O empoderamento na visão de três jovens negros

Marcha do Empoderamento Crespo, novembro de 2015 / Foto: Ana Lucia

Conversamos com três jovens negros para entender mais sobre empoderamento, seus limites e como o termo vem sendo usado nos espaços da sociedade civil

por Geilson Gomes

Já reparou o quanto a palavra empoderamento vem sendo utilizada em vários espaços de conversa e debate público, inclusive em meios no qual ela nunca frequentou? Mesmo parecendo novo, o termo foi primeiramente definido, na América Latina, no século passado, pelo educador Paulo Freire – um dos pensadores mais conceituados de nossa época.

Nas palavras de Freire, uma pessoa ou um grupo empoderado realiza por si mesmo as mudanças e ações que os levam à conscientização e à transformação social. A palavra foi desenvolvida através da relação com as comunidades e movimento sociais, por meio de práticas da educação popular e participação social.

Por ser um termo que tem um sentido amplo e por ser utilizado em diferentes âmbitos, conversamos com três jovens negros para entender mais sobre empoderamento, seus limites e como o termo vem sendo usado nos espaços da sociedade civil, a partir da lógica dos movimentos e coletivos:

   – Michelle Souza, candomblecista, gorda, psicóloga, analista ambiental e participa do Movimento de Crespxs e Cacheadxs de Sergipe e de outras lutas de Negrxs em Movimento

    – Ana Dindara, feminista e Integrante da Bamidelê, Organização de Mulheres Negras

   – Jorge Edson, militante do Movimento Organizado dos Trabalhadores Urbanos (MOTU) e Mestrando em Geografia pela UFS

REVER – Como é a aplicação do termo ‘empoderamento’ no debate público (nas rodas de conversa, nas mídias, nos debates, nos movimentos sociais, entre outros)?

Michelle Souza – Geralmente observamos pessoas usando o termo “empoderamento” como algo pessoal e individual, que se consegue por méritos próprios. Seja em rodas de conversa, ou em redes sociais. No nosso entendimento  o “empoderamento” está relacionado a uma construção social de fortalecimento e auto-valoração de uma parte dita vulnerável ou minoritária dessa sociedade. Citando um exemplo mais específico, houve em 2015 a Marcha do Empoderamento Crespo em Aracaju… esse Empoderamento aí é necessariamente coletivo. Não surge por geração espontânea, mas sim por uma longa luta pós-diaspórica do movimento negro e de Negros em Movimento, junto à dinâmica das demandas negras no campo estético-político.

Ana Dindara – O termo empoderamento ligado ao feminismo negro, nos últimos tempos tem sido muito usado em alguns grupos e lutas socais, mas com ênfase nos movimentos de mulheres negras, vindo para reacender um processo de conscientização. É o “se dar conta do seu poder” de voz, de luta, de assumir sua estética que muitas vezes vai contra ao padrão Europeu, de entender que as políticas governamentais não englobam as mulheres negra e que nos últimos anos continuamos com uma taxa de mortalidade muito alta.

É entender tudo que foi velado, democracia racial. É um processo individual mas, que a luta para acabar com essa desigualdade racial é conjunta, a luta pela equidade, visto que uma mulher empoderada tem condições de empoderar as outras.

Jorge Edson – A palavra tem o peso a depender do ponto vista de quem e onde se fala. Todo esse processo de empoderamento, tanto nas questões individuais, tanto nas coletivas são fundamentais, pra você se conhecer e construir identidades a partir de determinados elementos que você vai se utilizar inclusive para se fortalecer enquanto sujeito e enquanto grupo.  É importante para criar uma simbologia e um jeito de ser que é necessário pra a questão de você se identificar. A grande questão em si que eu vejo diferentes apropriações da palavra.

O capital se utiliza dessa palavra, por meio da politica, do discurso e determinadas ações. O empoderamento a partir das politicas públicas, hegemoniza determinados grupos e coloca esse grupos de acordo a suas questões especificas, como  a pauta dos negros fosse diferente das pautas mulheres. Mas não é.

REVER – Como o seu uso pode contribuir para a superação das relações de poder na sociedade?

