Slam das Minas Bahia: Poesia negra, Periférica e Feminina

 

Da esquerda para a direita: Dricca Silva, Ludmila Laísa, Fabiana Lima e Jaqueline Nascimento / Fotografia: Tamires Allmeida

“Quando as vidas negras realmente começarem a ter importância, isso significará que todas as vidas têm importância. E podemos também dizer especificamente que, quando as vidas das mulheres negras importam, então o mundo será transformado e teremos a certeza de que todas as vidas importam”
(Angela Davis, Conferência na UFBA 25/07/2017)

*por Henrique Oliveira

Desde o mês de Março o calendário dos eventos culturais de Salvador abriu espaço para o Slam das Minas, uma batalha de poesia feminina que acontece na praça do Conjunto ACM, no Cabula, organizado por quatro jovens mulheres negras: Dricca Silva, poetisa, artista de rua, ativista cultural, estudante do Bacharelado Interdisciplinar em Artes, Fabiana Lima, poetisa, MC, artista de rua, produtora e ativista cultural, estudante de enfermagem, Jaqueline Nascimento, poetisa, cantora, compositora, produtora cultural e estudante de Humanidades e Ludmila Laísa,  atriz, grafiteira, poetisa, professora de dança, artista de rua e estudante do Bacharelado Interdisciplinar em Artes.

A Revista Rever bateu um papo com as organizadoras do evento, na busca de evidenciar o protagonismo das mulheres negras na cena de poesia de Salvador, discutindo também as questões que atravessam a condição feminina em nossa sociedade. Na oportunidade, apenas Ludmila Laísa que por questões pessoais não pode participar.

Revista Rever: Como vocês 4 se conheceram?

A amizade é de longa data. Fabiana e Drica se conhecem na base de uns cinco anos. Já Jaqueline, conheceu Fabiana e Drica quando estudaram na Stive Biko – as 3 estudaram juntas no mesmo pré-vestibular. Fizemos o mesmo cursinho. Fabiana um ano antes – mas ela já fazia parte do ‘Resistência Poética’ com Drica. Drica era da turma de Jaqueline. Através de Drica, Jaqueline conheceu o grupo de poesia Resistência Poética e, consequentemente, também Fabiana. Ludmilla a gente conheceu há pouco tempo, na Capoeira. Nos conhecemos tem uns cinco anos, mais ou menos. E também é por causa do meio em que a gente vive, nos rolês culturais de Salvador, que a gente pensa que é imenso, mas é um ovinho. A gente acaba se batendo de vista e tal.

Revista Rever: Por quais motivos vocês resolveram organizar o Slam das Minas?

Depois que Fabiana foi pra São Paulo, em 2016, e voltar de lá, ela percebeu que aqui em Salvador a cena de poesia de mulheres era muito fraca. Nós percebemos isso. Em São Paulo tem o Slam das Minas. Tem em Brasília também, que é de onde surge o grupo. E aí Fabiana se comunicou com essas organizadoras, pediu para trazer o nome para cá e usar o nome Slam das Minas. Aí surgiu, Fabiana fez o convite da parceria com Drica e as meninas, e em março resolvemos organizar o Slam das Minas aqui em Salvador. Só tinha Fabiana participando dos Slams praticamente. Era um espaço muito masculino, em que as mulheres não se sentiam à vontade de participar, e quando ela trouxe a ideia de trazer o Slam, para mim, Jaqueline, foi muito bem vindo. É massa poder construir esse espaço, porque a gente percebe que muitas mulheres chegam, o nosso público é grande, tanto de pessoas para assistir como de mulher para competir. Percebemos que existe, sim, uma cena de mulheres na poesia. Mas que não participavam dos espaços, talvez por não se sentirem confortável o suficiente. Hoje conseguimos perceber que, em resposta a isso, há uma maior participação das mulheres nas outras competições de poesia, para além da exclusiva feminina. E também o que é escrito por essas mulheres que vão competir, elas fazem um recorte de mulher, de lésbica na sociedade e isso é importante. Em vários saraus que nós íamos isso não rolava, as meninas falavam enquanto periféricas, enquanto preta, e no Slam as meninas pautam, sou mulher: sou preta, vim de tal lugar, sou lésbica, sou bi, tipo, isso é muito importante, achamos que elas se sentem seguras de falar sobre essas coisas no Slam das Minas.

