A revolta do Makro

makro(Foto: Portalarde)

Trabalhadores da construção civil se revoltaram após descobrirem que a oferta de emprego se passava de um boato

*por Alexis Pedrão

No primeiro dia do mês um protesto paralisou o trânsito em grande parte de Aracaju. Centenas de trabalhadores da construção civil foram ao Makro em busca de emprego, mas ao chegarem no local descobriram que a oferta de trabalho não passava de um boato. Revoltados, fecharam a avenida Tancredo Neves e atearam fogo em pneus. Foi um verdadeiro caos.

Por alguns motivos esse fato me chamou bastante atenção. Primeiro pela grande quantidade de pessoas em busca de emprego. Os números apontaram para mais de 500 pessoas presentes(1). Cresce o desemprego em todo o país, e em Sergipe não é diferente. Em setembro de 2016 o estado registrou a queda de 14.620 postos de trabalho(2). Mesmo com a chegada de algumas indústrias, como a de vidro em Estância e a de lâmpadas anunciada recentemente para a cidade de Lagarto o número de empregos criados não chega nem aos pés das mais de 400 demissões de uma única vez da Santista têxtil (3). Porque se é verdade que chegaram algumas indústrias, é verdade também que outras fecharam.

Segundo, porque foi um protesto espontâneo, por fora dos tradicionais chamados de ato que estamos acostumados a ver por parte dos sindicatos e da esquerda organizada. Aliás, o sindicalismo cumpriu exatamente o seu papel burocrático de sempre. Como foi um ato de grande impacto, que de fato interferiu na dinâmica da cidade, o sindicato dos trabalhadores da construção civil – SINTRACON – fez logo questão de afirmar que não tinha “envolvimento com o protesto”(4). Óbvio que nem todo protesto precisa do aval da direção sindical para acontecer. Pelo contrário, em boa parte dos casos os trabalhadores não esperam ou pedem a permissão do sindicato para se mobilizarem. Mas é papel do sindicato apoiar todas as lutas.

Terceiro, a opção pela radicalidade. Os trabalhadores poderiam fazer um ofício, marcar uma reunião ou até mesmo formar uma comissão para dialogar com o Makro? Talvez. Mas seriam mesmo ouvidos? Provavelmente não, mas por via das dúvidas escolheram seguir o caminho da ação direta. Já não tinham mais nada a perder. Naquela quarta a população entendeu que não se pode enganar trabalhadores sem que isso tenha consequências. Compreendeu que o desemprego está grande o suficiente a ponto de pessoas interditarem vias. Se os trabalhadores não conseguiram o emprego, ao menos chamaram atenção de todos para esse grave problema.

O turbilhão passou. Tudo voltou ao normal. Ou não. Talvez os impactos da crise não sejam apenas debates de universitários e de especialistas em economia. Talvez a crise esteja no nosso cotidiano, mais próxima do que imaginamos. E tende a explodir em qualquer momento, aqui ou ali. Pelo menos foi isso que se demonstrou na “rebelião do Makro”.

Notas:
(1)Desempregados protestam em frente ao Makro. Disponível em: http://a8se.com/sergipe/noticia/2017/02/111535-desempregados-protestam-em-frente-ao-makro-fechando-avenida-tancredo-neves.html

(2)Desemprego em Sergipe não para de crescer. Disponível em: http://www.infonet.com.br/noticias/cidade/ler.asp?id=69123

(3)Santista Têxtil encerra atividades em Sergipe. Disponível em: http://economia.estadao.com.br/noticias/geral,santista-textil-encerra-atividades-em-sergipe,105570

(4)Boato de oferta de emprego gera protesto  e 5Km de congestionamento. Disponível em: http://g1.globo.com/se/sergipe/noticia/2017/02/boato-de-oferta-de-emprego-gera-protesto-e-5-km-de-congestionamento.html

*Alexis Pedrão é colunista da Revista Rever

 

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