De onde partiu o tiro que matou a Onça Juma?

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“A bala que atravessou o crânio da Onça é tão grave quanto as assimetrias socioeconômicas e espaciais da cidade-sede das Olímpiadas”

por Eder Claudio Malta Souza

A morte da Onça Juma após a solenidade da tocha olímpica não é mero acontecimento pontual, nem uma tragédia anunciada. Ela é sobretudo consequência das escolhas políticas e ações econômicas e administrativas dos últimos três governos brasileiros (FHC, Lula e Dilma) pautadas na acumulação de capitalismo flexível em que as cidades vem se tornando cada vez mais centros financeiros, de consumo e de serviços.

Ela é reflexo da opção de desenvolvimento socioeconômico orientado pela estratégia de estimular os setores de consumo cultural e mercados de bens e serviços (turismo, eventos, lazer etc.) sem articular a uma concepção de cidadania e educação mais politizadas – como ocorre entre os consumidores, produtores e cidadãos europeus que participam de processos decisórios dos Estados, inclusive para continuar ou não em um bloco político-econômico, como o caso da Inglaterra em que os britânicos estiveram à frente da decisão histórica em separar-se da União Europeia, ao qual aderiram em 1973.

Estimular o consumo é necessário para desenvolver a economia, gerar renda, emprego, setores criativos de mercado e inovação da produção. É uma estratégia público-privada que fez melhorar os índices de desenvolvimento econômico e de inclusão social nos governos petistas, com muita eficácia durante o governo Lula[1]. É tão importante quanto é necessário estimular a educação para também desenvolver a economia. Sem bordões, como atrair uma população de turistas onde o exército, instituição máxima incumbida da defesa da soberania nacional, é o protagonista pela morte da Onça, animal em extinção, por não saber conduzi-lo?

Estressar e expor uma onça como “bem representativo” do Estado do Amazonas para divulgar uma noção de proteção às paisagens naturais brasileiras é um reflexo da opção em espetacularizar a solenidade da tocha olímpica a qualquer custo, assim como foi feito o processo decisório de candidatura da cidade do Rio de Janeiro às Olímpiadas, o qual não podemos isolar desse acontecimento. Além do mais, assim como muitos setores da sociedade brasileira, a cidade atualmente vive um estado de calamidade pública às vésperas dos jogos. Isso é estratégia sem planejamento de infraestrutura. E, por fim, o que ouvimos foi um gesto de desculpas “erramos” do Comitê de Organização dos Jogos Olímpicos 2016.

Espetacularizar os “legados” tem sido uma estratégia midiática dos governos e setores privados brasileiros para criar imagens de suas cidades, patrimônios e espaços culturais com vistas a atrair turistas, inclusive para fazer com que aqueles que virão aos jogos não restrinjam suas estadias e visitas somente no Rio de Janeiro. É preciso inclusive fazer a tocha olímpica girar pelos estados ao tempo que se criam ou enaltecem narrativas e imagens dos mais diversos locais que ela passa.

Nunca se protegeu efetivamente animais silvestres no Brasil. Nem mesmo na Amazônia, onde vivem ainda 85% de um total de 11.750[2] Onças do país, sendo que nas demais regiões esse número é ainda mais preocupante, sendo que na Mata Atlântica, Caatinga e Cerrado existem somente 250 onças em cada uma dessas áreas, e nos Pampas elas estão extintas. Em torno de passar uma imagem positiva do país, essa espetacularização oculta as mais diversas contradições socioeconômicas, culturais e de proteção ambiental brasileiras.

Busca, por exemplo, ocultar os conflitos étnicos como ocorreu em Salvador, cidade-sede da Copa do Mundo de 2014. Ao chegar na cidade, deparamo-nos com um outdoor de boas-vindas, com imagens das Baianas do Acarajé, com belas e sorridentes mulheres negras, conhecedoras de um saber-fazer que se tornou patrimônio imaterial brasileiro, e os dizeres “Salvador, Cidade da Alegria”. A suposta diversidade étnica e inclusão social parece não condizer com a forte exclusão e a violência sofrida pelos negros na capital baiana[3], inclusive durante a Copa[4].

