TORÇO PRU BEM: O rap periférico de Ilhéus na voz ativa de Cijay e o Poesia de Favela

cijay2
Foto: Thassio Ramos

Entrevista com rapper e compositor Cjay

Por Gerônimo N´Zinga

Gerônimo N´Zinga: Olha só, a parada é a seguinte… eu não conheço nem o rap direito. Eu entendo só que o rap é uma frente no movimento hip hop e eu queria que você… eu queria que você não man. Eu não conheço o rap, conheço só um pouco de sua música. Aquela do SESI, que você teve a premiação no SESI e aí eu ouvi e achei que tava interessante. Eu falei: porra, esse negócio é bonito. Eu achei que é bonito porque eu ouço outros cantores que dizem que é rap, mas eu achei que o estilo de música que cê tava fazendo é mais próximo do que eu conheço como rap e do que é mais próximo de mim. Tipo, Racionais e esses dias conheci Trilha Sonora do Gueto, sacou? Ou seja, eu não conheço nem os feras, nem nada. Eu achei que tanto o arranjo sonoro – é assim que fala? – quanto – eu não sei como dizer não – é instrumental?

Cijay: Aquela dali foi instrumental.

GN: To falando tanto o arranjo sonoro….quanto a letra, muito bonita….a letra é sempre mais difícil de acompanhar, claro. Porque rap você precisa ouvir uma dez vezes pra pegar uma letra completa. Mas aí é isso, como é que você produz seus arranjos, as letras?

Cijay: Rapaz, criar as letras do rap é uma onda porque a maioria das minhas letras falam de mim, do meu cotidiano, das coisas que eu vejo e das coisas que eu convivo. Seja onde eu moro, seja onde eu trabalho, onde eu tava estudando [dentro da sala de aula]. Mas é muito voltado pro meu cotidiano mesmo. Acho que as pessoas se identificam porque meu cotidiano seja parecido com o das outras pessoas.

GN: Todas as pessoas?

Cijay: As pessoas que tão mais próximas de mim. Os molekes que cola comigo lá nas minhas área, os colegas de sala de aula – que também é quem escutam. Mas o rap que eu faço é pelo menos pra quem ta próximo de mim. Se não é próxima fisicamente…

GN: É próxima virtualmente?

Cijay: Não, nas idéias. No pensamento.. Mas é isso, criar letras rap… eu mesmo falo mais do que eu vejo, do que ta próximo de mim ali. Não é nada distante do que eu convivo.

GN: Mas você tem o entendimento que a realidade que você vive, é a mesma realidade de outras pessoas em outros lugares não só em Ilhéus e Itabuna?

Cijay: Sim, e a gente faz referências também dentro desse contexto.  A gente faz referencia também as coisas que a gente vê na TV, no rádio, a gente fica sabendo e acaba absorvendo também.

GN: você se auto-considera negro?

Cijay: Preto, sim.

GN: Existe algum diálogo seu com outras comunidades negras ou é só a galera daqui?

Cijay: Eu to num grupo, que é o Poesia de Favela. Que além de eu escrever as letras, também escrevo com meus parceiros, como o Paulista PDF e o Ronaldo PDF. E eles já moram em uma comunidade que é longe da minha aqui em Ilhéus. Porém a diferença mesmo é só a distancia, porque não deixa de ser uma quebrada. Eles são da Conquista, que é um morro na parte central. Então, as vezes a gente escreve música solo, mas também tem esse trabalho em grupo.

GN: Você acha que outros jovens negros, de outras comunidades, mulheres ou homens, vêem as mesmas coisas que você vê?

Cijay: Eu acredito que sim. A opressão que acontece comigo, acontece com todo povo preto. Nosso rap fala muito de opressão, fala muito de como a violência atinge as periferias, fala muito como a falta de infraestrutura , a falta de serviços básicos, a falta de assistência do Estado. Fala muito da maneira como a Polícia age nas favelas e nas periferias. Eu to dentro desse contexto, mas meus amigos, a galera que cola comigo – o Cristian e o Reinaldo, tão também dentro desse contexto. Muito dos baculejos que eu tomo, eu to com meus companheiros de grupo, ta ligado?

