Exibição do documentário Salcity: O Rap em debate

Fotos: Isabele Bispo /Rafael Ramos /João Vieira

por Henrique Oliveira

No dia 07 de Julho, uma sexta – feira a tarde, o auditório Jurandir Oliveira do Departamento de Educação da UNEB – Universidade Estadual da Bahia –  no campus do Cabula, recebeu a exibição gratuita do documentário “Salcity”, juntamente com uma roda de conversa, seguida de um pocket show.

A Revista Rever esteve presente fazendo uma cobertura do evento, e realizou uma mini – entrevista com Dark MC e Cintia Savoli. Confiram aí.

O documentário foi produzido em Setembro de 2016 por Bruno Zambelli, Carlos do Complexo, Douglas da Nóbrega, Leandro Lima e Rodrigo Caetano, e une relatos de várias gerações do Rap de Salvador, tendo como objetivo compreender o impacto da música “Sulicídio” de Baco Exu do Blues e Diomedes Chinaski, e também abordar temas diretamente relacionados com o Rap Soterapolitano, como a questão do Racismo e da violência, por exemplos.

A gravação contou participação dos grupos e mc’s como: Contenção 33, Baco Exu do Blues, DoisÁs, Opanijé, Mobbiu, Cintia Savoli, Galf e Diego 157.

Um dos produtores, Douglas da Nóbrega declarou que faltavam registros e memórias da periferia para as próximas gerações, e esse foi o motivo inicial para a produção do documentário.

A mesa de debate foi composta por Douglas, que é um dos produtores do documentário, e por membros do Contenção 33, Nois por Nois, Cíntia Savoli, Dark MC, Mobbiu, Opanijé e mediada por Larissa Almeida.

A exibição do documentário Salcity foi um marco no cenário do Rap de Salvador, pois permitiu unir grupos e Mcs, para um debate sobre o Rap com o seu público, oportunidade ímpar. Além de conseguir unir gerações diferentes do movimento Hip Hop, o grupo Opanijé, quem vem fazendo rap desde os anos 90, com o Contenção 33, Nois por Nois e Dark MC, grupos que são referências da atualidade no cenário local.

Após a exibição do documentário, foi aberta a roda de conversa sobre o conteúdo com a participação da plateia realizando comentários e perguntas.

Auditório lotado (Fotos: Isabele Bispo /Rafael Ramos /João Vieira)

Os debates giraram em torno do preconceito com o Rap nordestino, que é tema da música “Sulicídio” que inspirou a produção do documentário, e o que foi pontuado pelos membros da mesa, que apesar do Rap do eixo Rio e São Paulo serem referência nacionalmente, não significa que eles estejam estáveis no mercado musical, pois também existem barreiras imposta pela indústria cultural brasileira. E foi levantado por Mobbiu que grande parte dos artistas nordestinos que são reconhecidos nacionalmente foram morar e produzir na região Sudeste, porque é nessa região que está concentrada a mídia e o centro de difusão da cultura brasileira.

E uma das alternativas apontadas por Mobbiu para a inserção do Rap no mercado – ouça aqui o seu trabalho chamado “Mixtape Por Enquanto É Isto” de DJ Índio & Mobbiu – foi o exemplo da entrevista “Uma conversa com o Racionais” dada pelo grupo Racionais MC’s promovida pelo festival Red Bull Music Academy, em que os integrantes falaram sobre os 20 anos do álbum ‘Sobrevivendo no inferno’ e 30 anos de carreira. E que isso pode ser um evento que além de trazer rendimentos financeiros aos grupos é uma forma de registro histórico.

Um ponto alto do debate foi quando os integrantes do Opanijé que estão fazendo Rap desde 1994, levantaram a discussão de que nesse período o Rap em Salvador não tinha ainda um público definido, no início o mesmo público do Rock, do Hard Core, Punk, Reggae, era o mesmo que transitava nos eventos de Rap.

E que o Rap hoje enfrenta menos preconceito do que enfrentava nesse período, tendo até possibilidade de inserção na mídia. Mas foi levantado outro ponto de discussão sobre isso, qual o tipo de Rap que está ganhando espaço na TV? É o Rap engajado politicamente, de denúncia, que utiliza suas letras como ferramenta de protesto social e conscientização? E que grande parte do marcador social do preconceito contra o Rap tem a ver com sua relação com a cultura negra, o Racismo é um poderoso instrumento de criminalização do estilo musical.

