Porque ver Meu Nome é Jacque

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“O filme de Angela Zoé vem em boa hora e no olho do furacão trazendo a história de uma pessoa que nos convence de cara e com a força da sua vida e da sua luta”

*por Romero Venâncio

Sendo direto e claro pra começo de conversa: O documentário “Meu Nome é Jacque” (Angela Zoé, 2016) aborda a diversidade através da história de vida de Jaqueline Rocha Côrtes, uma mulher transexual brasileira, que vive com Aids há mais de 20 anos. Militante pela causa, Jacque tem a vida marcada por lutas e conquistas, chegando a trabalhar como representante do governo brasileiro e na Organização das Nações Unidas. Hoje casada e mãe de dois filhos, mora numa pequena cidade, levando uma vida voltada para a maternidade, a família e a espiritualidade.

Ao acompanhar o cotidiano de Jacque hoje e revisitar sua trajetória, este documentário apresenta, pouco a pouco, os inúmeros desafios que foram rompidos por este rico personagem, levantando uma reflexão sobre o preconceito, a “homolesbotransfobia” e “essencialização” das pessoas e de suas características. Esse é um resumo comum para se situar na história que trata o documentário.

Destacaria três razões fundamentais para se ver e divulgar este trabalho. Primeiro, pelo contexto brasileiro dos últimos anos. Vivemos um momento marcadamente conservador no que diz respeito a temas LGBT. A desinformação, o preconceito, o fundamentalismo religioso e as bancadas parlamentares desqualificadas e fisiológicas dão o tom dos debates e das perseguições chegando a influenciar uma considerável parcela da população.

O filme de Angela Zoé vem em boa hora e no olho do furacão trazendo a história de uma pessoa que nos convence de cara e com a força da sua vida e da sua luta que claramente não se separam no filme. São depoimentos de familiares e da própria Jacqueline que nos fazer pensar fundo sobre a condição da pessoa Trans e de como se chegou no lugar onde se vive agora. Não é truque ou jogada de markenting. É vida.

Segunda razão é de caráter cinematográfico. O cinema brasileiro tem cada vez mais despertado para um cinema mais amplo e plural em suas temáticas e o documentário tem sido de grande valia nessas horas. As problemáticas LGBT começam a aparecer com força e com caráter “formativo”. Uma grande parcela da sociedade brasileira não pode ficar refém de discurso ignorantes e odiosos.

Historicamente, a forma documental em cinema tem sido portadora de mudança de mentalidade sobre determinado assunto (muitas vezes, tabu numa sociedade!) e não tem sido diferente quando o assunto é transsexualidade. O filme nos faz ver de um outro ponto de vista quando foca na vida cotidiana de Jacqueline e na sua luta desde muito jovem para se tornar o que de fato ela é.

Da família à escola; dos dramas afetivos ao mundo do trabalho, vamos acompanhando e nos comovendo com uma vida absolutamente normal e que poderia ser a vida de muitas pessoas… Essa forma que tem o documentário de nos colocar no lugar da personagem torna-se uma força argumentativa em favor de Jacqueline e de tantas outras Transsexuais por este Brasil a fora.

Por fim, uma terceira razão para se ver este filme é a forma como se coloca na tela o tema da família. Esse tema tem sido quase palco de guerra nas redes sociais e nas mídias em geral. Define-se família na sua maneira mais redutora e heteronormativa. Mulher, homem e filhos… E acabou. Isto tende a influenciar a própria norma jurídica do Brasil e a cabeça das pessoas que tem menos possibilidade informação não viciada por razões fundamentalistas.

O filme nos mostra de maneira tranquila como vive Jacqueline e seu companheiro, como se conheceram, como se amaram (tudo que pode acontecer com milhões de pessoas nesse mundo e ainda a necessidade sentida pelos dois de ampliar a família com o usufruto do direito de adoção. Como todo cidadão e cidadã brasileiros, adotam carinhosamente (e corajosamente! Vendo o filme entenderam o porquê deste termo!) duas crianças negras…

Para nosso conhecimento e divulgado a anos pelo sistema de adoção: as crianças que tem menos possibilidade de adoção são as crianças negras e como bem afirma o companheiro de Jacqueline: “se quer adotar menino e branco” e eles meteram a cara e a coragem e adotaram um casal de irmão negros.

Uma família igual a qualquer uma neste Brasil em transe. Esse ponto destacado no filme é de fundamental importância para se entender a luta e a dignidade da pessoa Trans num país que teima em não mudar sua visão de mundo e ficar marcando passo num conservadorismo anacrônico e impiedoso. Um filme que vem em boa e necessária hora.

*Romero Venâncio é professor do Programa de Pós-Graduação Interdisciplinar em Cinema e Narrativas Sociais (UFS)

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