PEQUENO VOLUME DE POESIAS

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Há tanto de inspiração como de elaboração linguística nos versos de Allan Jonnes

por Romero Venâncio

O poeta Allan Jonnes sabe do verso. Sabe da forma. E trabalha as palavras na visceralidade de sua juventude e de suas dores. Falamos desse “Pequeno volume” publicado em Aracaju no ano da graça de 2016. Uma “seleção” de poemas sem títulos (talvez porque todo esse conjunto de versos seja apenas um grande poema… Quem sabe?) feitos para pensar mais fundo nosso tempo e a condição de vivente numa situação como bem diz o poeta de: “uma violência separada”.

Volto a duas afirmações inicias para aclarar o que quero dizer dos versos de Allan Jonnes sem discriminar nada ou ninguém. “Saber do verso” – é notório nesse “Pequeno volume” a preocupação cuidadosa do poeta com as palavras que perfila no papel. Significa que o poeta ler poesia, leu uma tradição e não se acomoda nela. Sabe de João Cabral, sabe de Murilo Mendes, Sabre de Drummond, sabe de Pessoa.

Mas sabe de si e da criação que pulula em sua mente e não se conforma e repetir fórmulas ou seguir preceitos para agradar a quem quer que seja… Não! Temos um poeta que sabe da tradição, sabe do verso e cria dentro deste caldo de cultura. Mas não faz “panfletarismo poético” que se esgota em denúncias que não precisam do verso. Temos muito isto hoje em poesia brasileira atual. Pessoas bem intencionadas moralmente. De esquerda. Mas que de verso, sabem pouco ou nada. E colam no papel apenas suas preferências juvenis revolucionárias (que no geral, duram pouco… Basta ver nossa recente história e onde vai parar essa gente!). Não é o caso (nem de longe!) do poeta Allan Jonnes. Mas seria ele um alheio aos problemas cruciais desse mundo? Claro que não… vejamos/sintamos:

“O senhor Cláudio Pereira

Negociante de algodão doce e bexiga

De oxigênio para crianças parou

Outro dia a sua bicicleta monark modelo circular

Próximo dos arcos da orla

E manifestou a maior indignação da própria vida”

Quem começa assim um verso, não tá de brincadeira e nem desdenha da vida empobrecida e machucada desse nordeste medonho. Sabe dessa vida gritando nos cantos, sabe do verso e do que ele não pode como poesia. Ou ainda, no enigmático e político verso:

“Como é o caso no revólver

No poema

No sexo com a boca

E no evangelho de São Marcos.”

Temos em todos os poemas, um poeta vigilante da política, mas que não descuida do verso. Não descuida da “forma”. Dissemos logo no início que tínhamos um poeta que sabia da forma. De fato, sabe e bem. Não só porque leu e ler poesia de todos os naipes e gostos. Sabe da crítica, também. Poesia é poesia (como bem diz Antonio Cicero no seu belo “Poesia e Filosofia) e não é mero apoio a teses sociológicas (por mais nobres e generosas que sejam). Poesia tem “forma”, tem jeito, tem estilo, tem gramática… Assim:

“É no mínimo sublime a mecânica aplicada

Esta capacidade que deu a certas máquinas”

Nos deixa de cara a erudição singela do poeta a nos informar de coisas graves e duras. Poesia é também isto e mais que isto. A falsa peleia entre os que amam Drummond e sua inspiração ou os que amam Cabral e sua razão cerebral, aqui não tem sentido. Há tanto de inspiração como de elaboração linguística no verso de Jonnes (porque ele leu os dois e soube tirar proveito!). “Forma” aqui não é preciosismo, mas um sabe-sentir o lugar da poesia enquanto poesia e não enquanto ilustração de uma ideia.

Por fim, percebe-se (se tivermos atentos e cuidadosos com o por trás das palavras) que há uma condição melancólica porque passa uma certa juventude contemporânea e que o verso de Allan Jonnes não deixa escapar e a percebe liricamente na medida do possível

“O homem melancólico é aquele para o qual

As portas não resolvem mais a questão do deslocamento”

Ou em outro verso:

“Por isso a cabeça é campeã nas doenças”

Versos poderosos na forma como expõe o problema: há um ser melancólico que vive bloqueado num mundo que há muito deixou de ser hospitalidade para ser desabrigo, para ser morada sem teto, sem rumo. O poeta não ver com desespero essa condição, até porque a ver como condição mesmo e não como natureza ou como destino inexorável.  Como diz ainda num outro poema:

“Ele move-se e está resolvido.”

*Romero Venâncio é membro da Revista Rever

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