III Semana da Visibilidade Trans – Entrevista : Jordhan Lessa

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Ativista conta sobre o reconhecimento de sua identidade transexual e a luta por direitos

*por Iris Brito Lopes

Paulo Leminski inspira transgressão quando diz que “isso de querer ser exatamente aquilo que a gente é ainda vai nos levar além”. É por não abrir mão do que é, do que sente e do que vive, que o ativista trans Jordhan Lessa é exemplo de resistência no país que mais mata travestis e transexuais no mundo, de acordo com pesquisa realizada pela ONG Transgender Europe.

Aos 49 anos de idade, ele completa 18 como guarda municipal do Rio de Janeiro e divulga seu livro “Eu trans: a alça da bolsa. Relatos de um transexual”, pulicado pela editora Metanoia e disponível online. Jordhan esteve presente na III Semana de Visibilidade Trans de Aracaju, que aconteceu entre os dias 29 de janeiro e 1 de fevereiro, onde conversamos sobre transexualidade, ativismo, carreira e inspirações.

Entre as falas, o riso de quem leva a pauta tão a sério que conta sua história marcada por incompreensões de forma leve, usando toda a opressão que já sofreu como insumo de lutas.

Iris – Você disse no debate sobre segurança e cidadania que ser trans não representa nem 10% do que você é. Quem é Jordhan Lessa?

Jordhan – O Jordhan Lessa é uma pessoa como outra qualquer que tenta sobreviver, que tem problema como todo mundo, mas também tem as soluções, como todo mundo. Eu me reconheci ativista há quatro anos, mas eu acho que fui ativista a vida inteira. Por ser diferente da regra geral, você tem que estar sempre com aquele olhar, você sempre tem que meio que explicar quem você é. E eu sou essa pessoa de luta.

I – Quando você reconheceu sua identidade?

J – Isso é muito louco porque desde que nasci e me entendo por gente sempre fui da mesma maneira. Só que eu não conhecia a transexualidade, né? A gente tem que estar numa caixinha e outra e eu não me enquadrava em nenhuma delas. Então, eu passei a minha vida inteira sendo só eu. Decidi que não sou isso, não sou aquilo, eu sou Jô. Pronto, sem nenhum artigo. Eu sou Jô sem nenhum artigo. Por isso que meu livro é assinado por Jô Lessa, porque, até então, quando eu escrevi o livro, eu ainda não tinha esse reconhecimento.

Em 2010, eu conheci a primeira pessoa que me disse que eu era trans. A Kátia Valverde, mulher trans do Rio, chegou pra mim e falou assim: “Jô, você é trans. Eu vou trazer uma reportagem para você, porque já tem até o acompanhamento que você pode fazer pelo SUS.”. Quando foi no dia seguinte, ela me levou um jornal com a reportagem e eu não quis nem ler.

Passaram-se três anos. Foi quando eu conheci João Nery numa palestra em Maricata. Cara, no final, conforme ele ia falando, eu pensei: “Quem é esse cara que me conhece tanto? Como é que esse cara fala da minha vida desse jeito?” e ali foi que eu me reconheci. E aí eu li o livro dele, dei um tempo para digerir aquilo tudo e comecei a fazer reflexões muito profundas, porque eu já estava com 46 anos. Como é que isso vai funcionar pra mim?

I– E como foram as mudanças?

J – Eu fui aos poucos. Minha primeira mudança foi a escolha de um nome para ver se eu ia me acostumar com a sonoridade. Depois eu parti para cirurgia, que era um sonho de criança. E, por último, eu comecei a hormonoterapia. E aí depois que eu sofri um pré-infarto e tive um AVC cheguei à conclusão de que a minha vida é minha. Chega de viver do jeito que os outros acham que tem que ser, mesmo que a discriminação continue, porque quando a gente faz a transição, até os mais novos acham que vai estar tudo beleza, o preconceito vai acabar. É mentira. Isso não acontece. Mas a diferença é que você se coloca no seu lugar. O preconceito vem, mas hoje eu sei quem eu sou. Então eu respondo de outra forma.

I – Você disse que a cirurgia era um sonho de infância. Você pode falar mais um pouco sobre isso?

J – É porque é assim: eu não sabia que não era menino. Eu descobri isso quando os hormônios começaram a entrar em ebulição, quando acontece o tesão, aquela coisa toda, a libido lá em cima. Nessa de tocar o corpo, eu li numa revista a palavra “masturbação” e fui perguntar a minha mãe o que era, aí ela disse pra mim que é coisa que mulher da vida faz. Aí eu: “Mulher?!” Sabe? Nesse momento é que a ficha começa a cair. Aí eu tenho aquela consciência de que “Porra, então eu não sou menino, mas o que é que eu tenho de diferente dos meninos?”. Aí o tempo começa a passar e o corpo começa a tomar forma. Eu rezava. Eu me masturbava e pedia perdão. Eu rezava todo dia para que não nascessem seios de jeito nenhum e quando não teve jeito que nasceu, eu falei: “Quando puder eu vou tirar”. Eu queria que nascesse um pintinho.

I – Você pareceu muito orgulhoso em dividir a mesa de debate com Daniel Lima. Como é a inviabilização dos homens trans?