Revista Rever: O Slam das Minas acontece na praça do Conjunto ACM no Cabula, o local é muito próximo ao cenário da chacina ocorrida em 2015, no mesmo bairro. Onde 12 jovens negros foram executados por policiais militares. A escolha do local tem relação política com este acontecimento ou foi por um acaso?

Não, a gente nunca pensou nessa questão da chacina que aconteceu em 2015, até porque, na época, parte da organização do Slam era do Resistência Poética – que estava em outro momento de ativismo, numa outra perspectiva. Mas a gente estava procurando lugares pelo Cabula para realizar o Slam das Minas. Por ser periférico, por se aproximar da região que a gente mora, por ser um espaço que a gente consegue ver o acesso fácil para o público chegar para a galera da comunidade. Inclusive, a gente tem meninas que durante a apresentação de poesia trouxeram a chacina do Cabula, para a gente perceber que estamos ali naquele espaço, e que a mensagem, de certa forma, chega na comunidade. Mensagens que foram feitas sobre isso, mas não fizemos ali pensando no fato. Mas pensando também que os eventos culturais de Salvador são no centro da cidade, e a gente quis trazer a arte para periferia. Um dos locais foi a entrada do Condomínio Arvoredo, no bairro Beiru- Tancredo Neves, mas a estrutura que a praça do Conjunto ACM oferece é melhor e também tem as regiões de fácil acesso. A ideia é descentralizar a cultura para a periferia, para a nossa comunidade, o nosso quilombo Cabula.

III Edição do Slam das Minas/ Fotografia: Tamires Allmeida

Revista Rever: Como é organizar um evento cultural na periferia de Salvador, que é protagonizado por mulheres, sobretudo por mulheres negras? Existe alguma dificuldade, em função da questão de gênero e racial?

São várias coisas que vão ocorrendo. Tendo uma visão dessas cinco edições que já ocorreram dessa organização. Por exemplo, a gente não teve muita dificuldade em fechar parceria com a Associação de Moradores do Conjunto ACM, mas no decorrer desses meses encontramos dificuldades porque nós acreditamos que eles não nos veem como capacitados para realizar qualquer tipo de evento cultural.  Quando a gente começa a realizar e fazer sucesso, eles começam a criar barreiras e fechar as portas nessas parcerias que foram oferecidas. Colocam dificuldades para que a gente desista, enquanto mulher negra, porque acreditamos que se fosse homens seria muito mais fácil chegar as coisas e ter as parcerias. Então, no primeiro momento a gente não encontrou dificuldade, porque a gente se organizou, teve essas parcerias, no entanto, durante o decorrer a gente encontrou barreiras. Por sermos mulheres pretas. Eles perceberam como o Slam das Minas, as mulheres pretas estavam tomando a cena, e a gente não sabe se isso incomodou algumas pessoas, porque falar que aquela região que a gente ocupa é uma praça do Conjunto ACM, tem militares que moram naqueles prédios, e falamos de várias coisas que nós enfrentamos que foram absurdas. Vieram nos dizer que tinham meninas se beijando no espaço, e como é que a gente vai lidar com isso? E a gente sempre correndo atrás, como sujeiras, jogamos caixa e conscientizamos a galera. E fazer o Slam das Minas não é fácil. O primeiro foi muito massa, mas cada vez que passa a gente vai encontrando mais coisas, principalmente agora que as pessoas estão achando que a gente está com dinheiro, só que a gente não tem dinheiro. Rola muita coisa e prosseguimos. Pelo fato de expressarmos certos tipos de palavras, incomoda a própria comunidade, os homens da própria comunidade e até os próprios homens do movimento em que nós estamos inclusas – os quais a gente acredita que tenham bom senso. Muitas coisas que não ocorrem a gente poder falar buceta e desgraça, vários tipos de coisas nas bocas de mulheres, coisas pautadas por mulheres negras – que são consideradas a escória da sociedade.

