Um olhar poético: Onde vivem os monstros?

monstrosNos esforçamos diariamente para nos adaptamos à eles, a fim de uma melhor convivência com os outros, buscamos liberdade e lutamos para que a mesma seja sempre respeitada

*por Adriana Caló

Filme: Onde vivem os monstros(Where the wild things are)

Direção: Spike Jonze

Roteiro: Spike Jonze e Dave Eggers, baseado no livro de Maurice Sendak

EUA, 2009

“O filme serve para exercitar o homem nas novas percepções e reações exigidas por um aparelho técnico cujo papel cresce cada vez mais em sua vida cotidiana. Fazer do gigantesco aparelho técnico do nosso tempo o objeto das inervações humanas – é essa a tarefa histórica cuja realização dá ao cinema o seu verdadeiro sentido.” (BENJAMIN, 1987, p.174)

Baseado na obra de literatura infantil, de Maurice Sendak (1928-2012), o filme “Onde Vivem os Monstros” é excelente e vai muito além de uma exclusividade infantil, pelo contrário, apesar da faixa etária, as crianças não compreendem a mensagem e até se assustam com os monstros, porém a simbologia de cada um, faz com que nós adultos nos encantemos com os monstrinhos e identificamos qual o verdadeiro sentido em temê-los.

Iniciando com a história de um menino possuidor de uma imaginação fértil, o provável para sua idade, o filme retrata os enfrentamentos do crescimento onde as ações tem uma enorme carga psicológica, ou seja, toda ação causa reação.

Não obstante, e o mais acentuado deste filme, esses conflitos não estão presentes somente na infância. Nos esforçamos diariamente para nos adaptamos à eles, a fim de uma melhor convivência com os outros, buscamos liberdade e lutamos para que a mesma seja sempre respeitada.

Alguns dias antes do garoto fugir, devido sua birra com a mãe, e embarcar em sua “viagem à terra dos monstros”, há um diálogo entre eles bem característico, onde podemos observar seus problemas, onde o mesmo cria um conto infantil:

“Era uma vez dois edifícios. Dois edifícios bem altos que podiam andar

E tinha uns vampiros.

Um dos vampiros mordeu o edifício mais alto e seus dentes quebraram.

Aí, todos os outros dentes caíram. E ele começou a chorar.

Então, os outros vampiros perguntaram:

– Por que vocês está chorando? Não são seus dentes de leite?

E ele respondeu:

– Não. São os meus dentes definitivos.

E os vampiros viram que ele não poderia mais ser vampiro e o abandonaram.

Fim.”

Desde muito pequenos buscamos nos encontrar neste mundo, fazer parte de um grupo, de ser compreendido e valorizado por nossos feitos. Ainda mais, vivemos em uma sociedade de muitos julgamentos e pré-conceitos, onde o novo, o diferente, o autêntico, sofre as maiores consequências. Não somente as crianças, mas todos precisam saber lidar com as frustações, pois de um jeito ou de outro elas surgem.

Existem sentimentos que não conseguimos evitar, mas temos que ter o discernimento para compreender que nem tudo que almejamos conseguiremos alcançar, ou não no nosso tempo. Não digo que é uma tarefa fácil, mas precisa ser constantemente pensada, por vezes alcançamos mais rápido do que esperávamos, mas quando não, é preciso prudência.

Muitas vezes ocultamos essas frustações e fingimos não sentir os abalos que causam. O que de fato só nos prejudica. E quando perdemos o controle a ajuda de um profissional será requisitada, mas quanto mais aprendermos à expressar nossos sentimentos, seja em uma poesia, um desenho, pintura, em uma conversa amistosa ou até em uma canção, controlamos essas energias que emanam de nossa mente e coração.

Portanto, nós sabemos, e bem, onde vivem os monstros, basta a cada dia aconchegá-los e alimentá-los de modo que os mesmos sigam nossos comandos. Ah, e claro, vez ou outras liberte alguns deles.

 

Poetizando: Onde Vivem os Monstros

Sentimentos que crescem e dominam nossointerior

Ciúme, medo, raiva, baixo astral, rejeição, rancor…

Como monstros precisamosadestrar à cada situação

Amor, solidariedade, alegria, amizade, compaixão, …

Encaramos monstros tão volúveis

Ante às peripécias de sobreviver

Nos deparamos com problemas fúteis

Mesmo assim, causam transtornos em nosso ser

Somente com a experiência de um ato

Conseguimos enxergar como modificar

Fazer vista grossa não retira o fato

Que estes monstros não voltarão atacar

Encarar e compreender, uma eterna reflexão

Só assim os monstros se adaptam em nosso coração

 

BENJAMIN, Walter. A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica. In: _______. Magia e Técnica, Arte e Política. São Paulo: Brasiliense, 1987. (Obras Escolhidas v.1) 

*Adriana Caló é escritora, formada em história

 

 

 

 

2 comentários sobre “Um olhar poético: Onde vivem os monstros?

  1. …achei lindo o que escreveu Adriana…mas confesso a você que me assusta esta persistência de criação de monstros perpetradas pelas mais variadas instituições e sociedade doentia. De fato compartilhar o aprendizado da “adaptação” para a inserção no mundo da “normalidade” é o que nos apontam como caminho, mas penso que é urgente caminhar no sentido da concretização e viabilização do amor e paz, que é mesmo como afirmou, ter como premissa conhecer os monstros que habitam dentro e fora de todos e saber lidar com eles, mas também persistir em evidenciar que a maior” monstruosidade” consiste ainda, na não capacidade de aprender a amar o diverso, o diferente, o avesso e, até mesmo , os monstros…que também carecem e muito de amor. E esse caminho só conseguimos mesmo como afirmou através do despertar para o acalento das artes em geral, da escutatória amorosa, do contar e falar de histórias, enfim com atividades que promovam mesmo o nascimento da poetização e encantamento do ser. Namastê Albertina Assenção Madureira Rodrigues

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