O Regresso – Um espetáculo de relevância para o cinema

o regresso

A mesma natureza que castiga é a que traz um alento e que também se torna personagem da história

*por Graziela Brum 

No filme “O Regresso”, são as árvores, capturadas pelos mais diferentes ângulos, que produzem o elemento que interliga a sequência de cenas para conduzir a linha do tempo. Galhos, troncos, folhas, raízes são música, fogo, casa, água. Árvore-mulher, árvore-filho. Imponente árvore, mítica, o elemento sagrado. Leonardo DiCaprio, também, principalmente ele, árvore, interpreta Hugh Glass, um homem que após ser atacado por um urso, é abandonado pelos companheiros em uma natureza gélida, a qual não tem piedade de castigar e de se vingar do mais selvagem dos seres: o homem.

As cenas de desesperos não são poucas e apertam a nossa garganta quase ao ponto de nos retirar o ar, momentos de atrocidades se sucedem, mas, mesmo assim, o filme é de uma beleza arrebatadora, tendo como diretor de fotografia Emmanuel Lubezki, já premiado por seu trabalho em Gravidade e Birdman. Ousado, ele libera a câmera para a natureza, e é ela que freneticamente registra a visceral história em “O Regresso”. Uma câmera que nunca cessa, toma fôlego junto com os personagens, embaça com o frio, suja suas lentes de sangue para mostrar que está presente e para nos deixar claro que ela também integra a história.

O filme é uma dose exata entre a delicadeza de uma paisagem estonteante e a angustia de várias lutas sangrentas, em que bicho-homem e homem-bicho se digladiam as últimas consequências. E é justamente esta engrenagem entre o belo e o selvagem que nos enfeitiça cena após cena e que nos envolve na mesma luta que clama pela vida. Uma lógica que só poderia ser elaborada pelo diretor Alejandro González Iñarritu. Mexicano, ele evoca crenças da sua cultura para na tela transformá-las em experiências transcendentais. Fato que pode ser percebido quando Glass, à beira do desamparo, escuta uma voz feminina, doce e amável, vindo de uma esfera espiritual, é a mãe do seu filho ou a manifestação da natureza que sussurra ao ouvido “Enquanto houver fôlego siga lutando”. A frase é um sopro que o preenche de coragem para enfrentar a morte, e mais que isto, é o momento crucial que nos coloca de frente com primitivas e profundas questões existenciais.

A câmera segue de um lado para outro, ora na frente, ora atrás, às vezes se coloca no solo focando o ápice das copas, mostrando em uma imagem em perspectiva toda a imponência da floresta ao alongar os troncos e dar a ideia de amplitude do cenário. As fotografias nunca deixam de ser emolduradas por galhos e folhas e são as árvores que incorporam vários papéis. Tanto uma suntuosa conífera colocada como rede de proteção no fundo de um penhasco para amortecer a queda de Glass quando ele salta montado em um cavalo. Como também, o filho- tronco ao ser abraçado pelo pai, provando o amor incondicional entre os dois.

Aliás, a relação de pai e filho é um tema recorrente nos filmes de Alejandro. Em Birdman, uma das melhores cenas ocorre em um encontro perturbador dado por uma briga do protagonista com a filha, em que se coloca a prova a admiração pelo progenitor. Mas aqui a relação é outra, em meio a tantas e insuportáveis adversidades, é o amor entre pai e filho que sobressai e traz um conforto diante das mais perversas situações. Uma relação que é também o ponto gatilho para desenvolver o tom narrativo de um roteiro alucinante. Quando o filho de Glass está em perigo, forma-se o conflito, o dilema que irá permear a história até a último momento.

Com inúmeras cenas pesadas, poderia se imaginar que o filme é cansativo. Mas não é. A natureza, selvagem, mostra seu lado delicado e alivia a pressão que se vê na tela. É uma luz natural filtrada por entre os galhos, é o vento produzindo uma sonora música ao desgarrar as folhas, é a chuva em estalos aqui e ali ao chocar suas gotas em poças d’agua, é um nevoeiro cobrindo elegantemente a floresta de um branco belíssimo, ou mesmo a corrida desenfreada de animais ferozes em busca de sua caça ou fugindo do perigo.

A mesma natureza que castiga, é a que traz um alento e que também se torna personagem da história. Tanto que o som da floresta está presente entre os momentos que não têm falas. Ainda na cena inicial, pode-se escutar a água correndo por entre as raízes e troncos. E, como não poderia deixar de ser, o registro da beleza feminina, duas índias, na verdade índias e árvores, uma corpo, outra alma, prontas para resgatarem Glass do outro lado dos seus próprios limites. Um limite que ultrapassa qualquer medo da morte e coloca o desejo humano acima de qualquer consequência.

Sem dúvida, o filme de Alejandro G. Iñarritu é uma obra de arte e está muito além das especulações em torno do primeiro Oscar para Leonardo DiCaprio. O ator, indicado várias vezes pela academia, nunca levou a estatueta para casa, quem sabe agora chegou finalmente a sua vez. Independente da premiação, o ator superou qualquer crítica de atuação ou de aparência estética. Está mais do que provado, Leonardo DiCaprio é um grande ator e o filme “O Regresso” um espetáculo de relevância para o cinema.

Por isso que recomendo, é digo mais, não existe outra possibilidade que não seja assisti-lo, já que nos coloca diante de uma daquelas sensações que a arte nos proporciona, não apenas contemplativa, mas, sobretudo, de questionamento. É uma obra que nos faz pensar nossos próprios limites, os nossos medos, os conflitos e, em especial, nos permite refletir se não somos realmente todos selvagens.

*Graziela Brum é escritora

Comentar

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s