A maternidade e suas matizes: pautas de um feminismo excludente?

Marcha das Mulheres Negras 2015 – Cidinha Alves / DCM

A maternidade, assim como todas as discussões incluídas no feminismo, perpassa o conceito de classe social e aspectos étnicos

*por Carla Apenburg Trindade

              Desde muito tempo, as mulheres são representadas e vistas como mera matriz, um sistema reprodutor, a mãe casta e abdicadora, visão esta que acaba por naturalizar uma essência referente aos cuidados da esfera privada como inerente à mesma, o que não passa de um mito construído socialmente e incialmente por homens.

            O movimento feminista e seus diferentes segmentos desde meados da década de 1960 vêm crescendo e constituindo maior visibilidade e aderências a partir da presença incontestável de seu teor político e social, que procura abordar e discutir diversas temáticas, trazendo reflexões acerca da opressão em que as mulheres estão sujeitas nos distintos tempos históricos em que o movimento esteve inserido.

            Os direitos reprodutivos e, por conseguinte, a maternidade, são pautas relevantes no movimento. Possuir a decisão sobre seu corpo está presente desde temas como a liberdade sexual feminina até a escolha e uso de certos métodos contraceptivos que, por muitas vezes, nada mais são que bombas hormonais com grande margem de erros. Muito além da discussão em torno da contracepção, o aborto também é um tema recorrente na agenda feminista, abordando nas rodas de debate o assunto da saúde pública feminina constantemente precarizada, hostilizada e ainda, de pouco acesso a classes sociais menos favorecidas.

            Vale ressaltar que a maternidade, assim como todas as discussões incluídas no feminismo, perpassa o conceito de classe social e aspectos étnicos. É importante reconhecer que as mulheres são um grupo heterogêneo, com vivências e realidades díspares e, portanto, existem privilégios e distintas escalas de opressão.

            Isso é bem nítido no que diz respeito à visão acerca da maternidade nas distintas classes sociais. Uma mulher pertencente a uma classe mais abastada encara a maternidade como “benção”, “milagre da vida” e “alegria”, pois a mesma possui uma condição financeira e social favorável à criação de filhos, até mesmo de forma autônoma. Já em relação às mulheres negras e periféricas, por exemplo, a maternidade é utilizada como mecanismo de opressão, haja vista sua condição desfavorável dentro da sociedade.

            Através dessa diferenciação da maternidade de acordo com as diversas classes sociais, também existem valores morais que caminham lado a lado com uma ideologia conservadora, permeando e formulando a idealização do que é ser uma boa mãe. Uma visão mítica, quase imaculada da personificação materna é sem sombra de dúvidas, um tipo de violência simbólica e psicológica exercida contra as mulheres, pois muitas mães que não conseguem aguentar a pressão de uma dupla, ou até tripla jornada, tem que conviver com a culpa do julgamento de uma sociedade que pune, muitas vezes indiretamente, quem foge os padrões maternais sagrados.

            O direito de escolha e a posse dos seus próprios corpos, também são relativizados e varia em face da coisificação e atribuição de valores, sejam eles morais ou mesmo a capitalização de seus corpos. Um exemplo prático desse cenário está no ponto da descriminalização do aborto, que em suma, ocorre de forma clandestina e perigosa matando, principalmente, mulheres periféricas por não possuírem condição financeira para realizar tal procedimento de forma segura.

            A discussão no que diz respeito a tais direitos reprodutivos dentro do movimento está intimamente ligada a escolha da mulher que não possui filhos, em tê-los ou não, no entanto, o que muitos não conseguem perceber é o fato de que há uma marginalização, dentro do próprio movimento, seja na abertura e oportunidade em ocupar os espaços de luta, ou mesmo referente à invisibilidade da temática nos tópicos discutidos frequentemente nesses lugares.

            Por se tratar de um grupo heterogêneo, o Feminismo possui matizes plurais que acabam se ramificando em segmentos ou categorias, cada uma de acordo com as diferentes experiências, teorias e afinidades ideológicas. Atualmente, na discussão abordando o direito de escolha sobre a maternidade, vem se destacando o movimento Child-free[1], que busca a alternativa entre ser, ou não, mãe, tendo em vista que esse é um processo que envolve muito mais que a parte física e biológica (gestar, parir e amamentar), mas que também engloba o aspecto psicológico, financeiro, social e cultural.

            Ao mesmo tempo em que essa categoria demonstra riqueza nos temas e debates em torno das opressões relacionadas à maternidade compulsória e romantizada, até mesmo nos temas que são inseridos transversalmente, como a divisão sexual do trabalho e criação de esferas distintas entre privado — local destinado as mulheres, sempre relacionadas aos cuidados domésticos e maternais — e público — esfera que diz respeito em suma aos homens que seguem ocupando cargos destacados no trabalho e na sociedade política —, também acaba por afastar crianças e, consequentemente, mães, do espaço de discussão feminista com a disseminação do discurso de ódio por parte de seus integrantes às crianças.

            Compreendemos que o movimento confunde mulher livre com a mulher que opta pela ausência de filhos, excluindo assim, da luta à liberdade— que deveria agregar todas em quaisquer que sejam as suas condições— as que por escolha ou acidente, se tornaram mães. Lembramos ainda que o movimento possui pautas sérias e válidas dentro da desconstrução do famoso “instinto materno”.

            Existem sim, mulheres que não desejam serem mães. Porém, também têm mulheres que apesar de nunca ter tido tal pretensão, conceberam uma criança, e essas são as que mais sofrem com os diversos tipos de opressões estruturadas numa sociedade machista, necessitando então, muito mais de informações e apoio que poderiam ser encontrados dentro do próprio movimento feminista.

            É bom frisarmos que muitas dessas mulheres não possuem alternativas além de levar uma gravidez indesejada sozinha, pois frases como “melhor abandonar que abortar” ainda legitima o abandono paterno, mas não permite a escolha da mulher sobre seu próprio corpo, aumentando cada vez mais o número de mães-solo e também de diversos problemas psicológicos desencadeados pela condição de extrema pressão, violência e culpabilização das mesmas.

            Além de disseminar discursos de ódio e opressão às crianças, páginas referentes ao movimento child-free nas redes sociais, frequentemente ofende mulheres mães e destila misoginia, expondo-as publicamente. Outra frase comumente utilizada nas redes é “só engravida quem quer”, que além de oprimir mulheres, colabora com a desinformação acerca dos métodos contraceptivos e suas constantes falhas, deixando de prevenir a gravidez indesejada.

            Por fim, se a maternidade oprime mulheres, esse fato enaltece um sistema estruturado no patriarcado, machismo e misoginia. A luta deve constituir-se contra o mesmo e não a indivíduos tão vulneráveis à violência quanto uma mulher que lute por sua liberdade de escolha reprodutiva. Afinal de contas, a culpa de a maternidade ser opressora, não advém de mulheres-mães, mas sim do sistema no qual nossos filhos e filhas nascem.

[1] Para obter maiores informações sobre esse movimento, acessar o link no seguinte endereço: http://casadamaejoanna.com/2016/06/16/recortes-feministas-que-excluem-mulheres/

*Carla Apenburg Trindade é graduanda em Geografia Licenciatura pela Universidade Federal de Sergipe/UFS, bolsista voluntária PIBIC no projeto Violência Contra a Mulher no Campo.

 

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