Doc conta a história de Dona Nadir da Mussuca

Foto: Fernando Correia

Documentário retrata a história e musicalidade da mestra quilombola

por Geilson Gomes

Pode-se contar uma história através de muitas narrativas. A cinematográfica é uma das mais fascinantes que existe e quando ela se encontra com o encantamento em pessoa que é a Dona Nadir, aí a coisa ganha contornos antológicos. Na noite da última terça-feira, 10, em uma sala lotada no Museu da Gente Sergipana, os espectadores que foram assistir ao documentário ‘Dona Nadir da Mussuca’, dirigido por Alexandra Dumas, certamente, saíram encantados com o que viram e ouviram.

A comunidade da Mussuca, a trajetória de vida e a musicalidade pulsante de Dona Nadir foram os temas explorados pelo doc, que em seu curto tempo (quem conhece a protagonista sabe que pra ela sempre dá pra “gastar” mais um pouco) mostra a beleza dos sambas e das danças, a influência forte do pai e outros familiares e a fonte cultural do povo negro que é o quilombo.

O olhar ancestral para a Mussuca foi um ponto importante do documentário. Contar e conhecer a nossa própria história é como receber uma injeção de cultura e resistência para os dias atuais. Nós, habitantes dos quilombos modernos, estamos doentes e a cura/transformação começa quando dobramos nossos olhos para nossa ancestralidade negra e compreendemos que a luta é antiga e contínua.

Localizada na região das antigas lavouras de cana-de-açucar, a Mussuca fica no município de Laranjeiras, no Vale do Contiguiba e desde 2003 ela é titulada como comunidade remanescente de quilombo pelo MINC/Instituto Palmares. Mas, mesmo com o reconhecimento, existe ainda a disputa pela posse de terra com os fazendeiros/empresários e a falta de políticas públicas na comunidade. Aliado a isso, a produção de cimento da fábrica afeta a saúde dos moradores.

Sagacidade e samba

Ela mesma afirma que possui um gênio “maldoso”, uma personalidade forte que movimenta seu corpo e mente por 68 anos. Essa é a Dona Nadir, uma mulher guerreira, que, sem saber ler e escrever a formalidade, samba na cara da sociedade letrada.  No filme, vemos sua rotina e sua relação com a comunidade. Sempre com sua sagacidade atinada, sua vivência representa o poder da cultura e dos ensinamentos populares do povo negro.

No Grupo São Gonçalo da Mussuca e no Samba de Pareia ela reina. Influenciados pelos toques dos tambores, cantos e danças trazidos pelos negros africanos, essas manifestações vêm por muitos anos resistindo, de forma coletiva, passando por várias gerações.

O sentido de Africanidade é: reconhecer tanto o lugar histórico, sociopolítico e a manifestação artística enquanto expressões de nossa vida cultural, no qual, figuras como Dona Nadir são como os antigos Griôs – àqueles que mostram o caminho e que tem muito a nos contar e a nos ensinar.

No final da exibição do filme ela nos deixou mais um ensinamento: o samba não pode morrer, o samba não pode acabar.

 

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