Eu acho que é isso que faz o rap ter uma linguagem universal. Racional cantar, lá no Capão Redondo; Trilha Sonora do Gueto, la nas periferias de São Paulo, e a gente entender o que eles estão falando aqui. E o rap ser a trilha sonora do gueto, a poesia de favela, seja lá ou aqui.

GN: E mais alguém de sua kebrada faz alguma coisa do tipo?

Cijay: Hip Hop?

GN: Não precisa ser só hip hop. A população negra vivencia opressões, mas nem todo mundo se movimenta pra que alguma coisa seja feita ou tomar consciência de que isso existe.

Cijay: A pergunta no caso, é?

GN: Não é bem uma pergunta, não se preocupe com pergunta. Se preocupe em conversar.

Cijay: Muita gente na kebrada não teve acesso a informação mesmo. Uma galera que ainda ta muito presa a televisão, por exemplo. E que deve ter na televisão o principal veículo de informação. E o rap tem dessas também, a galera ouve muito hip hop nas kebradas mas nem todo mundo dá ouvidos ao hip hop. Mas eu acho que hoje tem uma alienação em massa. Hoje não, sempre rolou uma alienação em massa acontecendo. E o povo que vivencia essa opressão está sendo distraído aí por essa alienação e acaba não caindo na real e não percebendo o que ta acontecendo pra gente que já teve esse despertamento. E isso foi um despertamento natural.

Eu também já pensei que policia estava aí pra proteger. Na minha cabeça também já tive essa idéia de que a criminalidade tinha que ser erradicada com violência. O problema do crime no Brasil tinha que ser combatido com violência também. Só que a partir do momento que eu comecei a pesquisar a perceber como é que funciona o sistema de segurança pública, como funciona a formação das periferias e como o sistema age com as periferias e sempre agiu. Aí você acaba caindo na real e não tem como você ter outra postura – pelo menos no meu caso, é tentar abrir o máximo de mentes que você puder.

GN: E o que seria dá ouvidos ao rap?

Cijay: Rapaz, é você ouvir, refletir sobre o que aquilo ta falando e tentar aplicar na sua vida. Tem gente que acha que a revolução é sair por aí fazendo um monte de coisa, um monte de atividade. Eu tenho uma visão muito diferente. Pra você revolucionar , primeiro você tem que mudar sua mente. Mudar a sua mente, faz com que você mude seu comportamento. Se você mudar seu comportamento outras pessoas vão ver e vão se influenciar de alguma maneira.  Mas eu acho que tudo começa na mente.

Bob Marley naquela música Redepting song, ele fala: emancipem-se de sua prisão mental / ninguém além de você mesmo é capaz de fazer isso.

GN: E se a pessoa não quiser?

Cijay: É uma opção.  Mas é assim, quem abre a mente pra essas coisas acaba sofrendo mais. Acaba tendo uma visão mais ampla do que aconteceu e acaba sendo atingido por isso, muito mais do que quem não ta vendo. Então, pra gente escrever uma letra de rap, a gente tem que ter uma sensibilidade do caralho, parceiro. A gente tem que se colocar no lugar do outro. Do parceiro que tomou uma bala na cabeça, se ligou? Certamente, eu não vou sentir a mesma dor física que ele, só que o castelo em si – a rima, vai ficar ali na minha mente até a hora que eu escrever, tendeu?!

Cijay

GN: você falou no despertar, mas tem a galera que faz rap e não tem esse compromisso. Tem a galera que faz rap que não fala da vivencia de uma periferia, de uma quebrada. Não sabe o que é uma policia chegar na sua comunidade e todos terem que estar em alerta.