Revista Rever: Qual avaliação que vocês fazem do Slam das Minas até agora?

Nós estamos muito felizes por estarmos construindo o Slam das Minas, porque é um evento de muito sucesso, porque a gente conseguiu fazer o que queríamos – que era chamar as mulheres da cena de Salvador para recitar suas poesias. Nesse espaço tem mulheres das mais jovens às mais velhas e elas não eram vistas recitando em outros espaços, com autonomia e incentivo, com coragem para chegar no Slam das Minas e dar a ideia, ser a própria voz das vivências. E fora que apesar dos vários empecilhos que encontramos, têm pessoas da comunidade que participam, a gente vê crianças de 10 e 11 anos de idade, da comunidade ou de fora dela, recitando poesia autoral. Achamos que está dando certo. A gente faz isso de forma autônoma e independente, não ganhamos dinheiro algum, é por amor mesmo. O que recebemos em troca é a felicidade de vermos que o nosso propósito está acontecendo. Quando acaba o Slam, é aquela emoção toda, de várias mulheres recitando, a gente não tem [dinheiro] de transporte para voltar para casa. Percebemos que se fosse uma produção masculina esse apoio chegaria com muito mais força e mais estrutura. E uma avaliação de felicidade, e muito boa, porque a gente tem um público de mais de 60 mulheres, que estavam reclusas no seu mundo, na sua comunidade. Tivemos uma explosão de mulheres e de grupo. O Slam das Minas é essa oportunidade, é um espaço de acolhimento onde as mulheres LGBT se sentem à vontade de estar naquele espaço, de não ser reprimida. E a gente não vai reprimir, se a comunidade quiser que a gente faça isso, não vai ocorrer. O Slam é um espaço para mulheres e homens que queiram ir e que se sintam bem.

Revista Rever: Vocês foram convidadas para fazer abertura do show da banda Ifá e Flora Mattos, além da conferência de Angela Davis, na reitoria da UFBA. Como foi participar desses eventos?

Quando nós recebemos o convite para fazer a abertura do show de Ifá e Flora Mattos foi bem feliz. Foi uma parceria que fizemos com o Conexões Sonoras. Eles queriam divulgar o evento através da nossa página, e a gente fez uma troca, nós sorteamos ingressos na página, e DJ Nai Sena, que fecha parceria com a gente, tocou na abertura do show de Flora Mattos e Ifá. Foi ela quem sugeriu para a produção que acrescentasse o Slam das Minas na apresentação dela enquanto DJ, que a gente fizesse uma intervenção poética. Nós topamos, foi massa, a proposta chegou para gente de uma forma muito boa, foi algo bem diferente do que somos acostumadas a fazer, porque era espaço de um show, o que, teoricamente, não é voltado para a poesia. Apesar das pessoas acharem que nós estávamos recebendo dinheiro, porque nos apresentamos, esse convite chegou para gente assim: ‘Eaí, galera, vocês vêm para o show, querem fazer uma intervenção poética?’ Vamos lá, a gente se apresentou e foi uma experiência incrível. Foi diferente se apresentar no palco, microfone, não é o formato que nós estamos acostumadas a fazer. Apesar de ter dado uma visibilidade pra gente, não conseguimos, ainda, sobreviver trampando disso. Essa intervenção foi massa enquanto experiência, enquanto poder participar do show, mas, por exemplo, a gente não recebeu um cachê. Mas a parceria com o Conexões Sonoras foi incrível.

