Hip Hop: O som de protesto ainda vive?

rap
Foto: Renata Santana Stefano

*por Clara de Noronha

Vivemos em uma época de efervescência cultural enorme, a cada minuto um som é lançado, de semana em semana uma nova banda aparece, e isso é incrível, desde que paremos para refletir… Sobre o que essa galera nova está falando? Faz parte da minha realidade? Pois bem, vamos falar um pouco dos rumos que o movimento hip hop vem tomando nos últimos tempos.

Para entendermos a atual conjuntura do movimento é necessário conhecermos como e em quais circunstâncias ele surgiu, então parodiando Black Alien, digamos que “No princípio era o protesto”. Oriundo das periferias de Nova York, por volta da década de 60, o hip hop surge com a mais forte das ideias; denunciar a descriminação e o preconceito sofrido pela juventude negra periférica, a repressão policial e a desigualdade de classe.

E o movimento segue assim, altamente crítico e de uma consciência política muito grande, uma determinada parcela da juventude estava realmente determinada a denunciar as contradições sociais e dizer que, a realidade vivida por eles era totalmente diferente daquelas ilustradas nos filmes, novelas e programas de televisão.

Apesar do hip hop ter nascido da necessidade de se fazer um protesto diante dos problemas enfrentados pela população, e ser a voz daquele povo marginalizado, ele não fazia o recorte de gênero, ou seja, era a voz de todos, menos de nós, mulheres. Que quase não apareciam nas letras, e quando apareciam, era naquele local especificamente reservado pra elas, na condição de objeto, um troféu a ser exibido ao lado de bebidas caras e carrões, como se tudo isso representasse certa ascensão de classe daqueles jovens dentro do sistema capitalista. Se antes eles criticavam a condição que o capital determinava para os jovens da periferia, agora, inseridos no sistema, eles se utilizavam da mesma lógica para explorar as mulheres em suas letras.

Depois de passados quase 60 anos, caminhamos muito pouco no que diz respeito a mudanças concretas dentro do movimento, se por um lado temos um grande número de mulheres ocupando esse espaço, ganhando visibilidade e sendo protagonistas dessa história de resistência também, há quem se incomode e feche ainda mais o cerco para as mulheres.

Por outro lado vemos uma grande parcela da juventude estacionada naquela antiga lógica da objetificação dos corpos femininos, com posições extremamente machistas e conservadoras. Estamos vivendo um tempo muito difícil no país e no mundo, e agir como se o movimento hip hop fosse uma bolha isolada do resto da sociedade é um dos maiores equívocos já propagados.

Enquanto se abordam nas letras, temas como; enriquecer a qualquer custo, a maior parte da população não sabe o que irá comer amanhã, enquanto incitam a violência contra mulher, centenas de mulheres apanham e morrem todos os dias, vítimas do machismo e do patriarcado. Como é possível sermos totalmente alheios a essa realidade?

Creio que jogando as coisas pra debaixo do tapete e fechando os olhos não resolva nada, é preciso que nos movimentemos, as perspectivas são cruéis, como nós já sabemos, porém não podemos facilitar para aqueles que historicamente sempre nos exploraram, aqueles que quando puderam não pensaram duas vezes em calar a voz da classe trabalhadora.

Enquanto um grupo, de jovens pequeno-burgueses ostenta em seus clipes, em grandes coberturas e carros de luxo, a juventude negra continua sendo exterminada pela polícia militar dentro das periferias brasileiras. Enquanto homens brancos, heterossexuais, possuidores de todos os privilégios possíveis, fazem apologia ao estupro em suas letras, mulheres são estupradas diariamente.

E há quem diga que sempre foi assim, argumentando que a violência é inerente às ruas, e aquelas ou aqueles que vierem a criticar a ordem estabelecida que se retirem, pois quem não aguenta “não desce pro play”, porém acho que essas pessoas se esqueceram de que vivem em sociedade, sendo assim, as diferenças existem e devem ser respeitadas.

Estamos vivas/os, mulheres e LGBTs, e somos a maior parte da população, viemos para dizer que também temos direitos e se o hip hop tem suas raízes na luta, então esse movimento também representa a minha e a voz de minhas irmãs. E não é dizendo que as/os artistas são seres iluminadas/os que vieram para salvar a humanidade, mas sim que podem despertar uma consciência política a quem as/os ouve, o conhecido “passar a mensagem” fazendo com que as pessoas questionem o local que o ocupam na sociedade.

E quando nós todos nos dermos conta do perigo que o hip hop representa ao sistema capitalista, os de cima e a burguesia que se preparem, pois estaremos começando uma revolução.

*Clara de Noronha é poeta, zineira e do movimento hip hop.

 

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