Cijay: Exatamente, tem que ta ligeiro. Mas eu acho que essas pessoas aí, não tiveram esse despertamento ainda estão contribuindo com o plano do sistema que é mudar o real foco do rap. O rap nacional ele começou e vem trazendo essa tradição de manter as raízes fincadas na periferia… os grupos que citei no inicio: Trilha Sonora do Guetto, Consciencia Humana, Sistema Negro, SNJ… A gente ta aí pra provar isso, que o rap é periférico.

Hoje, por exemplo, a gente tem que chamar – quando me refiro ao tipo de rap que faço, de rap periférico. Porque hoje tem tantas vertentes que são consideradas rap, são consideradas hip hop , que eu tenho que definir o rap que eu faço como rap periférico. Mas pêra aê, o hip hop em si, é uma cultura das periferias então o rap é periférico. Só que o mercado, assim como fez com outros estilos e outros ritmos… O sertanejo é uma prova disso. O sertanejo é um dos estilos mais vendidos do Brasil no mundo, só que ó o que o mercado fez com o sertanejo pra ele se tornar o ritmo mais vendido do mundo. Das letras de antigamente que realmente tinham a ver com a vida do sertanejo, tinha a ver com a vida daquela galera do interior, tinha cantoria, e hoje tem a letra que põe a mulher no mesmo nível que um litro de wisk, no mesmo nível que um carro. Que deprecia.

Então, eu, meu grupo – Poesia de Favela, sob influencia de vários grupos do rap nacional aí pioneiros – Sabotagem, ta ligado?!, a gente vem tentando preservar pra dizer que o rap é a cultura das periferias e o que passa disso é apropriação cultural. Não posso chamar de outra coisa. Não posso nem definir como rap. Porque pra mim o rap é literatura marginal afro brasileira. Mas aí o cara vai dizer: ah, mas tem a batida. Mas a batida, beleza. A batida é outra vertente do hip hop que é o jingle. Rap e rapper é quem escreve. Então, ele é literatura, sobretudo. É a poesia de favela meu amigo, é a trilha sonora do gueto. A gente dá valor aos grupos de rap pioneiros, aos grupos de rap que se mantém resistentes ao sistema, que se mantém resistentes ao mercado.

A gente participa de um coletivo de Rap de Rua que eu, e o Pawlista PDF, antes de ser um grupo a gente fundou esse coletivo, e dentro desse projeto – que é voltado para a juventude periférica contra o genocídio do povo preto, a gente quis espalhar o rap pelas periferias – que é levar o rap de volta pra casa. O objetivo é trazer a galera pra dentro do movimento hip hop. A visão que diferencia quem ouve e de quem ta dentro do hip hop, são visões diferentes. Quem ta dentro do movimento hip hop, tendo essa visão periférica, vai ter uma visão muito ampla desse sistema. Aí é como eu te digo, o que vai diferenciar do cara ouvir e não praticar, é o cara entrar dentro do movimento hip hop.

E aí, nesse projeto, a gente traz referencia do campo acadêmico que citam o hip hop como uma negativa aos meios tradicionais de comunicação. As vezes tem gente que diz, ah o cara é radical. Mas não sou eu apenas que to dizendo, se você procurar na academia, tem vários caras que dizem a mesma coisa que nós. Então, pra mim, por ser uma literatura marginal, tem certos espaços que a gente não vai ocupar, especialmente os espaços que nos negaram por muito tempo, entendeu?!

Eu acho muito mais interessante a gente criar nossos espaços. E aí eu posso citar o Cine Pivete, que é da TvPivete são espaços que a gente ta criando justamente pra não depender do BATV daqui da cidade, por exemplo. – mudar minha idéia pra ir no BATV. O CinePivete me aceita e aceita minha idéia como eu sou, pivete.

GN: Mas é foda, a Tvpivete, que é o que acontece na maioria dos processos… Mas eu concordo com você, sacou?! Eu concordo que tem que existir a criação de espaços afrocentrados – daí pra mim já uma questão de ‘afroncentramento’ que envolve várias coisas. Por exemplo, eu publico em uma revista, mas a revista não tem a mesma influencia que o jornal A Tarde, o BATV. Mas eles nunca estarão lá, da forma como eu vou representar o povo preto.

