A decadência de Vina Torto

12167346_891481604269822_1733182522_n
Uma reflexão sobre a cultura sergipana, música brega, o papel pedagógico do caos, a vida e qualquer outra coisa que você achar aqui

*por Igor Bacelar

Ele só quer que o canal mais podre e imundo da cidade, no futuro, leve o seu nome para a memória das gerações que não virão. Rumo ao esquecimento. Como um projeto de feto fecal destinado à putrefação e perdido na torpe memória das entranhas, oxigenando os canais, expulsando a fauna antiga em meio à eutrofização. Trazendo novos bichos. Simulacros deformados, verdades tortas, piadas inconsequentes de algo que era celebrado como vida e agora é debochado como sobrevida. Vina é o pai dos órfãos que nunca existiram, a voz dos exilados que nunca gritaram, o filho invisível da gestação psicológica (psicótica) de uma mãe negligente e irascível. E o caba, ainda assim, incomodou muita gente! 28 de Abril de 2015

I – Antes

Cento e cinquenta e três dias depois deste prólogo, que se iniciou com a primeira frase, sugerida pelo próprio “objeto” desta crônica, estou aqui sentado diante do lap top. Escuto dezenas de pardais e rolinhas caldo de feijão. Há, inclusive, uma superpopulação das últimas aqui pelo bairro vivendo sob os telhados tropicais destas casas de tijolos erguidas por mãos ressecadas. O meu rosto está oleoso, do calor úmido e impetuoso, de uma ressaca de leve decorrente da noite de ontem.

Antes de começar este relato, devo ambientá-los metafisicamente sobre o humor destas linhas, o teor desta composição literária. Eu e Vina nos conhecemos há uns sete anos, mas a primeira vez que o vi, de fato, foi em uma antológica apresentação no CEFET em 2006, nos tempos de transição onde as novidades ainda estavam na rua e não intermediadas por um computador.

Psicodélicos e Psicóticos era o nome da banda (ou “PSI PSI” como o próprio Vina se refere). O “Big Smurf” estava à frente daquele conjunto que executava um napolitano de rock, música brega e qualquer coisa indefinida.

Curioso que naquele momento surgiram experiências que bebiam da mesma fonte referencial, como a “Please No” (que, inclusive, Vina compôs uma música com eles, “Mulher da Funerária”, para o “5 Reais Pra Fazer Caridade”) e a Tamaguxi de Tiêta (a qual fiz parte até catastroficamente ter sido expulso depois do primeiro ensaio). Todas essas três bandas que mencionei tinham outro fator em comum: o deboche como premissa.

A própria figura de Vina Torto incorporava a aura do deboche naquela apresentação que vi. Era o sarcasmo, a ironia, o humor reencarnados. Se o corpo é o veículo do espírito… A piada estava ali sendo contada através de sua figura cavernosa e de sua abordagem alucinada sobre aquele palco.

O que diferia entre as bandas que mencionei e a proposta dos Psicóticos através de Vina, era essa necessidade de debochar das coisas não como um estilo, mas como o sintoma de uma enfermidade grave. “O riso é a melhor forma de desestabilizar as coisas ao redor”, disse enquanto conversávamos em um barzinho tradicional da Jabotiana há três dias atrás.

Foi daí que a banda galgou a sua trajetória, conquistando festivais e se projetando pelo país. Vina, inclusive, compôs várias músicas para outros artistas executarem, alguns desses de grande reconhecimento (os quais não poderei mencionar por questões relativas a direitos autorais). Em um breve período eles se fizeram ser ouvidos e como todos aqueles que aparecem para nos contar uma verdade inconveniente, o ostracismo se fez lei.

Foram marcados três encontros ao longo de duas semanas com Vinícius. Até finalmente nos encontrarmos na última segunda-feira (28). Sempre havia algum imprevisto, alguma contingência que o impossibilitava de cumprir a nossa agenda comum.

E caminhando pelas ruas do Sol Nascente e JK, após três tentativas frustradas de sentar numa mesa de bar para destilar nossas hemorragias verbais, finalmente encontramos o palco ideal para termos uma conversa informal como já as tivemos algumas outras poucas vezes.

II- Misantropia

Estávamos na calçada, quase na esquina para a rua, sob uma amendoeira, sentados em uma mesinha de plástico. Fui no balcão e pedi um conhaque de alcatrão com mel e limão. Havia um quadro bastante curioso com macacos antropomorfizados atrás do balcão. Cores cinzentas naquela parede suja.

