Os sujeitos que permeiam o mundo… que assujeitamento é esse?

sujeitamento

O texto tenta relacionar os diversos estudos que esse objeto tão fascinante, o sujeito, vem adquirindo ao longo do tempo

*por Cíntia Silva

Ao se pensar a questão do sujeito, como podemos buscar o seu conceito? De que maneira nos constituímos como seres pensantes e reflexivos em nossa forma de viver? A existência que se transforma em conhecimento acaba por impor ao sujeito um certo desembaraço, desapego muitas vezes de tudo o que já pensara ou construíra um dia. Uma existência que não se dissocia da consciência, e por conseguinte da subjetividade. Esse texto tenta relacionar os diversos estudos que esse objeto tão fascinante, o sujeito, vem adquirindo ao longo do tempo. Tratar do sujeito implica em transportar-se numa subjetividade imensa e porque não dizer a um sufocamento, uma vez que a consciência do existir muitas vezes pode não libertar. Explico: o próprio ato da existência e de todas as possibilidades que ela nos traz muitas vezes faz com que tenhamos vontade de nos abandonar.

Defendo a ideia de que não há, em se tratando da relação sujeito-mundo-sujeito, nenhuma possibilidade de se abster das questões cotidianas. Refletir sobre essa temática não implica apenas em conhecer teorias, que é o que se busca nesse texto, mas sobretudo, perceber essas teorias em nossas práticas diversas, práticas de todos os dias…

É sabido por muitos que o conhecimento alegra, principalmente quando se volta para o centro do sujeito (nós), envolvendo-o em sua plenitude. Na concepção Hegeliana, a ideia de sujeito era defendida como unidade viva, sendo ele visto como dotado de potências transcendentes, um ser absoluto. Uma conveniente Filosofia do Real – que compreende a natureza e o espírito, sendo este o mais poderoso, o que emerge o mundo material. Segundo Hegel, o sujeito atua em pura atividade, com autodesenvolvimento, autoarticulação e manifestação de si. Dessa forma, estaria então, o sujeito, longe de ser visto como algo acima de uma esfera sensível, mecânica, empírica e sem vida, um bom começo.

Para Freud, todas as suas considerações a esse termo eram feitas a uma ideia de participante ativo, de autor da ação. Mais tarde seus textos serviriam de inspiração para Lacan. O “sujeito” em Freud, ainda era marcado pela noção de unidade e indivisibilidade, o centro de seu funcionamento e de sua existência era a razão. O seu circuito pulsional estabelece um movimento cujo “eu” vai em direção ao “objeto”, voltando ao eu, sucessivamente. Tal movimento circular realiza a ideia de sujeito como autor da ação que acaba se convertendo em alvo. Nesse elo, algo se produz.

Nietzsche faz uma desconstrução da ideia de sujeito, à medida em que desconstrói o conceito de moral. Pois segundo o filósofo, só há moral quando há um sujeito que age de acordo com um fim. As críticas de Nietzsche estão direcionadas ao sujeito moral decadente e fraco, presente na cultura cristã ocidental. O homem, como um ser subjetivo da cultura, reduz-se a uma condição de sujeito fraco, doente e inerte, de forma que se faz necessária uma “vontade de potência”, a vontade que está no corpo.

Uma importante ressalva se faz necessária no que diz respeito a essa “vontade de potência”, e a essa relação que Nietzsche faz entre o homem e seu corpo, sendo essa uma relação plural e constituída por forças. Para ele, o sujeito pensa e deseja de forma inconsciente, tornando-se consciente apenas uma parte de tudo o que foi pensado ou desejado. O “sujeito” na visão de Nietzsche não existe porque pensa, nos tornamos conscientes na medida em que o nosso inconsciente se projeta na nossa própria vontade. Seríamos então constituídos por forças de criação, as chamadas “forças ativas” e somos reativos quando somos dominados por forças de conservação.

Compreendendo-se a ação como uma consequência da vontade, se postula um sujeito responsável pela ação. Poderíamos afirmar que a vontade de potência estaria ligada aos enunciados prontos que interferiam na própria moral dos homens? Aos discursos que os homens deviam proferir ao se sentirem alienados e desconstruídos? . É compreendido que, na sua visão o sujeito é um ser moral, todavia, não se pode deixar de considerá-lo também um ser social. Qual seria o sentido da moral no homem?

