preciso saber como que faz essa coisa. Voltando à literatura do Cordel. Tem gente quer modernizar a literatura de cordel. Afirmam que o cordel agora vai ser poesia de alta classe, que nem as outras, vamos tirar a métrica e a rima. Aí eu digo: pronto, agora acabou o cordel. Que modernização é essa? Se tirar os elementos da coisa, a coisa deixa de ser a coisa.

Fiz treze cordéis, de 2011 pra cá. Venho guardando meus trabalhos por 4 anos. Durante esse tempo venho pelejando pra imprimir. É uma dificuldade. Tem que ter gente pra fazer a capa, gente pra diagramar. Tem erro de português e volta e refaz, depois eu desgosto da história e deixo de lado.

REVER – Esses trabalhos são inéditos?

Dudu – Sim. Vai sair tudo junto e vai sair numa bolsinha chamada “Os cordéis da Gaveta”, porque passaram quatro anos engavetados. Fiz um prelúdio explicando algumas coisas. Coisas simples, como que faz um cordel.

O cordel tem quer rima, métrica e oração. A rima é para rimar pão com balão, com São João. A métrica é a quantidade de sílabas poéticas. E a oração é o sentido do cordel. Começar uma estrofe falando uma coisa e terminar falando a mesma coisa. Isso é importante. Cordel é a busca desse sentido, com a rima e a métrica. Uma estrofe plena de sentido.

Eu venho preocupado com a forma com que as pessoas recebem o cordel. Dizem que as crianças não gostam de cordel. Veja bem, se você for apresentar o tradicional para uma criança? Ela quer ver um negocio bonito. As letrinhas bem claras. Venho tentando buscar uma forma de apresentação dessa literatura mais bonita. Não quero dizer que eu estou querendo ser perfeccionista.

REVER – Mas um cuidado estético…

Dudu – Um cuidado estético! A geração atual é muito do visual. Meus alunos estão direto no celular. Eles não leem, mas veem. Atualmente a gente vê mais do que lê, né? E o cordel é ler. É li-te-ra-tu-ra. Feito pra ler.

Para apresentar o cordel para ler de qualquer jeito é meio difícil. Tenho tentado fazer isso. Aí tem toda dificuldade. Não desenho e não diagramo. Tem que mexer com um e com outro. Sem verba. Aí pede para um amigo. O amigo faz e não tem tempo de terminar e deixa pela metade. Pego essa metade e dou para outro amigo. O outro amigo faz uma parte. Ai fica um processo bem lento.

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REVER – E o primeiro cordel?

Dudu – O primeiro cordel que escrevi foi “Superstição uma Zorra!”. Esses cordéis aqui (mostra uma leva de cordéis) já foram publicados. Não teve grande publicação. Cheguei a vender os cordéis na orla e em alguns eventos.

Já escrevi ‘Superstição uma Zorra’, ‘Pré-história e referência do Passado Milenar’, ‘O fim do Mundo’, um cordel de mote – ‘Para que tantas flores no jardim se eu não tenho quem eu quero bem’. ‘Bonita assim desse jeito igual a você ninguém’.

Tem um que é pensando em criança. ‘A morte do jacaré a vingança da bicharada’. ‘O cordel da solidão’. ‘A moça que virou um pé de cereja’, ‘A história de Tito Roberto’.

E tenho dois que foram feitos para ganhar dinheiro. Um é a historia de amor de um casal. Como eles se conheceram no São João, a moça queria que no casamento tivesse uma literatura de cordel contanto a história de amor do casal. E o outro é a saga do ex-ministro Carlos Ayres Britto, que estava sendo homenageado no congresso brasileiro de direito em Salvador. Eles contrataram esse trabalho e eu fiz. A gente faz pra ganhar um dinheiro.

REVER – O que você faz pra circular esses cordéis?

Dudu – Tenho recitado em saraus e para os amigos. Tenho colocado na internet algumas coisas, no facebook. Tenho feito mais cordel, mas estes trabalhos eu escrevo no meu caderno esperando um bom tempo…

Pensando nesse negócio de apresentar a literatura de cordel, tentei que criar uma marca. Porque tudo tem que marca né? Tem que ser um negocio visual. Aí criei a ‘Vem das Nuvens’. ‘Vem das Nuvens’ poesias. Cordéis dos ‘Vem das Nuvens’. O Vem das Nuvens existiu. Era um boi de carro. Meu avô tinha uma junta de boi e um desses bois, segundo meu pai, se chamava Vem das Nuvens. Ói que nome? Mas por quê Vem das Nuvens? Os outros tinham nomes normais… Eu me perguntava o por quê Vem das Nuvens? Aí, meu pai disse que ele nasceu meio azul. Eu disse boi Azul?  –  É, é raro nascer um boi parecendo a cor do céu. Aí, eu fiquei impressionado com isso. Sempre escutava essa história e ficava impressionado com isso.