O dono e atendente do bar me trouxe a bebida em um copo de vidro, daqueles que sempre nos servem o conhaque. Vina pediu uma coca. A coca chegou geladíssima. Uma latinha de alumínio e um canudinho. “Eu gostaria de um copo”, Vina disse. O dono se retirou e retornou com um copo plástico. “Eu gostaria de um copo de vidro”, Vina retrucou. “Esqueça a coca”, reivindicou o dono do bar retirando a coca da mesa. “Eu quero a coca”, rebateu Vina segurando a latinha. “É melhor esquecer”, insistiu. “Mas, eu quero a coca”, protestou.

A coca foi levada dali, após uma leve discussão e eu liguei o gravador enquanto bebia o meu conhaque. Vina não bebia nada, mas pegou o seu pacotinho de fumo e o cachimbo e aquele odor perfumado começava a exalar naquele lugar. Liguei o gravador.

“Esse tipo de coisa que acabou de acontecer agora me leva a… É como eu disse a você. São somatórias que vão se acumulando que me fazem a ir desistindo realmente daqui. Porque de fato, quando eu falo essas coisas, algumas pessoas acham que é rebeldia da minha parte. Mas, não é não. Quando você vai viver em outro lugar, como foi o meu caso, passar anos em outro lugar, você vai tendo a capacidade de fazer comparativos e aí você vai começando a entender porque é que Sergipe tem uma dificuldade de se ampliar enquanto turismo, enquanto desenvolvimento turístico e tal. Por causa desse tipo de comportamento! Porque se você parar pra olhar racionalmente o que aconteceu, foi bem interessante isso, como é que eu vou saber, por exemplo… eu faço… olha, o cara trouxe uma coca cola com canudo, eu quero um copo, aí o cara me traz um copo descartável. Tudo bem, eu poderia ter pedido um copo de vidro, mas eu ia adivinhar que o cara ia me trazer um copo descartável? Eu poderia dizer o seguinte… é o direito dele, obrigação dele, eu digo assim, amigo, eu queria um copo de vidro. Pegava um copo de vidro! Se ele não tem o direito de adivinhar que eu queria um copo de vidro, também não é o meu direito aceitar o de plástico. Ta entendendo? Mas, ele enquanto posição de atendente do bar, me trazer o de… vidro! Não é verdade? Aí fica chateado como se fosse um direito meu ter que exigir o copo de vidro e que ele já fez por demais me trazer uma lata, ta entendendo? Aí, tipo, essa situação amadorística da cidade, que aí você pensa assim, um cara vindo de fora vendo uma situação dessa aqui… ele não vai ter uma impressão boa, não vai mais lembrar disso bem. Esse tipo de comportamento aqui… é mais recorrente aqui do que na Bahia ou em Alagoas, por exemplo. Você vá pra Penedo passar um fim de semana e veja a quantidade de eventos culturais e estrutura nos museus e ter alguém pra te explicar as coisas. Agora, passe um fim de semana em Neópolis, que é do outro lado do rio e você não tem nada! Há uma falta de investimento do próprio Estado em motivar um fluxo de pessoas, de turismo, para conhecer o Estado, para estimular a potencializar um conhecimento… a respeito do Estado.” (sic)

III- Cerveja velha, tal certeza que perdura

Antes de chegarmos ao bar, falamos brevemente sobre minha teoria de que eu não concordava cem por cento de que o governo deveria ter uma participação onipresente nas iniciativas artísticas produzidas aqui. Com exceção de certas produções tradicionais que estão ligadas à memória cultural dos indivíduos.

 A solução deve vir do próprio artista e das iniciativas privadas.  Para isso, fiz uma comparação tosca com a poderosa indústria norte-americana que impõe o seu modelo produtivo sobre o mundo ocidental.

Mas, o Estado é de fato culpado através de suas políticas estrambólicas, ao favorecer uma cultura externa em detrimento da local. De ser um empecilho do empoderamento dos atores culturais que compõem nossa sociedade. Então, sim, de fato há uma dívida histórica e corrente… Gerando juros astronômicos em um estuário riquíssimo de experiências relevantes.

O artista não tem acesso aos meios necessários para se fazer reconhecido pela sua própria comunidade. Sem esta mediação, não há heróis, nem sequer antagonistas.

