Um convite à exposição fotográfica “Tempos Índios”

_DSC0105 ALdeia - MoemaCosta - ALTAAs fotos estão na galeria de arte do Palácio Museu Olímpio Campos, em Aracaju

*por Moema Costa

As fotos da exposição são frutos de um difícil trabalho de voluntariado realizado em julho de 2014, no município de Alto Paraíso, Goiás. Elas fazem parte de um compilado de fotorreportagens feitas para a assessoria de comunicação de um evento nacional em “prol” da cultura indígena. Na “Aldeia”, índios de várias regiões do país convivem, ritualizam, vendem, trocam utensílios e compartilham conhecimentos.

Antes mesmo de pegar o avião em direção a Brasília para mais esse trabalho, senti que precisaria aumentar a dose do que eu resolvi chamar de um “inconsequente arrojo pessoal” se quisesse voltar pra casa. Ainda em Brasília, descobri uma terra cinzenta, cheia de humanas amenidades e lógicas monetárias. Em Alto Paraíso, durante quinze dias pisando aquele chão de cristais, senti que é preciso mais do que arrojo para lidar com as contradições do ser humano.

Cheguei ávida por “encontros”, mas não demorou para que eu sentisse uma necessidade ainda maior de simplesmente me deixar imergir naquele mar de traços à base de tinta de urucum e jenipapo. Cada “presença”, com seus adornos de penas, grafismos, sementes e miçangas parecia imbuída de um encantamento infinitamente distante da “cultura express” das grandes cidades. Com o passar dos dias, descobri que Kayapó não gosta de ser chamado de Kayapó, pois Kayapó é nome criado por antropólogo, que é “homem branco”, e homem branco definitivamente não entende índio. Porque Kayapó significa “cara de macaco”. E os Kayapó, na verdade, se sentem “Mebengokré”, que quer dizer “Povo das Águas”.

Durante uma semana, vi índio fugindo de foto pra não ter a alma “capturada”, vi índio passando frio, “curumim” bebendo Pepsi, chupando pirulito e comendo Cheetos. Ví índio grande pedindo biscoito recheado pra matar a fome porque é “mais gostoso” que maçã e banana. Vi homem branco abraçando índio e adentrando a área central do ritual pra garantir a melhor foto e postar nas redes sociais.

Tão intensa quanto transformadora, essa experiência ampliou o meu modo de ver o tão diverso “parente”. E me fez perceber o quão contraditória é a iniciativa de certos grupos que insistem em se autodenominar agentes de resgate dessa cultura ancestral. Aprendi que cabeça de branco pensa sem sentir e tem mania de tomar a frente sem antes praticar uma escuta profunda, que vai além da comunicação formal. Viver o índio é se colocar de cabeça pra baixo, deixando cair todas as moedas dessa aposta pra descobrir, entre outras coisas, que valor não se limita a preço.

# O QUÊ? EXPOSIÇÃO ‘TEMPOS ÍNDIOS’

# QUANDO?  ABERTA ATÉ O DIA 16/10

# ONDE? PALÁCIO MUSEU OLÍMPIO CAMPOS

*Moema Costa é fotojornalista

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