Quando resolvi fazer a marca eu disse vou falar no Vem das Nuvens, porque também os violeiros dizem que a inspiração vem de cima. Se a poesia vem de cima, a poesia vem das nuvens. Pronto. ‘Vem das Nuvens Poesias’. Fiz essa marca na intenção de publicar os cordéis da gaveta.

REVER – Você falou que só conheceu a literatura na universidade. E as outras literaturas? O que você lia antes do cordel?

Dudu – Eu li muitos romances. Sempre li. Esse ano eu li as poesias de Manoel de Barros. Que é fantástica. Me lembra muito a literatura de cordel. O mote é uma sentença, “Quem castiga um inocente não tem deus no coração”. “Para que tantas flores no jardim se não tem a flor que quero bem”. “Mil vezes ficar solteiro do quer casar sem amor”. Tudo isso é mote, são sentenças, a gente vai construir a poesia em cima daquela sentença. Manoel de Barros tem muito isso. A memória de infância é muito presente em Manoel de Barros. Ele me ajudou muito a fazer algumas coisas sobre a minha infância.

Os Corumbas e a Rua de Siriri são dois romances que li.

Mas na infância uma leitura que marcou muito foi os Trabalhadores do Mar, de Victor Hugo, aquele escritor francês. Eu já li quatro vezes. Gostei muito.

Outro livro que me marcou muito, isso eu já estava na universidade, foi Os Sertões, de Euclides da Cunha. Todo mundo devia ler. O pessoal dizia pra mim: você tem que ler Os Sertões. Você escreve cordel e gosta de forró.

As primeiras páginas são um horror. Euclides da Cunha era engenheiro. A primeira parte é ele falando da rocha e a geologia. Ele usa os termos técnicos. Castiga nas primeiras páginas, mas depois dessa parte o livro fica muito gostoso. Os Sertões é dividido em três partes: a terra, o homem e a luta. Quando ele fala do homem e da luta. Fica muito bom de ler. Me marcou muito.

Eu também escutei muita coisa, às vezes escutar determinadas coisas é como se fosse ler determinadas coisas.

REVER – A própria música também né? A letra é uma literatura…

Dudu – Exatamente. O pessoal não liga muito para as letras. Escutei e li o Auto da Catingueira de Elomar e fiquei impressionado. Um negócio que estou escutando agora – Elomar. Por causa da construção das histórias. Eu fico imaginando as construções das histórias.

REVER – Como foi exatamente o contato que você teve com a literatura de cordel? Você escrevia antes de conhecer o cordel?

Dudu – Eu tentava escrever umas poesias. Eu acho que tenho algumas poesias feitas antes da literatura de cordel. Mas eu nunca me agradei delas e ninguém se agradava delas. A gente faz muita coisa que não presta pra fazer uma coisa que presta. E às vezes as pessoas não aprendem que aquele cara está errando pra caramba porque ele está querendo acertar. Mas eu não considero mais essas poesias.

O cordel eu conheci quando fui fazer a disciplina história de Sergipe na universidade. O professor passou um trabalho para entrevistar uma figura da cultura popular. Eu não sei se todo mundo sente isso. Mas, aqui, a gente pensa: entrevistar quem da cultura popular? Quem dança um samba de coco, um reisado? Onde que a gente acha? Eu fiquei nesse dilema.

O meu cumpadi, Diego Couto, me disse: “entreviste meu padrinho, Seu Pedro, escreve cordel”. Entrevistamos Seu Pedro para fazer esse trabalho simples da academia. Depois da entrevista ficamos conversando um tempão. Seu Pedro Amaro é mestre, porque ele entende determinadas coisas que a gente nem vê. Aí ele disse que eu deveria escrever um cordel. Escrevi ‘Superstição uma Zorra’, que não ficou bom e apresentei para ele. Ele olhou e disse: “Que coisa linda, que maravilha, um negócio desse é fantástico”. Se ele tá dizendo que prestou vou escrever o segundo. O segundo foi a mesma recepção, o terceiro também. Hoje eu vejo que não era lá essas coisas toda. Fui perguntar a Seu Pedro por que é que ele dizia que aquelas coisas prestavam, aí ele respondeu: “se eu dissesse que era ruim você parava de fazer e não continuava”. Olha, repare como são as coisas né? Ele pensou até nisso. Essas coisas a gente vai aprendendo.

Ele disse que quando eu fui fazer a entrevista eu não ria. Agora sou uma pessoa que ri. Eu sorrio. Ele estava falando da dureza da academia. Do peso acadêmico, da busca da ciência. E a poesia é essa coisa mais leve.

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