“Se você não tem uma divulgação estrutural não há possibilidade de alterar coisas. O Estado tem que viabilizar essas oportunidades. Se você não cria formas de fomento para a cultura não adianta. A Aperipê deu meios, mas e aí? Da rádio vai pra onde? Da tv? Pra canto nenhum mais! Como disse um certo cantor de arrocha… Vina, sabe por que é que eu não toco mais aqui em Aracaju e fico nos interiores? Primeiro é que os interiores é que me chamam. Porque Aracaju, se você parar pra olhar, na época ele morava no edifício Futuro… Olhe aqui pro centro, aqui atrás tem a Calazans. Desça três quarteirões e vai dar no rio Sergipe. Acabou Aracaju! Então se você não tem uma política cultural pra viabilizar o artista pra ta divulgando seu trabalho… Vai fazer o que mais aqui? A situação hoje é a mesma da época da Psicodélicos. Não mudou muita coisa não. “(sic)

E como é que a música está se comportando por aqui? Onde você a encontra?

“Você vai a um evento e você conhece pessoas, e elas vão te comunicando das novas produções, e você recorre a internet. Então, quando você não tem uma propagação de mídia e não vai para esse lugar, você fica meio que perdido, ta entendendo? Sem saber aonde você vai conhecer essas coisas. O que eu percebo de propagação de produção musical hoje em dia, que eu ando notando no primeiro momento enquanto qualificação técnica, é que o nível tem melhorado bastante. Não sei se devido ao aprimoramento de recursos e estúdios que temos hoje, os recursos para gravar. Você pega aqueles vinis dos anos 80 e 90 do Irineu Fontes, Paulo Lobo e você vê que a qualidade poética é muito boa e o recurso técnico deixa a desejar. Os caras, pra gravar, iam no mínimo pra Salvador. O cd da Lêmures é excelente!  Tirando o de vocês, que eu tô falando de linha técnica, mas de linha poética, são letras excelentes. Acho que (Aracaju) tem melhorado bastante, mas o que eu tenho percebido é que a quantidade de locais tem diminuído bastante. Não sei se havia mais lugares antes ou se era pelo fato de você com banda meter as caras. Você tinha na época festivais, que sinceramente, agradeço aos festivais que nos deram a chance de mostrar o nosso trabalho, apesar de eu reconhecer que aquele público não era disponível para consumir o nosso trabalho. Mas, tínhamos a oportunidade de gritar ali o que a gente queria dizer. Eram os canais que a gente tinha. O que a gente obteve através de premiação e reconhecimento foi através de festival. Nossa veia estética não era compatível com quem estava competindo ali com a gente.” (sic)

E muito provavelmente por isso, tenham sido exitosos em suas investidas. Desafiando as estruturas impostas e cutucando uma ferida que ninguém sabia que existia ali, até ser futucada.

IV- “A vida é um presente de tróia”

“Eu gosto de escrever coisas fragmentadas. Eu gosto de escrever sobre o copo e o copo começa a falar da cidade, da moto”, afirmou Vina sobre sua forma de compor descontínua. “A descontinuidade torna a estrutura textual da letra caótica, mas o caos não significa, pra mim,  ausência de produção de sentidos, ao contrário, o caos pra mim é produção de sentidos. É como pegar um quebra-cabeça, desmontar e ser capaz de criar estratégias pra montar. A letra como fôrma é muito limitada, reduz a capacidade do leitor de produzir sentidos. Papinha pronta pra abrir a boquinha… Pintei um quadro, é uma flor. É… Eu tou vendo que é uma flor. Se eu faço a bagaceira, você vai ter que produzir, você é autônomo do seu próprio sentido. Você é o protagonista da história, pô.” (sic)

O que me fez resgatar uma leitura que estava fazendo sobre a produção de sentidos no ato de jogar videogames. O texto nos fazia compreender esta lógica inerente dos jogos eletrônicos traçando um comparativo com as obras do artista brasileiro Hélio Oiticica e os seus parangolés interativos.

A maioria dos parangolés apresenta-se como capas para vestir, de tecido ou plástico, servindo de suporte para elementos pictóricos ou verbais (Poltronieri, 2009). E a ideia de confeccioná-los surgiu quando Oiticica se envolveu com o samba e sua dança lá pros idos de 1964.

