Saudações às cadeiras vermelhas

Por Henrique Maynart*

Rua Cedro, sem número. Bairro São José. Aracaju- Terceiro Mundo.  Estádio Estadual Lourival Batista, domicílio pomposo de nome e concreto. Patrimônio das bandas de Serigy extraído das vísceras da ditadura civil-militar e suas pretensões faraônicas, palco das melhores rivalidades que habitam as redondezas.

Inaugurado em nove de julho de 1969, no auge dos porões que o AI-5 que arremessavam nossos direitos fundamentais para escanteio, o Batistão recebeu a seleção brasileira para o seu abre-alas em um amistoso contra a “seleção sergipana”, uma espécie combinado da época.  Como previsto, a madeira comeu no centro e o combinado sergipano fora estraçalhado por 8 a 2 – o time de Jairzinho e Tostão não rendia vacilo – mas a partir daquele jogo ficou decidida a organização espacial do maior clássico do Estado. No primeiro tempo o atacante Vevé, do Confiança, fez o primeiro gol da seleção sergipana embaixo do placar.  No segundo tempo o meia Fernando Oliveira, do Sergipe, conferiu o segundo gol da seleção nas redes da entrada oficial do Batistão, pela Rua Campo do Brito. Dois gols que delimitaram o território de duas paixões tortuosas, cada jogador cantando a pedra de cada lado. E assim tem sido nos últimos 48 anos de adrenalina, suor e sangue no olho.

Observar a vida a partir das cadeiras vermelhas é atribuição colorada que vai de quarta a domingo.  O lado rubro do Batistão encara o placar de frente na glória ou na tormenta, sob a vista grossa dos prédios da 13 de julho ao fundo e recebendo as últimas lascas de sol no entardecer domingueiro. A Rua Campo do Brito estende o tapete vermelho de gente e agonia nas filas indianas que se apressam. Subir as escadarias é levar um banho de sentidos fartos: O frescor da grama verde pela venta, a imensidão do estádio forçando o par de olhos a se esticar na grande angular, o burburinho da torcida correndo em espiral, o esparro da charanga no pé do ouvido e o chiado do rádio. Banho de sentidos e torcida batizada, o jogo está prestes a começar.

A partida cheira a carne, bago de cana e cerveja arremessada a goles longos nos copos de vitamina. Os securentos chegam primeiro, colam no vidro das cadeiras brancas pra despistar as lascas de sol que insistem em ver o primeiro tempo sobre nossas ventas. Mesmo em tempos de fone de ouvido e aplicativos, o rádio de pilha é uma constante papocando as orelhas da partida a lances longos de narração. Mário Sena nasceu pra te emocionar, podem chamar o Carlos Magalhães de Magá que ele não se incomoda, Gogó de Ouro é José José José Antônio Marques e por aí vai. Os dramaturgos e cronistas seguem esculpindo o jogo para os ausentes, o par de olhos segue narrando a partida atrás do gol.

Arquibancada é palanque e campo de batalha, torcer é melhor que assistir tal como viver é melhor que sonhar, Belchior salvando a lavoura mais uma vez. Encharcar o gramado com as listras brancas de papel e cantar a escalação sob o repique do surdão. Vai começar a festa.  No canto direito mais próximo ao gol fica o Setor B, Barra Brava do Gipão, no escanteio da esquerda fica a Torcida Esquadrão Colorado (TEC), a charangueira Rubro Choop oscila entre o escanteio e o gol esquerdo. Entre cantos, críticas e declarações de amor eterno, as mãos seguram as cabeças entre a assistência de Ramalho e a arrancada de Hiago, sob os gritos otimistas de “Bora, Porra!”. Quando Gabriel Cajano vira o jogo pra descida de Vicente não tem bunda certa que esquente o concreto, as bolas paradas de Felipe Ribeiro e Welton Heleno e os passes de Calyson arrancam as sonoridades coletivas das gargantas mais profundas do Batistão. A bola que raspa o travessão castiga os cardíacos de todas as idades – todo torcedor é um potencial cardiopata – mas quando a rede se estufa e o juiz corre pro centro de campo não tem nervo que agüente o papoco colorado, os braços desconhecidos se entrelaçam e o corpo se converte em extensão dos plenos pulmões que gritam à exaustão total. Gol do Sergipe, ainda não inventaram frase melhor.