Mas um ponto foi comum entre todos, tanto a “velha escola”, como a “nova escola” concordaram que viver de Rap é muito difícil, que o retorno financeiro tem sido muito baixo. O reconhecimento do público tem até acontecido, mas não tem sido suficiente para garantir a sustentabilidade dos grupos e mc’s apenas de música.

E sobre isso Jhomp, um dos mc’s do grupo Nois por Nois – Ouça aqui o álbum do grupo “Qual é o seu circo?” – falou como o Rap mesmo não dando retorno financeiro, ele se mantém firme pelo compromisso político em torno do Rap de protesto, de passar a mensagem. E que muitas vezes os Pais chegam a questionar sobre o dinheiro dos eventos.

Cíntia Savoli foi a única mc mulher que participou da gravação do documentário, e consequentemente foi a única mulher também a compor a mesa de debate, e por isso não pode faltar uma discussão sobre Rap e a questão de gênero.

Cíntia Savoli disse o quanto ainda é difícil uma mulher fazer Rap, que as mulheres no Rap ainda lutam para serem ouvidas, pois pelo simples fato de ser uma mulher. E que mesmo com 20 anos de carreira no Rap, e com o crescimento do número de mulheres no estilo, as mulheres estão buscando a aceitação, de um público que ainda é predominantemente masculino. Cintia Savoli é uma das fundadoras do Rima Mina, um coletivo criado em 2015 com objetivo de justamente dar espaço e suporte para as mulheres dentro do Rap.

E logo após o fim do debate, na quadra da UNEB aconteceu o pocket show de Opanijé, Contenção 33, Cintia Savoli, Dark MC, Coletivo Roupa Suja e batalha de MC.

Agora leiam uma rápida entrevista que fizemos com Dark MC, que tá com música nova na pista e vai participar de uma gravação do Rapbox em São Paulo, e Cintia Savoli que vai agora em Agosto iniciar uma turnê pelo Nordeste com Lívia Cruz.

Dark Mc (Fotos: Isabele Bispo /Rafael Ramos /João Vieira)

Revista Rever: Você lançou recentemente a música “Pretos no topo” –  ouça aqui – onde você fala desde o Racismo no sistema educacional, as ruas, à crítica ao momento político se referindo a Temer e sua vontade de querer ver os “Pretos no topo”. O que representa essa música?

Dark MC: Essa música resume todo um trabalho, na verdade eu quis puxar essa parada desde o princípio que fala sobre o Racismo, mas falar de Racismo vai além de falar sobre abordagem policial, existem outras paradas que movimentam o maquinário genocida que foge ao nosso conhecimento, aí foi preciso que fosse alertado, como está vindo em outras faixas puxando a orelha também no mesmo tema, mas abordando outros assuntos, como eu mesmo falo da ausência de algumas informações da própria Escola. A própria Escola filtra certas informações, como dizem que nos viemos do primata, mas não fala que o primeiro ser a ficar ereto foi na África e isso é um símbolo de evolução, e quando ele deixa de andar curvado para se projetar para frente ele ganha mais agilidade. E isso não é passado, e vale a pena ser ressaltado, mas por que não foi passado, foi por que ele fez isso na África ou por que a história esqueceu de avisar isso?

Rever: Você está organizando um evento no dia 16 de Julho para arrecadar fundos para a gravação do Rapbox, como foi esse convite? E como você avalia estar indo para São Paulo fazer a gravação, é um marco na sua carreira que estar ganhando uma projeção mais nacional?

Dark MC: Sim, isso vai dar mais uma projeção nacional, vai ser bem gratificante para mim, consequência também do trabalho ser bem recebido. E essa ponte quem fez foi a Cintia Savoli, ela já foi para lá, a gente já tinha feito leis das quadradas, ela falou sobre mim com o Léo, mostrou umas faixas e ele gostou, foi no meu canal e comentou também sobre o Contenção 33, aí depois lançamos um videoclipe – assista aqui o clipe da música Lei das quadradas – junto com Cintia que foi lançado lá, e foi a partir disso que criou o interesse de eu ir lá. E ele me chamou e eu estou indo fazer uns dois trabalhos, com os caras do “Casa 1”e eu espero em Deus que dê tudo certo.