A criação de seu sentido se dá quando o indivíduo literalmente veste a obra e os resultados não podem ser previstos pelo artista, emanando possibilidades e concentrando virtualidades.

Segundo o historiador Jardel Dias, as capas são feitas com panos coloridos (que podem levar reproduções de palavras e fotos) interligados, revelados apenas quando a pessoa se movimenta. A cor ganha um dinamismo no espaço através da associação com a dança e a música. A obra só existe plenamente, portanto, quando da participação corporal: a estrutura depende da ação. A cor assume, desse modo, um caráter literal de vivência, reunindo sensação visual, táctil e rítmica. O participante vira obra ao vesti-lo, ultrapassando a distância entre eles, superando o próprio conceito de arte.

“The medium is the message.”

“Eu acho que a busca do sentido que a gente tenta dar às coisas chega a um nível excessivo de questões tão grandes  e uma escassez tão grande de respostas que chega ao senso do absurdo, tão grande que vira cômico. O engajamento é cômico, ninguém nesse mundo se você parar pra olhar com toda sinceridade do mundo, ninguém pediu pra nascer. E a vida é um presente de tróia e a gente ta aqui se machucando, se ferindo pra tentar achar uma coisa que não foi feita por nós e nada melhor do que o riso como uma ferramenta pra suportar isso aí. O riso é mais poderoso do que “policial filho da puta! abaixo o sistema!” e eu não faço isso porque acho que é uma arma. Vem de mim! Porque às vezes é insuportável ver as coisas com muita seriedade. Rir construtivamente. Não rir alheio. Não gosto da palavra engajamento porque é muita pretensiosidade, muita seriedade em cima de uma realidade que está muito aquém do que eu possa sugerir pra mim.” (sic)

V- É Kitsch, é brega

Eu estava conversando com uns amigos em um boteco que servia refeições tipicamente estadunidenses e discutíamos sobre surf. É um dos poucos esportes que provocam a sensação de vazio absoluto. Só existe você e a natureza.

Como em todo esporte, nós mesmos somos o nosso maior inimigo (claro que em muitos há também os outros competidores), o nosso limite, mas quando estamos surfando ainda dividimos esta relação com as forças do oceano. Ficamos entretidos demais em superar essas duas variáveis para pensar em alguma coisa além disso.

Os músculos trêmulos avançando mar adentro e as ondas que são enviadas desse cabuloso processo de inspiração e expiração das monções, do próprio movimento do planeta, cada uma distinta da outra, um mar de imprevisibilidades, a face escancarada das casualidades. E estamos ali por uma concessão dúbia. “Hoje, acho que não vou te engolir”, diz o mar ou você mesmo.

Pedi mais um copo de conhaque enquanto Vina continuava baforando a fumaça daquele cachimbo. À nossa frente havia outras mesas e um sinuca no qual o artista havia passado alguns bons momentos no passado, há mais de dez anos. Eu costumava ir comprar farinha ali quando era pequeno. Farinha fina. E agora estava sentado ali tomando conhaque de alcatrão.

Por mais que Vina não fosse bem-vindo ali por conta do episódio da coca, não havia cenário melhor para prolongarmos estas elucubrações acerca da arte e seu papel transformador. A copa da árvore velha estava sobre nós, nos acolhendo com sua sombra imensa naquela tarde quente. Somente isso importa. Se ela nos forneceu abrigo, quem seria mais legítimo do que ela para nos deixar à vontade? Aliás, o dono do bar tem uma concessão pública. Nós somos o “público”.

O Torto me contava da sua introdução à música ainda na infância enquanto tragávamos nossos vícios goela adentro. Seus pais são pessoas oriundas dos setores populares e por consequência consumiam muita música popular como Luiz Gonzaga, Jovem Guarda, música cafona dos anos 60 e 70, Paulo Sérgio, Waldick Soriano… O que teve um impacto muito forte não só em sua predisposição para produzir arte como também para seus esforços acadêmicos (monografia e especialização em mestrado em música brega na área de sociologia).

Mas, o princípio foi com a “Arca de Noé” de Vinicius de Moraes. Sua mãe comprou o disco para ele, por ser muito fã do carioca. Inclusive, seu nome é uma homenagem ao artista que faleceu um ano antes do seu nascimento. Pronto! Mais um animalzinho naquela arca que permaneceu em estado latente até a sua adolescência quando se interessou definitivamente pela música como agente ativo.