Cijay: Porém o que faz esses grupos de hip hop serem conhecidos a nível nacional, o que eles são? É justamente essa negativa. Entendeu? É justamente essa contundência de dizer não. É mais difícil é mais trabalhoso, é. Você tem que fazer um corre dobrado, meu irmão?! Tem que fazer… Só que é você correr o risco também de não ta mudando sua ideologia, mudando a sua postura porque pro cara se corromper em relação a todas as essas coisas aí não é de uma vez só não. É um convitezinho pra fazer alguma coisinha, daqui a pouco o cara ta lá dentro. Aí é um produtor – que o cara faz uma letra ou outra de vez em quando – e ele diz, essa daí vendeu mais, vamo fazer isso agora que a galera gostou. E aí, tome-lhe alienção na cabeça da galera.

GN: Alienação é o que?

Cijay: É tudo que distrai. Que tira nosso foco da causa, sobretudo no hip hop – porque eu acredito no hip hop enquanto periférico. Tudo que faz a galera desviar do real foco pra mim é alienação.

GN: E o foco é?

Cijay: O foco do rap, pra mim, é o povo preto. É combater com todas as garras o genocídio. É manter as raízes fincadas na periferia, no cotidiano da quebrada. Pra mim o rap é isso. A nossa visão é essa, parceiro.

GN: A nossa visão, a do coletivo, a visão do rapper ou a sua visão?

Cijay: A visão do rap enquanto coletivo, enquanto Cijay e enquanto Poesia de Favela, enquanto periférico.

GN: Você acha que o poesia de favela enquanto grupo que faz rap e vive o rap, passa ou passou por um processo de criminalização da sua cidade de origem – de Ilhéus?

Cijay: Com certeza. Não só o Poesia de Favela, mas por exemplo, do ano passado pra cá, quatro ou cinco Mc’s de rap foram presos. Eu fui um deles só que saí da delegacia e saí fora logo, entendeu? Mas ele me prendeu porque ele queria que eu chamasse ele de senhor, e eu não queria chamar ele de senhor. Ele disse que eu tava folgando, que eu tava muito abusado. Eu tava assim porque não tinha levado um tapão, e aí pronto: vou lhe botar num carro e vou lhe levar agora.

Os problemas da polícia vieram antes do rap… meu irmão teve vários problemas com a polícia assim… meu irmão foi acusado de roubo. A mulher falou que um [pessoa com nome parecido] tinha roubado ela. “Ah, como ele é?”, meu irmão tinha as mesmas características, a polícia pegou ele na porta de minha casa, desceu o pau. Meu irmão ficou inconsciente e quando as vítimas chegaram que não reconheceram, e agora, quem vai tirar a porrada dada? Minha irmã já levou uma balaça na perna de raspão de um policial loucão de cachaça que passou atirando a torto e a direito, e acabou uma bala de raspão pegando na perna de minha irmã. Então é coisa que vem das antigas.

GN: Aí, quando entrou a discussão do genocídio do povo negro?

Cijay: Eu tive esse despertamento que na minha cidade tava rolando uma guerra de raios que já havia dizimado vários e vários jovens, alguns que eu conhecia. E eu passei a entender a causa disso. A partir do momento que eu conheci a causa, eu fui pesquisar. E pra incrementar esses pensamentos a gente buscou dados. Tem um livro do mapa da violência, da Juventude Viva, que traz vários dados. Mas esse pensamento veio muito mais do que acontecendo nessa cidade. Tinha casos na televisão como Amarildo, David Fiusa e outros tantos.

Assista o vídeo produzido pela TvPivete sobre Cjay e sua participação no Festival SESI Música – 2015

3 comentários sobre “TORÇO PRU BEM: O rap periférico de Ilhéus na voz ativa de Cijay e o Poesia de Favela

Comentar

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s