Uma certa Billie Holiday em Sergipe

billie holiday
Foto: Pedro Fontes

Espetáculo “Billie Holiday, A Canção” conta a história dramática de uma das maiores cantoras de Jazz do mundo

*por Romero Venâncio

“Durante toda sua infância, fora entregue a si mesma,havia-se sentido abominavelmente rejeitada…”

(Sylvia Fol. In: “Billie Holiday”)

Começo com uma questão que me persegue: a relação entre o particular (local) e universal em arte. Por que ainda mantém esta dicotomia? O que tem ela de fascinante para se repetir aos montes por ai? Parto de uma pressuposto básico nessa questão: arte que merece o nome não tem “pátria privativa”, não ter pertencimento único e invariável… Torna-se patrimônio da condição humana… Pertence ao mundo.

Digo isto por entender que a obra genial cantada por Billie Holiday nasceu nos EUA e numa condição determinada, mas não se limita a nação Norte Americana… Nos toca a cada um em sua maneira particular. Nos diz respeito em sua universalidade sonora… Sendo dessa forma, não o menor sentido a pergunta descabida:     o que tem Billie Holiday com a “cultura sergipana”? Pergunta tola, provinciana e primária. Típico de pensamento pequeno e tacanho!!! Billie Holiday é nossa.

O grupo TAMPA – produções artísticas de Sergipe nos oferece um trabalho raro em terras sergipanas e aberto ao mundo. Trata-se de “Billie Holiday: a canção”. Monólogo dirigido por Raimundo Venâncio e vivido no palco pela cantora e atriz Tania Maria. Somente esta informação já deveria ser motivo de alegria, orgulho e incentivo à produção dramatúrgica por estas bandas. Uma escolha arriscada, por certo. Não se escolhe Billie Holiday sem problemas. Está inscrito na própria biografia dela. Uma cantora singular, única. O Jazz se confunde com ela em tudo. Ao trazê-la para o teatro, traz-se toda uma carga semântica de vida e dor que a acompanhou por toda sua vida.

Negra, pobre, prostituída, vulnerável ao extremo e com voz lânguida e vigorosa, Billie Holliday (1915-1959) – desde as ruas do Harlem até a mais prestigiosa salas de espetáculo – lutou a vida toda para se impor. Para ser reconhecida. Para ser amada. Para ter alguma dignidade. Sexo, álcool e tantas outras drogas, Lady Day (como ficou carinhosamente conhecida) queria experimentar tudo e com tamanha intensidade que chegou as raias da autodestruição… Mas foi no palco, cantando suas música que se tornariam clássicos, que ela viveu a única experiência verdadeira do amor.

Seu nome virou sinônimo de Jazz, e sua vida – numa época em que a população dos Estados Unidos estava dividida entre brancos e negros – foi um caminho para a liberdade. Foi como se em sua voz tivesse encarnado uma forma singular de resistência. Foi como se em seu corpo fosse inscrito um destino desde o seu nascimento. Foi como se a sua morte tivesse sido um alerta para sabermos o que é e o que não suportável numa vida…

Há um aspecto que reputo como central na vida de Lady Day e que estrutura toda sua música e sua forma de cantar, a saber, o sofrimento. Podemos costurar todo um sentido Jazz na vida de Billie apenas a partir do hóspede estranho que a acompanhou por toda a vida que foi o sofrer. Ninguém como ela cantou com tanta radicalidade o padecer de um ser humano e de maneira implacável. Como ela disse certa vez na sua “autobiografia”: “Já me disseram que ninguém era capaz de cantar as palavras fome ou amor como eu. Talvez porque nunca pude esquecer o que estas palavras significam… Nada me leva a esquecer o que sofri” (In: “Lady sings the blues”).

Aqui fica mais claro esse “sofrimento ontológico” que a acompanhou e fez a condição da sua arte. Como bem disse Roberto Muggiati nos seus estudos sobre Billie Hliday e o Jazz: “Lady Day era uma gora de sangue em cada canção”. Forte e exato se nos voltamos à sua biografia e às suas canções (mais na maneira de interpretar do que no conteúdo!). Para escutar bem a sua canção e saber do que se tem de grandioso ali, não é tanto a sua voz que se deve escutar, mas sim o seu coração.

O sofrimento é uma chave de leitura da forma como cantava, encantava e nos fazia (e ainda faz!) pensar mais fundo a noção de vida. Sempre acredito que ninguém suporta tanto sofrimento, tanta dor como a que Billie Holiday sentiu de fato. E ainda acho que só houve uma coisa que a fez suportar e ter sua morte adiada algumas vezes: a música. Cantar era seu Deus. Cantar lhe dava um sentido único de estar no mundo e de encontrar algum sentido onde não há nenhum…

Como sempre afirmaram uma série de comentadores da vida e da música de Billie Holiday: O jazz teve cantoras admiráveis, mas nenhuma como Lady Day. Nas palavras exatas de Tony Scott, clarinetista dos bons e amigo pessoal: “Quando uma cantora de Jazz qualquer canta as palavras ‘my man`s gone’ – mesmo com a voz bonita como a de Ella Fitzgerald -, fica um sentimento vago de que ele pode ter ido até a esquina comprar um cigarro e vai voltar. Quando Billie Holiday canta ‘my man`s gone’, o homem se foi para sempre – sua voz expressa em três palavras uma perda total e irreversível”. Aqui se tem tudo em essência para se entender e amar Billie Holiday.

# O QUÊ? Billie Holiday – A canção

#QUANDO? 30 E 31 de Julho

#ONDE? Teatro Atheneu

Para saber mais, confira a página do evento no facebook: http://migre.me/upS2X

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