Relembrar a adolescência nos rendeu algumas risadas. Foi quando nos descobrimos criativamente pra o que quer que seja. Vinicius costumava escrever sobre “pica na boceta, filho da puta, chupe minha pica” e eu falava sobre “américa nua e crua, virgindade e inocência”. Em um período no qual nem compreendíamos isso, mas tínhamos sede de mergulhar neste universo. Adolescência: quando os bebês tomam um cruzado de direita e percebem que o mundo não lhes pertence.

“Seus pais já viram isso”, perguntei. “Uma vez meu pai abriu a porta e me viu descascando a macaxeira”, respondeu. “Eu me referia às letras”, expliquei já em gargalhos.

Essas fases vão passando e de Raimundos, influência mútua de nossas adolescências, Tom Zé, Itamar Assumpção, Arrigo Barnabé, Naná Vasconcelos vão sendo introduzidos às diversas referências musicalmente ideológicas. Mas, a música brega está ali amiúde.

Se você pegar pra escutar o que foi produzido com a Psicodélicos e Psicóticos há dez anos atrás, poderá notar que a cafonice é palavra de ordem no caos descontínuo daquelas prosopopéias.

Hoje, segundo o artista, a galera faz brega estilisticamente, não é mais espontâneo, pois é intencional. “A modinha retrô” como ele mesmo disse. Não vem de referências lá de trás. O que podemos verificar facilmente na música que é produzida hoje em dia por muitas bandas que estão na ativa, seja em Sergipe, Recife ou São Paulo.

Certa vez, descrevi o trabalho de um artista como influenciado pelo brega ao passo de que ele me confessou de que não gostava de ser tachado como brega lá nos anos 80. “Falar que a sua música tem uma pisada no brega, tem uma relação com a música do mal gosto”, disse Vina.

A aura do cult se apossou do gênero musical, que não se resume a isso somente, mas a um comportamento. Vivemos na era da gourmetização, das apropriações de discursos que convergem na dinâmica da maquinaria suja involuntária das engrenagens desta força invisível que sustenta as relações de todos os indivíduos. “O kitsch legitimado. Porque é o brega da classe média com um projeto político estético”, concluiu.

VI- Ordem

Não havia nada de musicalmente rebuscado nos três anos de atividade da PSI PSI. Os velhos lá menor, dó maior e sol. “Coisa que o Pablo do Arrocha faz até mais complicado”, afirmou. Nada de esquisito aos ouvidos, nada de atonal ou dodecafônico, pelo contrário, o absoluto simplismo, mas não como princípio minimalista. Era a própria essência não-intencional da coisa toda.

O que destoava era a voz zombeteira e distorcida do seu porta-voz, a lógica intermitente de sua poética. O feio belo, o grotesco sublime, o tragicômico levados a um grau de exagero que promovia diversos sentidos e sensações. Uma estética difícil de ruminar.

“Mais estranho do que eu é Mingo Santana. Se você pegar “O som das araras”… caralho, que caba estranho é esse? É um astronauta! Pegar um Chico Memória… Que porra é essa? O caba é muito doido”, Vinicius comparava enquanto dirigia pelas ruas do centro. Já não estávamos mais no bar.

“É o caos que destrói o status quo. O caos é polifônico. Nossa mente é polifônica. A arte do caos tem função pedagógica, educativa, de criar o cidadão e ele construir o seu próprio mundo. Não tenho medo de misturar no punk um arrocha. A gente cria uma máscara externa de que existe ontem, hoje e amanhã. Mas, o tempo ele é ontem, hoje e amanhã ao mesmo tempo. A decadência do Vina Torto é mais por uma questão mesmo biográfica do que estética”, concluiu.

Os gatos, por exemplo, tem uma percepção temporal que é inalcançável através de nossa forma de racionalizar as nossas experiências. Eles percebem a música, por exemplo, como um processo de homogeneidade temporal. Não há notas sequenciais, é tudo difuso. É tudo de uma só vez em um só tempo indefinido.

Desci do carro e fui em direção do local em que trabalho. Ainda sentia os efeitos do conhaque. Cheguei à recepção e me esquivei dos olfatos atentos. Fui em direção do bebedouro e bebi o máximo de água que poderia antes de dar a minha primeira aula.

Comentar

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s