J – A gente tá vendo um momento de mudanças. A luta dos homens trans é mais recente e é muito invisibilizada. Eu cansei de ser convidado para espaços nos quais oito eram pessoas cis, uma era uma mulher trans e aí chamavam um homem trans como protocolo. Não é uma coisa que tá ali efetivamente para atuar, para falar, fazer parte daquilo. É para não pegar mal, para ser politicamente correto. E isso cansa, porque é muito ruim pra gente. Ontem tinham dois homens trans ladeando a mesa, participando efetivamente da mesa. Aquilo foi uma honra muito grande.

A gente tem uma briga de egos, do protagonismo, do estrelismo, isso é fato, principalmente entre os gestores, porque a maioria das nossas políticas públicas LGBT está nas mãos de gestores homens cisgênero gays.  Homens trans também se prostituem, homens trans também são população de ruas, também estão desestabilizados sem saber o que fazer, porque a empregabilidade é muito difícil.

I – Representatividade importa?

J – Representatividade importa muito. Eu me sinto muito representado pelo João Nery, pelo Erick Barbi, pelo Regis Vascon. Indianara Siqueira é uma mulher que também me representa pela sua força. Nós pensamos de formas diferentes, mas eu acho que a gente complementa. Ela tá de um lado sacodindo a poeira, enquanto eu tô de outro lado tentando achar o caminho das pedras por dentro da instituição.

I – Sobre esse caminho das pedras, são diversos os relatos de funcionários que denunciam a lgbtfobia nas instituições de segurança. Como é sua experiência com a Guarda Municipal?

J – Difícil pra caramba. É muito difícil. [Risos acompanhados de suspiros]. É uma pedreira por dia. Em 18 anos lá dentro eu não tive progressão de carreira. Eu sou igualzinho ao guarda que entrou hoje. Isso é um forte fator de discriminação, porque as pessoas que entraram comigo hoje estão chefiando e eu continuo como guarda.

Para você ter uma ideia, quando eu entrei na guarda, eu respondi um questionário que perguntava: “Você é homossexual, sim ou não? Se a resposta é sim, você tem parceiros fixos ou não?”. No curso de formação um instrutor me falou: “Eu acho que você deve pôr uma maquiagem, colocar um batom, para ficar igual a suas colegas de aula”. Aí eu falei: “Engraçado que lá no edital não estava falando isso”.

Isso só diminuiu a partir de 2014 quando eu lancei o livro, porque eu saí na mídia. Eu olhei para aquela foto no jornal e pensei: agora a guarda não vai poder me sacanear mais, porque ela tá botando publicamente que me apoia. Então, eu usei disso para exigir o uso do nome social e de outros direitos, para me fazer respeitado.

Agora pintou o lance da barba. Disseram que eu não poderia usar barba. Aí fui à dermatologista e ela fez uma restrição de barba. Por incrível que pareça, minha restrição de barba tem o f64. Não é por não poder usar uma lâmina, é pelo CID f64, o transtorno de identidade de gênero. A guarda aceitou e falou: “Oh, você tem que andar com isso na carteira, porque se te cobrarem você mostra. Mas tem que manter aparada, tá?” Dois dias depois, a barba estava do mesmo jeito e perguntaram: “Ué, você não vai aparar essa barba?”. Isso é uma forma de ficar te massacrando o tempo inteiro.

I – Então, para receber um atendimento do SUS, sua identidade é enquadrada como patologia….

J – A gente não precisa estar enquadrado como transtorno mental, porque se eu tenho um transtorno mental, eu não podia estar trabalhando. Como um transtornado mental eu deveria estar em casa. Porque é isso que remete pra gente um CID da letrinha “f”. Já ouvi muito: “Ah, é porque vocês querem privilégios. Vocês querem fazer de graça”. Primeiro que o SUS não é grátis. Se a gente paga impostos como todo mundo, a gente quer ter direitos da mesma forma. Gravidez não é doença e o SUS atende. A transexualidade  precisa ser reenquadrada como outros atendimentos do SUS que não são doenças.

I – Já caminhando para o final, conte um pouco sobre a escrita do seu livro.

J – Eu falo que não sou escritor, eu sou contador da própria história. O livro pra mim foi uma catarse. Eu coloquei ali muita coisa que eu precisava colocar para fora no processo de relembrar e escrever. Quando eu terminei e lancei é como se eu tivesse encerrado um ciclo e pra mim foi muito importante, uma terapia mesmo. Não é o muro das lamentações, muito pelo contrário, é um livro que mostra que eu superei muita coisa e agora vem aí o segundo, falando da transição. Eu quero falar o que acontece com a gente depois da transição.

I – O tema da III Semana de Visibilidade Trans de Aracaju é mídia e representatividade. O que você diria num veículo de comunicação que ouça sua voz?

Eu diria para todos os homens trans que esse não é um momento de desunião. Que nada é, nem será fácil. Mas que é necessário. A vida da gente se divide em dois tipos de escolhas: o que é possível e o que é necessário. Era possível não estar aqui fazendo nada disso, mas é necessário. A gente precisa entender qual é o nosso papel aqui e gente não tem que desistir. A gente tem que se apoiar, estar junto aprendendo, dando conhecimento às pessoas até para depois poder cobrar.

*Iris Brito Lopes é midiativista e colabora com a REVER

Um comentário sobre “III Semana da Visibilidade Trans – Entrevista : Jordhan Lessa

  1. Amei meu afilhado sendo entrevistado. As respostas, a maneira de se colocar com palavras são tão sinceras que parece que estou ouvindo sua voz. Força Jo Lessa. Parabéns por ter superado todas as divesidades com pé no chão. Muito orgulhosa de você meu fofo.

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