A natureza social da fala, da enunciação é valorizada na concepção bakhtiniana. Dentro dessa vertente, o sujeito se constitui por meio da alteridade e da integração com o outro, que por sua vez estará também se constituindo. O ser humano se embasa em seu conhecimento científico através da pluralidade, do dialogismo, da carnavalização, da polifonia. Segundo o grande Bakhtin, a real substância da língua não se constitui num sistema abstrato de formas linguísticas e nem tampouco pela enunciação isolada, e sim pelo fenômeno da interação verbal, que se realiza por meio de enunciações, constituindo a realidade fundamental da língua. Esse grande pensador, que se enveredou por várias ramificações do conhecimento, como a filosofia, a linguística, a sociolinguística, até mesmo a religião, nos faz levantar inúmeras questões sobre o valor então social na vida dos sujeitos.

A unidade de análise das relações discursivas acontece pelo enunciado. Dentro do princípio da alteridade, há uma ação de se pensar participativamente, exposta pela linguagem. Bakhtin, em sua obra “Estética da criação verbal”, aborda que o enunciado deve ser enxergado como uma resposta a outros, confirmando-os, rejeitando-os, complementando-os, tem do em vista que para o autor, ao definir uma posição o sujeito precisa correlacioná-la a outras posições. Nenhum enunciado se esgotaria em si, estando sempre em constante movimento.

O indivíduo não se constitui enquanto sujeito individualmente. Dentro da produção de uma língua, há individualidades e subjetividades organizadas num contexto social. O sujeito é responsivo, dentro de uma linguagem estabelecida numa situação social, histórica e cultural. Bakhtin também refletia sobre a questão da alma, numa visão ainda mais profunda (normal entre os pensadores russos) entre um sujeito e outro, em que um sujeito-indivíduo tem a obrigação de ser responsável pelo que ele diz e pelo que ele faz. Somos sujeitos responsáveis pelos nossos atos e pelos nossos discursos, a todo o momento.

Dentro da análise Lacaniana, tem-se um sujeito que nasce por ação da linguagem, cujo lugar do outro é ocupado pela mãe, que o oferece significantes, através da fala. O sujeito é por natureza alienado, se submetendo aos diversos significantes que lhe são ofertados. No entanto, há sempre uma perda, uma vez que o seu ser pode não ser coberto desse sentido dado por esse outro. Haverá sempre uma batalha entre o ser e o sentido, que se emerge por meio do outro. Trata-se da escolha forçada, do “sujeito assujeitado”.

Para Lacan, o sujeito é o que um significante representa para outro significante. O termo sujeito é um campo vazio. Há uma dependência do discurso do outro para que sua existência tenha efeitos, “O que busco na fala é a resposta do outro. O que me constitui como sujeito é a minha pergunta”. As influências psicanalíticas e antropológicas fazem parte do discurso lacaniano, mas também se observa grande influência linguística e filosófica em seus estudos sobre o sujeito. Numa relação entre dois membros de um diálogo se constitui a identidade. É por meio do olhar do outro que o sujeito se identifica, como um reflexo.

O sujeito e sua consciência fazem parte de uma racionalização da filosofia moderna. Não há uma possibilidade concreta de dissociação da filosofia do sujeito frente ao conhecimento. Percebe-se cada vez mais que as relações sociais estão muito centradas no ativismo, no fazer automático e pouco reflexivo, sem se aprofundar nas questões filosóficas que incluem o ser humano (sujeito). Isso pode ser refletido, por exemplo, no discurso de Zygmunt Bauman, quando ele trata da “Modernidade líquida”, onde nada se constitui como sólido, tendo os sujeitos que “criar” sua identidade e perpassar pela vida redefinindo-se. Que sujeitos estão sendo formados nessa era moderna? O sujeito continua o mesmo em suas angústias e em sua interação com o mundo? A concepção de sujeito, que é plural, mas também singular, e que nunca se manteve sólida regrediu ou evoluiu? Bauman nos faz refletir profundamente sobre o sentido que damos às coisas, às relações ( que tanto são importantes em nossa constituição diária), sabendo que essas “relações” são permeadas atualmente sob diversos paradigmas, por conjunturas complexas. O próprio significado das palavras, a depender do tipo de relação que um sujeito tenha com outro se difere, ao levar-se em consideração a era virtual dos relacionamentos, cuja intensidade e velocidade são muitas vezes antagônicas aos relacionamentos de cunho presencial.

Estabelecer um diálogo entre pensadores e teorias não é algo fácil. Compreender essa importância em nosso cotidiano é ainda mais difícil. Entretanto, pode-se tentar compreender essas ricas e diversas concepções que envolvem o sujeito, pensando e olhando para si mesmo, construindo um conhecimento por meio da responsividade, por meio de uma investigação desafiadora, mas indubitavelmente instigante. Afinal, o que somos, além de sujeitos recheados de incertezas e conflitos, dançando nessa roda gigante chamada vida?

* Cíntia Silva é professora, apaixonada pelas letras, pela vida e por todos os sujeitos que nela se fazem presentes

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