É perigoso perder o bonde da história

esquerda1

Não estamos em condições de defender a democracia e o estado democrático de direito em abstrato.

*por Amanda Nunes

É necessário fazer comparações históricas para compreender a conjuntura. Mas não de qualquer forma. É preciso contextualizar e aprofundar essas comparações, considerar os aspectos particulares da dinâmica da luta de classes em cada momento histórico, sob o risco de produzir discursos perigosistas, desonestos e manipuladores.

É o que os setores que apoiam o governo Dilma/PT têm feito: uma comparação incompleta e irresponsável entre a conjuntura atual e a das vésperas do golpe de estado de 1964, como se a história estivesse prestes a se repetir. Eles têm mobilizado toda a carga simbólica dolorosa que a ideia de golpe traz consigo para mexer com o imaginário social e disseminar um sentimento de medo que tem convencido muita gente a ir às ruas em manifestações “contra o golpe e em defesa da democracia” que, na prática, têm servido exclusivamente para defender o governo e promover a imagem de Lula.

É preciso recorrer à história para perceber que, apesar de alguns elementos semelhantes, o que está em curso no Brasil não é um golpe civil-militar, como ouvi de certo historiador em um debate nessa semana. O golpe que está em curso é um golpe governamental. Caso esse processo de impeachment (sem qualquer base jurídica) tenha como desfecho a derrubada do governo Dilma/PT, acontecerá uma ruptura apenas a nível do governo. E isso não abalará as instituições do Estado burguês.

Essa reflexão obviamente não nega que o golpe em curso de fato significará um retrocesso sem tamanho. Porque (muito além da questão jurídica) ele representa uma saída à direita para a crise e está sendo orquestrado por setores da burguesia que, com o auxílio de instrumentos que historicamente estão a seu serviço – a grande mídia e o (ontologicamente seletivo) sistema judiciário -, querem julgar e executar o governo para aplicar ajustes ainda mais duros e retirar ainda mais direitos da classe trabalhadora e da juventude.

Por isso temos que se contra esse impeachment. Por outro lado, se o contexto fosse outro, se a população em geral, trabalhadores, juventude e setores da esquerda estivessem organizados e unificados em uma saída pra crise, seríamos sem dúvidas a favor do impeachment. Se quem elege é o povo, quem mais tem poder de tirar? Nesse caso, talvez as eleições gerais, em um momento posterior – diante dos ataques ainda mais severos à classe que invariavelmente estão por vir – se apresente como a saída mais democrática dentro das possibilidades que temos. Além das greves, das mobilizações, das lutas e resistências que travamos todo dia.

Não estamos em condições de defender a democracia e o estado democrático de direito em abstrato. Precisamos deixar muitíssimo claro que vivemos em uma (pseudo)democracia, burguesa e sequestrada, apoiada em um estado “democrático” de direito que não passa de uma idealização jurídica e que, na prática, atua necessariamente de forma seletiva e serve necessariamente para legitimar violações sistemáticas a direitos dos de baixo, dos sub-cidadãos, garantindo a manutenção do Estado burguês.

E isso não exclui a constatação de que em outros momentos históricos o Estado burguês era ainda mais nefasto na margem de cá, na periferia do capitalismo central, e que foi através de muita luta e muito sangue que se conseguiu arrancar o mínimo sistema de garantias que temos. Sim. Já foi pior., pode sempre piorar. Mas como está não está nada bom. Se faz necessário (em nosso favor) defender esse mínimo, dizer o óbvio. E ir além.

Então, o problema não é defender a democracia propriamente. Mas o resultado de pautar nisso uma agitação e atuação nesse momento tão difícil e instável e por isso mesmo de muita revolta e indignação generalizada. Existem consequências práticas da defesa da democracia nessa conjuntura e a mais perigosa delas é deixar de construir uma saída verdadeiramente à esquerda, uma alternativa real para os trabalhadores e para a juventude.

É perigoso, diante dessa falsa polarização entre duas burguesias que, apesar de origens distintas e de diferenças pontuais, constituem uma mesma velha política, suja e mentirosa, que vai aplicar o mesmo projeto neoliberal para o país. É perigoso e possível que, ao (bem intencionadamente) mobilizar os discursos de defesa do estado democrático de direito e, assim, se confundir (na prática, nas ruas) com os que não propõem nada além da manutenção do governo Dilma/PT, é perigoso perder o bonde da história.

Vivemos a maior crise política da história da Nova República. São tempos difíceis, de muitas incertezas e nenhuma análise acabada ou solução perfeita para essa conjuntura caótica. É preciso de muita cautela, muito estudo, muita paciência histórica, firmeza de princípios e coragem para acirrar as lutas e para empenhar nossos esforços na construção de sínteses e de saídas verdadeiramente à esquerda de, com e para as trabalhadoras, trabalhadores, a juventude e as minorias, que, apesar de maiorias, são historicamente exploradas e oprimidas pelo sistema capitalista.

Por isso, convocamos todas as lutadoras e lutadores a participarem da plenária – que vai acontecer amanhã (04/04), às 19 horas, no RESUN da UFS – para a construção de uma chapa feminista, classista, anticapitalista e de esquerda para disputar as eleições do DCE UFS. E, também, para a plenária do Bloco de Lutas, que vai acontecer quarta-feira, 06/04, às 19h, no SINDIPRETRO. A vida só muda se, juntas, juntos e juntes, a gente lutar!

Amanda Nunes é estudante de direito da UFS

Um comentário sobre “É perigoso perder o bonde da história

  1. A Tola classe média que mantém a Elite que sonega impostos sae as ruas no dia de domingo pedindo o término da FARSA Corrupção muito rasa e inaceitável a opinião da estudante Amanda Nunes .

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