E o evento vai ser dia 16 na “Casa Preta” justamente para arrecadar fundos para isso. E eu vou para o Rapbox não para me moldar como o cenário nacional é visto, para fazer o que o cenário nacional faz, eu vou para lá e eu vou fazer a mesma coisa que eu já faço aqui, que é protesto!

Cintia Savoli (Fotos: Isabele Bispo /Rafael Ramos /João Vieira)

Rever: Qual é a importância de um evento como o Salcity, onde os grupos e os mc’s de Rap discutiram com o seu público o que é produzir Rap e as questões sociais que são trazidas pelo documentário?

Cintia Savoli: Eu achei super legal, primeiro porque eu vejo que o movimento Hip Hop está ocupando outros espaços, ele vem da rua e ele tem se expandido e eu acho isso muito da hora, é importante que a gente sente aqui na academia também para falar das nossas vivências. É importante vê também que essa galera está ocupando as cadeiras da academia, é importante para caramba. O que eu achei mais “foda” de hoje é que tinham duas gerações do movimento Hip Hop ali debatendo, a juventude que chegou na cena agora, cheio de sede, de vontade de fazer justiça com o Rap, aquela parada massa que é a essência desde sempre e também uma galera que já tá numa caminhada há muito tempo, que já tem uma visão um pouco mais madura das questões política, mercadológica e foi muito enriquecedor vê a visão de Mobbiu e Opanijé que já estão um tempo no Rap, e eu também tenho a idade deles no movimento e ainda sou mulher. Foi muito bom vê esse ponto de equilíbrio ser formatado.

Rever: Você vai iniciar uma turnê aqui na região Nordeste com Lívia Cruz – ouça aqui “Efeito borboleta” a chyper de Cintia, Livia Cruz e outras mc’s – que se chama “Eu tava lá”, – ouça aqui a música de Lívia Cruz – o nome da turnê tem a ver, e faz referência a música que foi uma resposta a música do Costa Gold. Tem relação também com essa crítica que vocês fazem de que não são “Rap feminino”, mas que vocês fazem Rap, também pelo fato de vocês serem mulheres e estarem disputando e ganhando espaço?

Cintia Savoli: Sim, tem tudo a ver, na verdade fomos convidadas para essa turnê no Nordeste, e Lívia é do Nordeste só que de Recife, eu não sou nordestina, mas moro aqui há muitos anos, então a gente achou muito legal e super pertinente, e Vandal recebeu um convite nosso porque além de ser nosso amigo é uma pessoa que a gente admira para caramba como mc. E o nome “Eu tava lá” faz alusão sim a essa música que ela criou falando que as mulheres que estão lá desde o princípio são invisibilizadas até hoje, porque Livia Cruz tem 15 anos de carreira sólida no Rap, e aí quando os caras vão falar dos antigos, uma música de quem tava lá, e a mulheres não aparecem, realmente a intenção foi essa. E a questão da turnê tem a ver com isso, com fato de sermos duas mulheres e duas mulheres antigas no Rap, e colocamos o nome também para que as pessoas que forem aos shows possam dizer eu tava lá.

Rever: Você disse que vai lançar um álbum novo, seu primeiro álbum é de 2015 o “Bruta flor” – ouça aqui –  vai sair ainda esse ano?

Cintia Savoli: Se Deus quiser, estou trabalhando muito para isso, mas não é fácil, preciso de dinheiro para construir um cd, precisa de muitas ideias, de um momento de muita reflexão e cuidado, você precisa compor, gravar um cd é um processo artístico de fato. No cd vão ter participações que são surpresas é porque o meu primeiro álbum “Bruta flor” foi quase de participação, na época eu estava chegando em Salvador e as pessoas estavam me conhecendo, e cheio de pessoas querendo me fortalecer e eu achei que era justo também abraço – los nesse sentido, mostrar o meu carinho e minha gratidão por eles que fortaleceram. Todas as pessoas que estão no meu cd são pessoas que me ajudaram muito aí eu quis fazer essa homenagem a eles. Mas agora em 2017 vai ser um cd bem a minha a cara mesmo, são 7 músicas minhas e 3 participações.

 

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