O intervalo do jogo dá trégua aos corpos fatigados no campo e aperreados na arquibancada. Tempo bom, tempo ruim, que há de fazer. Descer as escadas pra repor o espeto, levar a cerveja e tirar água do joelho. O céu rosa alaranjado persiste pelas fronteiras entre rio Sergipe e os coqueiros da Barra, as últimas lascas de sol já não incomodam faz algum tempo. O jogo recomeça de sopetão e as lacunas se preenchem preguiçosamente na subida das escadas.  Divulgada a renda e a bilheteria que um dia já foi maior, independente dos números concretos, as alterações de vestiário e prognósticos da disputa.

Assim como em qualquer partida, os últimos quarenta e cinco minutos são dedicados aos comentários sobre o preparo físico, a capacidade de rearranjo tático do treinador e o potencial de superação da equipe. A dupla de ataque pode ultrapassar o Usain Bolt na arrancada mas não tem jeito, aquele tio securento vai sempre comparar com a velocidade com que Leniton e Elenilson arrancavam naquela equipe histórica do Hexa de 91 a 96. Hexa é luxo, fazer o quê, torcida mal acostumada fica chata mesmo.

O juiz apita e fim de papo, quem jogou jogou, quem não jogou não joga mais. A vitória é ensurdecedora na descida das escadas, a derrota amplifica o volume dos resmungões dos tempos do Hexa. Há quem embasse pra cima do Setor B por sua recusa em vaiar o time em campo em dias ruins, há quem se recolha de bate-pronto em direção aos portões. Mas quem carrega 34 títulos estaduais e a maior torcida do Estado não padece com qualquer tranco, mesmo nos tempos mais sórdidos da falência dos coronéis.

Enxergar a vida pelo lado vermelho do Batistão em tempos de especulação e ingerência midiática não é tarefa fácil, mas a vida segue aos trancos, barreiras e barrancos. O lado vermelho do Batistão não cabe no melhor contrato de direito de imagem, o lado vermelho do Batistão não cabe em quatros cantos de um painel de LED para um público domesticado. O amadorismo, os vícios reacionários herdados de outros tempos e a sanha dos direitos de transmissão ladram, mas tudo é garantido após o sol vermelhecer. Domingo eu vou lá pro Batistão, as cadeiras vermelhas que me aguardem.

Henrique Maynart é jornalista e acima de tudo colorado

*Corrigimos: O jogador do Sergipe que fez o gol na partida inaugural do Batistão foi Fernando Oliveira e não Tomas como havia sido publicado anteriormente. Agradecemos a Dida Araújo pela informação. 

10 comentários sobre “Saudações às cadeiras vermelhas

  1. Caro Henrique, como colorado hexa campeão duas vezes, fico emocionado ao ler esse texto. A torcida do Gipão agradece. Somente uma observação: O jogador do Sergipe que fez o segundo gol da seleção sergipana foi Fernando.

    1. Caro Dida, agradeço pelas palavras e pela consideração. Em relação ao autor do gol do Sergipe recebi uma correção do colega Dida Araújo afirmando que se tratava do jogador Felipe Oliveira, o senhor afirma que foi o Fernando, confere? Longe de mim duvidar do guardião da memória colorada, mas é importante apurar o choque de informes. No aguardo camarada, estou a disposição.

  2. PARABÉNS PELO LINDO TEXTO EU COMO TORCEDOR COLORADO ME EMOCIONEI LENDO O TEXTO ME CENTI COMO SE ESTIVESSE NO BATISTÃO EM DIA DE CLÁSSICO

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