Refazendo Elekô: Por quê a irmandade nos fortalece?

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*por Laila Oliveira

Peço agô[1] às mais velhas e mais novas para aqui promover reflexões (em construção) no que toca a importância da organização de mulheres e da coletividade. Ressalto que ao falar de irmandade não pretendo levantar a bandeira da unidade de pensamento, não mesmo. Reconheço e agradeço a pluralidade de pensamentos, de identidades e de movimentos, é isso que traz a dinâmica da transformação e que tem resultado no surgimento de tantas organizações.

Mas por que falar de Elekô? A Sociedade de Elekô[2] foi liderada por Obá, uma ayabá guerreira que treinou outras mulheres para que juntas pudessem guerrear e enfrentar os inimigos que viessem a surgir. Esse Itan[3] nos faz refletir sobre a importância de estarmos atentas e organizadas para enfrentar diversos inimigos que diariamente nos exterminam, que para nós mulheres negras está explícito: é o capitalismo, o racismo e o machismo de cada dia.

Ao resgatar o termo irmandade, trago a ideia das irmandades negras, quando surgidas no século XIX e tinham como objetivo reunir as negras e negros que não podiam frequentar as igrejas cristãs. A priori traziam aspectos católicos e posteriormente também foi um espaço para que a população negra pudesse vivenciar suas religiões de origem africana como o candomblé e outros rituais até sincréticos.

Colocar a vivência das irmandades em prática se faz necessário para sobreviver assim como nossas ancestrais. Vivemos numa sociedade que se mostra cada dia mais hostil com as mulheres negras, as relações de violência tem se perpetuado de diversas formas, a ausência de garantias de políticas públicas que promovam o bem viver continuam a nos colocar no lugar onde nos querem, sempre à margem, sempre aquém, do lado de fora do círculo de possibilidades.

A resistência é o que tem nos mantido de pé, fortalecidas, a união e a possibilidade de construções coletivas. No entanto, o que às vezes tenho notado é essa necessidade que temos (e nesse caso o verbo está na 1ª pessoa do plural porque me incluo) de nomear ‘heróis’ e ‘heroínas’ para as lutas que são coletivas. Nem sempre é algo explícito, mas ao personalizar, ou criar figuras de divas numa luta coletiva invisibilizamos muitos braços que estão juntos nessa batalha árdua de combate ao racismo, o machismo e tantas outras violências diárias.

As divas são sinônimos para as deusas que representam figuras da mitologia ligadas a perfeição, ao divino. Essas divindades femininas estão acima de qualquer outro ser existente e são cultuadas e inatingíveis.

Sei que ao usarmos o termo não o fazemos ao pé da letra, mas serve de reflexão para pensarmos se na luta anti-racista e de combate ao machismo cabe o ode a pessoas em detrimento da luta organizada.

A personalização que aqui chamo a atenção, se assemelha a “personalização da política”, um fenômeno evidenciado no período eleitoral, onde as pessoas não buscam conhecer o projeto político dos partidos e sim se há alguma empatia com relação aos candidatos, e com isso, acabam votando por ‘gostarem’ do candidato a ou b. Nos movimentos sociais temos visto esse fenômeno, onde o discurso de “fulanx me representa” inibe a reflexão individual e a possibilidade de construção coletiva, onde a organização está sendo substituída pela personalização.

Precisamos de referências da nossa história para conhecer a trajetória de resistência da população negra, podemos até nos sentir divas em alguma medida, se considerarmos que a mídia nos diz todo dia o contrário, que a nossa beleza não é destaque nas revistas e na televisão, porque o racismo praticado pela sociedade destrói a nossa autoestima e por fim nossas vidas. Mas é fundamental entendermos que a transformação vai se dá a partir do conjunto das mulheres negras e sem nossas outras irmãs nada disso faz sentido, a transformação se dá a partir da coletividade.

Por mais que resgatemos na memória esquecida do nosso país figuras chaves na luta antirracista e de combate ao machismo, acredito que só avançaremos nas lutas quando despersonalizarmos ela e confiarmos no poder da ação coletiva e na força da irmandade.

[1]
Agô é um termo em Yorubá equivalente a pedir licença ou permissão, utilizado no Candomblé como forma de tratamento para entrar e sair de espaços, para falar e se referir aos mais velhos e qualquer outra pessoa.

[2]
            ² Foi uma sociedade secreta formada só por mulheres guerreiras africanas.

[3]
                [3] Termo em Yorubá designado para o conjunto de histórias sobre a vida dos orixás, são passados através da oralidade.

*Laila Oliveira é jornalista e colabora com a Rever

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