Um singelo Adeus ao homem do Refugo e do Mundo Líquido

bauman

Para sociólogo,  “em meio aos “bestializantes” best-sellers apresentados pelo conjunto da mídia com suas publicidades e estratégias de perpetuação desse caos cultural, ter como uma de suas ferramentas autores como Bauman é um grande trunfo”

*por Luige de Oliveira

Confesso que durante minha trajetória acadêmica muito pouco ouvi falar de Bauman com a seriedade merecida. Sempre me pareceu que a academia tinha – e, em boa medida continua tendo – um certo ar de soberba diante de Bauman. Meu encontro com as suas leituras – nem sempre compartilhando ou, por vezes, achando repetitivas, pouco importa – passaram a ser mais constantes a partir de 2010, quando me deparei com a sala de aula.

Em 2012 e, de forma mais constante, a partir de 2014, fui me deparando com uma certeza: a academia não gosta de quem simplifica a linguagem para que o grande público possa entender o assunto, não, ela prefere o pedantismo da complexidade de uma estrutura, estruturada para ser pedante e que é estruturante. Se desde 2010 eu já tinha a convicção de que a academia pouco está aberta a pensar, se relacionar, atuar de forma interativa com a sociedade e, minimamente, se reinventar na relação com a educação básica e com os professores que a constroem, concluí que Bauman, de fato, não tem muito o que dialogar com parte daquela torre de marfim.

Penso que Bauman, ao lado de Mills e alguns outros nomes da Sociologia pública, não apenas me inspiraram na árdua batalha das ideias dentro do Ensino Médio, mas também na cotidiana luta pela afirmação da importância da Sociologia no processo de aprendizagem de nossos adolescentes. Bauman esteve presente também na leitura de muitos dos meus alunos, que ao longo desses anos, sempre me pediam emprestados os livros daquele bom velhinho, recorrentes nas aulas e no birô do professor careca.

Sim, em meio ao caos cultural que toma de assalto nossa juventude, em meio aos “bestializantes” best-sellers apresentados pelo conjunto da mídia com suas publicidades e estratégias de perpetuação desse caos cultural, ter como uma de suas ferramentas autores como Bauman é um grande trunfo. Significa, para esses jovens, ir na contramão de tudo que dizem estar na moda e se encantar com as reflexões que lhe são oferecidas. Um punhado de esperança, sem sombras de dúvida.

Bauman, no meu entender, não estava preocupado em falar para os seus pares. Penso que, no melhor estilo gramsciniano da luta contra-hegemônica, Bauman passou a investir em outras frentes, em busca de um público não necessariamente acadêmico, disputando a atenção de uma juventude, a construção de uma consciência rica e ampla no olhar sobre o mundo social e suas profundas contradições.

Ao fazer isso, com uma escrita de fácil assimilação e um chamado à reflexão, tornou-se um dos autores mais populares na defesa da Sociologia enquanto um conhecimento necessário ao mundo. É desse autor que sentirei falta, muito mais que as contradições e conflitos epistemológicos do mundo acadêmico que gravitam em torno de suas obras, limitações.

Sua história de vida, é bom lembrar, começa em 1925 na Polônia. Aos 14 anos mudou-se para União Soviética, inicio da Segunda Guerra Mundial, onde lutou no Exército Vermelho contra as tropas de Hitler. Mais à frente, regressou à Polônia e, em 1968, vai emigrar para o Ocidente depois de uma forte campanha antijudaica, na qual foi considerado Inimigo Público. Para alguns autores como Dennis Smith, é a partir dos anos 80 que Bauman vai perder qualquer confiança nos ideais da modernidade e do socialismo que acreditara e desejava. Para Bauman, os regimes comunistas haviam buscado o caminho da industrialização e modernização capitalista ao invés do socialismo.

Enfim, é óbvio que os trilhos de Bauman não se resumem aos apontados aqui, e também não é esse o interesse. Penso que grandes personalidades são cercadas de complexidades e contradições em seu vasto caminho, mas sua incansável contribuição merece todo o reconhecimento. Continuará presente nos planejamentos e provocações de muitos professores de educação básica e, óbvio, no Birô deste professor careca, pronto para ser emprestado para encantar mais um adolescente.

Pode não parecer muita coisa, mas despertar o interesse da leitura num adolescente entre 14 a 17 anos, nos dias de hoje, para a minha geração e as anteriores pode não parecer nada, mas para mim, já é um imenso feito. Sobretudo, no mundo liquido e de refugo humano como o nosso.

Bauman Presente!

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*A ideia desse breve ‘Adeus’ a Bauman surgiu após receber três mensagens de alunos e ex-alunos comentando e lamentando a sua morte. Alunos de Ensino Médio da Rede Privada que se encantaram com alguns dos seus livros que me tomaram emprestado.

*Luige de Oliveira é Professor da Educação Básica e Mestre em Sociologia

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