Por que é importante contribuir com a revista Rever?

Foto: Fernando Correia
Foto: Fernando Correia*

Os limites e dificuldades da Rever são ao mesmo tempo a abertura para que se avance em uma construção cotidiana cada vez mais coletiva

*por Alexis Pedrão

“Adivinha doutor, quem está de volta na praça?” A Revista Rever! Um espaço eletrônico que nasce em 2012 com o objetivo de ser uma revista online que confluisse textos e produções alternativas com um teor crítico.

Ao detectar um grande público com a demanda por análises mais aprofundadas sobre a realidade sergipana, jovens jornalistas se juntaram e optaram por criar uma página que desse conta desse anseio. A Revista REVER surge em  2012 e tem a perspectiva de convergir os mais diversos setores sociais que produzem arte, cultura, conhecimento e que estão atuando de forma autônoma e dispersa. Nossa perspectiva é garantir produções inéditas com os pés no estado de Sergipe e a mente na imensidão. (…) O leitor da REVER não será um “alvo” a ser atingido, mas um parceiro no processo de construção dessa cultura crítica que nos propomos a estimular. A cada dia que acessar a internet o leitor terá à disposição um artigo, uma crônica, um vídeo, uma matéria, uma reportagem e fotografias para apreciar sem pressa, nem pressão. 1

O espaço passou por um período de reorganização, mas está novamente na cena. Mas qual é de fato a sua importância? Não sou jornalista, mas como admirador e colaborador da revista gostaria de refletir esta questão, argumentando a necessidade de construir essa iniciativa.

Hegemonia e Contra-Hegemonia

Primeiro, compreendo que estruturalmente há uma comunicação voltada para os interesses da classe dominante. De acordo com Marx, “as ideias da classe dominante são, em todas as épocas, as ideias dominantes, ou seja, a classe que é o poder material dominante da sociedade é, ao mesmo tempo, o seu poder espiritual dominante” 2. Assim,  a produção de notícias, informações e análises majoritariamente refletem a opinião da burguesia, uma vez que é a classe dominante de nossa época histórica. Para Gramsci, a classe dominante exerce uma hegemonia. Sobre este conceito, Costa retoma as idéias gramscianas:

“Segundo Gramsci, o Estado não se apresenta apenas como um aparato político-militar pelo qual a classe dominante organiza a coerção sobre o conjunto dos indivíduos, mas como um instrumento ampliado da dominação de classe, que além de deter o monopólio da repressão e da violência, é capaz de fazer valer os interesses dominantes através do convencimento, persuasão, da conquista do consentimento por parte dos dominados, para o que muito contribuem os organismos privados da sociedade civil – como as escolas, as igrejas, os sindicatos, os meios de comunicação de massa, etc – na elaboração e difusão da ideologia burguesa (…) A hegemonia seria a capacidade de um grupo social unificar em torno de seu projeto político um bloco mais amplo não homogêneo, marcado por contradições de classe. 3

Evidente que as opiniões de uma classe não refletem a totalidade, e nesse sentido, as opiniões da burguesia não correspondem a realidade da classe trabalhadora, gerando uma importante contradição. Então, surgem as análises críticas, que procuram se contrapor aos argumentos hegemônicos. São análises contra-hegemônicas.

Este é o caso da Rever, que está situada no campo da contra-hegemonia. “(…) tais “aparelhos privados” não podem ser identificados apenas como reprodutores do discurso dominante (…) podendo, portanto, haver tanto a difusão ideológica dos “de cima” quanto à circulação de ideias e projetos que apostem em uma alternativa para os “de baixo” 4. A Rever seria uma marca da permanente luta ideológica desenvolvida no seio da sociedade de classes. Somente por esta razão, já seria um instrumento necessário, mas acrescento outros motivos.

As exigências conjunturais

Num momento de crise do sistema capitalista e uma forte ofensiva da burguesia sobre as condições de vida da classe trabalhadora em escala mundial, é necessário pensar em espaços que dêem visibilidade aos elementos de resistência. As contradições tem se agudizado, mas pelo bombardeio ideológico, as saídas parecem existir somente dentro da ordem.

No Brasil, com o agravamento da crise e o advento do governo golpista, temos enfrentado um quadro de aprofundamento da privatização, retirada dos direitos sociais, repressão e criminalização das lutas. Nesse sentido, vale frisar que a mídia teve um papel destacado para a ascensão do governo Temer. Apostar em veículos de comunicação autônomos e com uma visão crítica da realidade é, em certa medida, contrapor uma das mais importantes bases da direita brasileira.

Por fim, é uma revista produzida em grande maioria por negros, que tem buscado encarar com centralidade a questão racial. Numa sociedade extremamente racista como a nossa, em um momento de crescimento vertiginoso do extermínio, descontrole do sistema carcerário com rebeliões e chacinas, propostas de redução da idade penal, etc., são mais que bem vindos espaços que coloquem como prioridade a luta do povo negro.

Os limites e a construção coletiva

Infelizmente a produção não ocorre nas melhores condições. Não há verbas, salários ou funcionários a disposição. Por outro lado, esse também não é o perfil. Isso significa que o trabalho desenvolvido pela Rever implica em uma tarefa a mais na vida de pessoas que tem seus empregos (ou não!) e que se desafiam nessa caminhada por compreender a importância de construir um espaço de reflexão crítica na atualidade.

Justamente pelo fato de ser tão difícil, por existirem poucas iniciativas dessa natureza é que o espaço está aberto para a chegada de novas colaboradoras e colaboradores. Portanto, os limites e dificuldades da Rever são ao mesmo tempo a abertura para que se avance em uma construção cotidiana cada vez mais coletiva.

Se, como disse Gramsci, “é preciso destruir o preconceito, muito difundido, de que a filosofia é algo muito difícil pelo fato de ser a atividade intelectual própria de uma determinada categoria de cientistas especializados ou de filósofos profissionais e sistemáticos. É preciso, portanto, demonstrar preliminarmente que todos os homens são ‘filósofos’, definindo os limites e as características desta ‘filosofia espontânea’, peculiar a ‘todo o mundo” 5, então entendemos que as opiniões críticas não devem vir somente daqueles que possuem algum diploma acadêmico, mas qualquer um que não esteja indiferente6 ao estado de coisas.

Creio ter explicado um pouco do que penso. No mais, desejo vida longa a Rever e a todos e todas que não cederam diante da barbárie capitalista.

Notas:

(1): Revista Rever – quem somos? Disponível em: https://reveronline.com/quem-somos/

(2): Karl Marx. A Ideologia Alemã. Disponível em: https://www.marxists.org/portugues/marx/1845/ideologia-alema-oe/cap2.htm

(3) e (4): Ricardo Costa. Gramsci e o conceito de hegemonia. Instituto Caio Prado Jr. São Paulo.

(5): Antonio Gramsci. “Todo homem é filósofo”. Disponível em: https://www.marxists.org/portugues/gramsci/ano/mes/filosofo.htm

(6): Antonio Gramsci. Os indiferentes. Disponível em: https://www.marxists.org/portugues/gramsci/1917/02/11.htm

 

*Alexis Pedrão é colunista da Revista Rever

*Fernando Correia colabora com imagens para Rever

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