5ª edição da Baixa em Alta, o Rap de Salvador no topo

Foto: João Vieira 

Confira o que rolou na 5ª edição do “Baixa em Alta”, evento que reuniu vários grupos de Rap na periferia de Salvador

por Henrique Oliveira

No domingo, dia 30 de Abril, aconteceu no bairro de Massaranduba em Salvador, na região da cidade baixa, mas precisamente na baixa do Petróleo, a 5ª edição da “Baixa em Alta”, um evento gratuito de Rap, em praça pública, que reuniu vários grupos de rap de Salvador que estão em destaque na cena local e regional, como Nois por Nois, Contenção 33 (comemorando 2 anos), Beirando Teto, Ministério Clanmor, Dark MC, Galf,  A rua se conhece, Xarope MC, MR Jack, com discotecagem de DJ Belle e ainda espaço poético.

A 5ª Baixa em Alta é organizada pelos donos da casa, o grupo de Rap Nois por Nois, formado por Jonatha e Elton, que no ano passado lançou seu primeiro álbum, Qual é o seu circo? (ouça aqui), e nós batemos um papo com Jonatha sobre o histórico do evento e sua importância.

E a Revista Rever foi lá fazer uma cobertura do evento e conseguiu bater um papo com alguns desses grupos.

Rever – Você pode falar sobre o histórico do evento?

Jonatha: O evento Baixa em alta já tem aí 7 anos, começou a acontecer em 2010, estamos fazendo a 5ª, a primeira edição eu não cheguei a fazer parte, eu ainda não fazia som, Gardenal que foi o precursor do evento, eu já vim fazer parte a partir do segundo em 2012 no fim de linha da Massaramduba, o 3ª evento Gardenal ainda fez em vida, que foi no fim da rua São Francisco, a 4ª edição fizemos aqui nesse mesmo largo Juarcy Magalhães, já sem a presença de Gardenal que faleceu. E hoje estamos fazendo a 5ª edição com muita luta, com muitos corre, mas estamos firme e forte.

Rever- Qual é a importância de um evento como esse na periferia de Salvador hoje?

JonathaÉ não esquecer que a resistência existe, que hoje em dia uma rapaziada não liga muito, não todos, a maioria ainda resiste, o bom é que a maioria ainda resiste, geralmente quando o Nois por Nois toca, junto com o Contenção, a gente tem tocado em área nobre, o que não deixa de ser bom também para divulgar, mas na minha visão é que não podemos esquecer nossa rapaziada, porque tudo tem que ter uma base, toda luta tem que ter uma base, e creio que a luta pelo povo da periferia, pelos menos favorecido, da classe trabalhadora, então a base somos nós,  então temos que incluir a nossa rapaziada primeiro.

E conversamos com Bruno “Suspeito”, do grupo A Rua Se Conhece – conheça um pouco mais do grupo aqui – que também organiza evento de Rap na periferia de Salvador, o São Caetano Resistência, no bairro que tem o mesmo nome.

Rever – Você organiza evento de rap na quadra de São Caetano, como é participar de outros eventos nas periferias de Salvador?

Bruno – A minha sensação é que o Rap evolui, toda vez que as pessoas que participam do rap entendem que a união real ela é necessária, e o que não pode morrer, uma vez que dentro da periferia continua e não podemos perder esse foco. E temos que sim que estar nos grandes shows, nos grandes palcos, nas super estruturas, ganhar bem para fazer isso, receber bem para fazer isso, cantar em um local bem pago, bem estruturado, e temos que também estruturar o nosso quintal, que é a periferia que é onde nossos jovens estão, nossa molecada estar, que eles vivam, sobrevivam e vivam para futuramente eles possam alcançar esses palcos, que é onde a gente vive mesmo, a revolução começa dentro da gente,  do meio de onde a gente tá. Para mim, esse evento é ótimo e tem uma simbologia muito grande que ele é continuidade de um outro irmão, Gardenal, que esteja em paz, e na cidade baixa é maravilhoso, rap nacional estamos juntos.

Rever – Fale um pouco do São Caetano Resistência

BrunoÉ um trabalho que é continuidade de algo já era feito por muitas pessoas, porque só nós damos continuidade a mais ou menos uns 10 anos, antes nós já existia, chega um momento que ele deu uma caída, e como venho daquela geração do rock, do rap, do reggae, eu recebi toda essa e a gente deu continuidade, e conseguimos como um imã, fazer que as coisas se unissem, e hoje é esse grande coletivo, não é só eu, seria injusto, tem muitas pessoas que trabalham ao redor, tem pessoas mais velhas e mais jovens que fazem parte do São Caetano Resistência, e temos pessoas que nos apoiam até mesmo fora do Brasil, que acreditam nesse projeto.