Michelle Souza – Entendemos que para equilibrar as relações de poder na sociedade seria necessário o fim do capitalismo. Contudo, ainda assim é possível identificar vários aspectos importantes no uso social do termo/conceito de “empoderamento”. Um que nos é bastante caro está relacionado à Formação de Subjetividade dx negrx brasileirx. Como assim? Esperamos e lutamos para que muito das marcas do Racismo experimentadas por nossas crianças (na nossa geração) e em outras  anteriores, não sejam mais as marcas das próximas gerações. Que a mulher negra e o homem negro ganhem do uso do empoderamento negro a possibilidade de que seu Ideal de Ego possa se encarnar no seu prório corpo, no seu nariz, nos seus traços, no seu cabelo crespo. E não mais meninas negras queiram ser brancas, loiras, de cabelo liso. Que possamos nos empoderar, nos representar, nos identificar e que nosso Ideal seja enegrecido!

Ana Dindara – Existe uma importância quando discutimos representatividade em todas as esferas. As pessoas não-negras tem que entender que ali também é um espaço para pessoas de todas as etnias e para além disso. É representatividade quando temos uma Ministra negra ou então uma estudante negra periferia sendo filha de mãe solteira e passa na USP em primeiro lugar para fazer medicina. A mulher negra tem o mesmo direito que uma mulher não-negra de adentrar o mercado do trabalho, mas ainda hoje encontramos dificuldades para entendermos o por que da moça loira dos olhos verdes, da qual o recrutador não tirava os olhos, passou na entrevista de grupo para a vaga de recepcionista e a mulher negra não passou na entrevista, já que é mais interessante que as mulheres negras não ocupem esses cargos, mesmo seu perfil profissional sendo igual ao da mulher loira – Isso é racismo institucional.

Jorge Edson – O empoderamento dentro de uma outra lógica, tem um sentido mais forte, quando você coloca que o sujeito tem que se empoderar e se autoreconhecer. O silenciamento do negro, a violência que os indígenas e as mulheres sofrem,  são os mesmos processos, mas de diferentes formas, porque o opressor é um só, o capital é feito por pessoas, instituições. Empoderamento para os grupos historicamente oprimidos é muito importante.

REVER – Quais os limites do termo empoderamento?

Michelle Souza – Não sabemos bem o que dizer sobre os limites do termo “empoderamento”, apenas repetimos que no nosso entendimento o conceito de empoderamento é necessariamente coletivo e tem história de luta. Talvez, o uso do termo como algo individual tire sua força de luta, construção e mudança, mas mesmo assim possa servir a algo.

Ana Dindara – O limite do empoderamento tem início ao reconhecer os privilégios que resultam no silenciamento das mulheres. A descolonização do pensamento apenas existe quando o negro tem espaço para falar e ser ouvido, obviamente quando ocupa esses espaços. O sistema opressor que nos cerca garante que não alcancemos esses espaços, por premissas na qual o machismo a opressão se dá do homem estruturalmente opressor para a mulher estruturalmente oprimida, na questão gênero, onde os privilégios das mulher não-negras são interpretados como determinadas ferramentas engrandecer todas elas. O privilégio vai aparecer de todas as formas, nas novelas que as personagens principais são negras, nas passarelas, espaços de altos cargos ou ainda sim se preferido em uma disputa de emprego aonde todas tem o mesmo nível para estar no cargo corrido.

Jorge Edson – Quando você individualiza você não consegue ver a totalidade das coisas, você acaba individualizando e criando determinados padrões, tanto para os movimentos, sejam eles sociais, quanto para outros grupos da sociedade. Individualizar é uma forma de fragmentar. A ideia dos poderosos e do empoderamento na perspectiva das políticas públicas e o empoderamento enquanto sujeito, mas não enquanto classe. Não consegue observar que estão embaixo de uma superestrutura, com as mesmas condições materiais e econômicas. Individualização para o sistema capitalista é fundamental, não coloca na totalidade o problema e o sujeito. Como se a escolha fosse do sujeito, e é culpa dele, e não uma construção social.

 

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