A bala que atravessou o crânio da Onça é tão grave quanto as assimetrias socioeconômicas e espaciais da cidade-sede das Olímpiadas. Para receber os jogos, a prefeitura do Rio de Janeiro apostou em uma fetichista e monumental infraestrutura arquitetônica, urbanística e paisagística, com investimento de 57% do capital privado para a execução de um orçamento de quase R$ 40 bilhões[5]. Além dos equipamentos esportivos destinados aos jogos, em várias zonas da cidade foram instalados equipamentos urbanos e culturais para os usos turísticos tais como os novos museus, pinacotecas, a revitalização do centro e com a instalação de cafés, restaurantes e bares, BRTs, VLT, ciclovias entre outros espaços de sociabilidade e consumo[6].

Tudo isso é importante para a própria sustentabilidade urbana carioca. Mas os serviços básicos da cidade, que sustentam a vida das pessoas, estão em estado de precariedade e falência financeira ao ponto de ser decretado estado de calamidade, inclusive moral, lembrando aqui o caso do estupro coletivo em uma comunidade da Zona Oeste do Rio.Como afirmei antes, tudo isto não é uma questão pontual, nem tragédia anunciada. A morte da Onça Juma não é culpa das Olímpiadas.

Não podemos dizer que com isso o Brasil não devesse sediar os jogos por estar em crise ou porque estão revelando precários os índices sociais, educacionais, de infraestrutura, de saúde, segurança e de trabalho. Ao contrário, os governos, desde a redemocratização do país, deviam ter se preocupado com a infraestrutura e ter promovido o desenvolvimento qualitativo das políticas públicas de modo a elevar tais índices, inclusive para receber o megaevento (mesmo que nos países mais desenvolvidos a realização dos jogos Olímpicos gerem polêmicas e endividamento dos países ou cidades-sede).

Penso que este seria o verdadeiro legado dos governos petistas: ao invés das Olímpiadas para promover desenvolvimento, devessem desenvolver os serviços básicos e essenciais do país, assim como a consciência de consumidores-cidadãos para receber o megaevento.

[1] Sugiro aqui o livro “Os batalhadores brasileiros: nova classe média ou nova classe trabalhadora?” de Jessé de Souza. (Editora UFMG, 2010), que parte da análise da economia política acerca das dinâmicas entre as relações de produção, consumo e as classes sociais na construção dos arranjos capitalistas destas classes. São batalhadores tanto o micro-empreendedor, o pequeno comerciante ou industrias de pequeno porte, quanto o pequeno agricultor. Em certa medida todos eles passaram a produzir para o consumo de uma nova classe média, capaz de adquirir novos produtos de necessidades e desejos. Um exemplo que une essas duas situações são as viagens aéreas, tanto que gerou conflitos de classe com as advertências e incômodos das classes médias altas sobre a presença do povo mais humilde em aeroportos.

[2] Fonte: ICMBio – Plano de Ação Nacional para Conservação da Onça Pintada. Disponível em <http://www.icmbio.gov.br/>

[3] A situação de violência contra negros na capital baiana é tão drástica ao ponto de ter sido instaurada, em maio de 2015 a CPI da Violência contra Jovens Negros e Pobres na Câmara dos Deputados. Em fevereiro do mesmo ano 15 negros foram mortos em um único dia pela polícia militar baiana. <http://www2.camara.leg.br/camaranoticias/noticias/direitos-humanos/487671-diligencia-de-cpi-na-bahia-constata-impunidade-de-crimes-contra-jovens-negros.html>

[4] Para este tema sobre a espetacularização da imagem da cidade de Salvador sugiro a leitura do trabalho Tese de Doutorado de VIEIRA, Ewerthon Clauber de Jesus: Espetacularização da cidade e (re)apropriações culturais: políticas urbanas e as novas imagens de consumo de Salvador-BA, Universidade Federal de Sergipe, São Cristóvão, 2016.

[5] Fonte: http://www.jogoslimpos.org.br/destaques/custo-da-olimpiada-rio-2016-e-atualizado-para-r-3826-bilhoes/

[6] Discuto em parte estes casos em SOUZA, Eder Claudio Malta. Políticas urbanas de patrimonialização e consumo : a paisagem cultural do Rio de Janeiro, Universidade Federal de Sergipe, São Cristóvão, 2015.

Eder Claudio Malta Souza é Doutor em Sociologia pelo Programa de Pós-graduação em Sociologia da Universidade Federal de Sergipe (PPGS/UFS) e Pós-Doutorando (PNPD/CAPES) pelo Programa de Pós-graduação em Sociologia da Universidade Federal de Pelotas-RS (PPGS/UFPel).

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