ReverComo você vê a cena atual do Rap de Salvador, grupos como Nois por Nois, Contenção 33, Ministério Clanmor, que são liderados por jovens.

BrunoEu me sinto orgulhoso, porque muitas coisas que são cantadas por esses grupos, são coisas que muita gente precisa ouvir, porque de forma geral eu também vejo na cena rap, muita boa energia, muito flow, muito talento, mas as vezes poucas ideias, pelo que a gente vê nas nossas convivências, e ter grupos que não esquecem desse compromisso, independente onde chegue, onde esteja, para nós é gratificante, a gente tenta seguir essa mesma linhagem.

Foto: João Vieira

Na 5ª Baixa em Alta o grupo Contenção 33 formado por Torre, High, Joe, Febre e DJ Belle é considerada uma das maiores revelações da cena local nos últimos anos, comemorou 2 anos de existência. Ouça aqui a mixtape Ruas Sujas do Contenção 33. Conversamos com dois integrantes da atual formação, DJ Belle e High e também com Dark MC, que recentemente saiu do grupo, e lançou sua carreira solo e está trabalhando com o coletivo Outra Fita, mas tem participado das comemorações.

Rever – Hoje o Contenção 33 vai comemorar nesse evento aqui na Baixa 2 anos, como vocês tem avaliado a trajetória do grupo nesses 2 anos?

High – A gente avalia que a nossa trajetória tem sido bem espetacular, a gente só teve uma perda de um membro que foi Dark, mas isso não empata em nada, que ele também fez essa caminhada com a gente e o grupo vai continuar mesmo. E eu acredito que o grupo tá bem, tem uma boa trajetória, graças a Deus tem iluminado muita coisa nesses 2 anos, e hoje a gente resolveu comemorar esses 2 anos do Contenção aqui nesse evento.

Rever – Nesses 2 anos vocês se surpreenderam positivamente, não esperavam todo esse reconhecimento?

High –  Não esparavamos não, eu me lembro até hoje, que um dia Dark falou que ele queria terminar uma música, “Madrugada fria” e quando ele acabou essa música foi um dia de sexta – feira santa, ele foi e publicou a música no facebook, aí estourou e em seguida a gente meteu uma música do Contenção com a maioria dos membros, depois disso o Contenção ficou falado, mas não esperávamos.

Rever – O que o Contenção 33 tem pensado para o futuro?

High – Eu penso que junto com o Nois por Nois gravarmos uma mixtape juntos, é tipo uma união, construir uma trajetória juntos, para mostrar que a gente é unido,a nossa trajetória isso.

Rever – Como é viver do rap em Salvador, é difícil?

High – Eu acho difícil, porque quando chega alguém de fora para cá, aí as pessoas pagam 80 R$, 40R$, quando é um rap daqui, o pessoal não paga esse valor, tipo, discrimina, e a gente fica esperando para vê qual é a reação do público, mas não tem essa valorização no mesmo nível, apesar de que hoje o fluxo de rap de Salvador tá bem, mas só a questão do cachê que eu acho que não se paga tão bem assim não.

Rever – Evento de rap na periferia é o que vocês mais se identificam?

High – É o que nós mais gosta, ainda mais esse tipo de evento em comunidade, para que as pessoas que pensam em entrar no crime, veja a gente cantando, que veja na gente uma inspiração para cantar rap, e vai que um dia o rap tira essa pessoa do crime? Ela pensa em escrever e não entrar no crime, eu penso assim, se a Igreja salva, o rap também salva a vida e a alma, eu vejo assim.

Rever – DJ Belle, você poderia falar para gente um pouco da sua trajetória no rap.

DJ BelleDesde pequena eu gostava de rap, mas a minha família não gostava que eu participava muito dos eventos, de assistir, por acharem que rap era coisa de ladrão e etc, aí com a influência dos meus primos eles, que me influenciaram a ouvir rap, Racionais, Sabotage e Facção Central. Há 3 anos atrás eu conheci Jarrão, e eu fiz um curso com ele para virar DJ, porque eu focava muito nos caras que tocava nos toca disco, e eu queria saber como fazia aquelas manobras no toca – disco e tal. E depois disso eu me formei com Jarrão e fui para frente.

Rever – Como foi a sua entrada no grupo Contenção 33?

DJ BelleEu toquei primeiro no grupo Nobla, que era composto por Janaína Nobla e eu, aí eu já conhecia os meninos dos eventos, que me viram tocando, e me convidaram para participar, Dark também era do Contenção, que era quem eu tinha mais contato, Torre também, eles me chamaram.

Rever – Como é ser uma DJ mulher no grupo de rap masculino, no ambiente de rap que ainda é masculino, sente pressão, sente cobrança por ser mulher?

DJ Belle – Em si, e geral, o rap ele ainda é muito machista, muito masculino, e a gente vai conquistando espaço cada vez mais, derrubando as portas, chegando de voadora mesmo. No Contenção os meninos me abraçaram, na verdade todo lugar que eu chego os meninos me abraçam, respeito bastante, não só por ser mulher, também por ser lésbica, mas aí tá mudando aos poucos, falta muita coisa para poder  chegar lá. A gente tá conseguindo mudar os poucos essa cena que rap é só coisa de homem.

Rever – Hoje você é visto como um destaque, um MC revelação no Rap nacional, como você recebe esse reconhecimento do público?

Dark Eu fico grato, faz jus a caminhada, a gente vem caminhado, mas graças a Deus ele me deu o dom para ser pelos meus, e graças a Deus os meus estão reconhecendo isso.

Rever – O Contenção 33 no evento está comemorando 2 anos do seu aniversário, como você analisa essa trajetória do grupo, essa emergência tão rápida, você achava que não iam tão longe como chegou em pouco tempo?

Dark MCA gente sempre teve um foco, a gente não chegou ainda onde queremos, mas estamos caminhando e realmente foi surpreendente, mas como já disse, Deus ajuda quem trabalha, a gente carregou caixa nas costas. E graças a Deus tem vindo o reconhecimento do trabalho, e o negócio é esse, continuar caminhando, mantendo nossas ideias, nossa ideologia e hoje é uma data comemorativa, que na verdade a data mesmo é na sexta – feira Santa,  que foi quando foi lançada a música “Madrugada Fria” e a gente resolveu firmar o grupo, e hoje também vai ser meu primeiro show solo, mas independente disso eu vou fazer o som com os caras, porque eu e o Contenção estamos fechados na mesma caminhada.

Rever -Você acabou de lançar sua carreira solo, lançou um clipe da música ‘Aponte-me’ (veja aqui) e também a música Cheiro de maldade, com a participação de James Lincoln e Digs (ouça aqui), o que o público pode esperar de Dark na carreira solo?

Dark MC – Pode esperar de mim muita Drew music, muito trap,  bom bep, muita realidade, sem medo de dar nome aos bois, vai chamar tudo pelo nome, se é vaca a gente vai chamar de vaca, se é boi vamos chamar de boi, tudo vai ser nominado, e vou fazer o que tiver que ser feito, a gente vai fazer o rap da maneira que ele foi criado para ser feito, sem mascarar nada.

Foto: João Vieira

E por fim, conversamos com Rosivaldo, cantor do Ministério Clanmor, um grupo de Rap também da Cidade Baixa, que faz um rap cristão, sem esquecer o engajamento político. Ouça o grupo aqui

Rever – Qual é a trajetória histórica do Ministério Clanmor no Rap?

Rosivaldo: O Ministério Clanmor começou e 2011, com MC Gardenal, que hoje está falecido, começou com a proposta de trazer palavra de Deus para dentro da comunidade, apesar dele está morto, a gente continua fazendo o trabalho, já passou por duas formações, só que quem continua hoje sou eu, e Paulo

Rever – Nas letras do Ministério Clanmor  é feita uma mistura de rap com mensagem cristã, como é a recepção do público com as músicas de vocês?

Rosivaldo – A gente nunca teve reclamação com isso aí não, porque na verdade nós somos cristão, nós não somos gospel, porque gospel virou mercado, e tem o mercado gospel, onde fulano de tal é cantor gospel, nós somos um grupo de rap como outro qualquer, só que nós pregamos o evangelho

Rever – É possível unir a palavra cristã com a crítica social do rap?

Rosivaldo – Sim, porque independente de religião, nós acreditamos na verdade, e a verdade tem que ser dita, nós não tapamos o sol com a peneira, em qualquer lugar que a gente for, as coisas que tem que ser ditas a gente fala mesmo.

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