E sobre a conferência com Angela Davis, estávamos em parceria com o Instituto Odara, Julho das Pretas, e fomos convidadas pelo Instituto Odara para fazer a intervenção. Ficamos extremamente felizes, com certeza foi um momento histórico em nossas vidas. Embora tenhamos encontrado algumas dificuldades no dia da apresentação. Porque não era só um evento do Instituto Odara, era ali, na reitoria da UFBA, que a gente sabe que é um espaço branco. Teve transmissão ao vivo pela televisão, e nós sabemos que a nossa poesia, pelo fato de sermos mulheres negras falando, e por muitas palavras ainda serem tabus em nossas bocas, em espaços fechados e com transmissão da TV. Tentaram dificultar a nossa apresentação. Em alguns momentos, ficamos com receio de não nos apresentarmos. Não por causa do Odara ou por Angela Davis, mas pela construção do espaço, pelo que significava a nossa presença. Peitamos seguranças, por exemplo, em outro momento teve intervenção da mãe de Jaqueline e foi muito emocionante, porque geralmente a nossa arte é marginalizada de forma geral, e perceber que aquilo estava sendo valorizado, e como foi valorizado depois da nossa apresentação…  Porque antes da apresentação foi quase frustrante, mas foi um momento histórico. Existiu uma poda, com pedidos de cuidado para com o que nós iríamos falar. Mas não ficamos preocupadas com o que iríamos dizer, porque a gente quer passar nossa mensagem e ponto.

Slam das Minas na Conferência de Angela Davis na UFBA/ fotografia: Correio da Bahia

Revista Rever: Fabiana Lima, você foi a segunda colocada no Slam BR no ano passado, fale um pouco de sua trajetória como poetisa e a disputa no Slam nacional.

Minha trajetória na poesia tem cerca de quatro a cinco anos, eu já escrevia algumas poesias. Aí conheci o Sarau da Onça, um sarau de poesia periférica. Criamos o grupo Resistência Poética, que é composto por Drica Silva, Fabiana Lima, Lucas Silva, Negreiros e Rilton Julis – que também são poetas da cena – e a gente foi construindo um tipo de poesia visceral, que peitasse essas ações de genocídio. Nós viemos construindo esse tipo de poesia em Salvador e fomos nos destacando, e mesmo dentro do coletivo, cada um tem sua personalidade, tem esse destaque. E venho com essa característica de peitar essas questões da solidão da mulher preta, do feminicídio e vai se construindo o espaço. E participar do Slam BR… Aqui em Salvador teve uma sessão de Slams, e eu fui campeã do Slam da Onça e fui representar. E chegando em São Paulo

 foi uma experiência muito boa, porque a diversidade que tem dentro do Slam nacional que é a poesia que vem de todo o Brasil. Mesmo assim, encontrei dificuldade por ser uma mulher negra e por causa da xenofobia. Acredito que essa hegemonia sulista existe até dentro da própria poesia. Foi assustador, mas também foi a primeira vez que uma representante do Nordeste competiu no Slam BR e chegou à semi-final. Nós empatamos duas vezes – veja aqui a participação de Fabiana no Slam BR –. Foi muito importante a gente entender, e se colocar no espaço, trazendo uma poesia marginal que não é canônica, e dizer que estamos dentro disso, e que a nossa voz ela é ecoada em qualquer canto do Brasil, seja aqui no Cabula ou lá em São Paulo na Avenida Paulista – onde ocorreu o Slam, em que o público era majoritariamente branco, pra dizer que a mulher negra sofre vários tipos de violência na sociedade. Uma poesia com uma linguagem que a branquitude, principalmente de São Paulo, o centro do racismo, não compreende. E quando voltei para Salvador, percebi que mesmo sem querer a gente se torna representatividade porque outras pessoas passam também a almejar o Slam BR e eu abrir as portas. E entender que quando voltarmos para o Slam BR, eles não vão nos ver como nada, porque eles só ficaram sabendo que a Bahia estava na competição e Fabiana Lima estava lá, quando eu abri a boca, porque enquanto eu estive de boca fechada eu não era nada. Os comentários eram: ‘Poxa, eu não sabia que você era tão boa assim’. Você compreender a xenofobia, sabe, que já tinha cartas marcadas de quem eram os favoritos. Os de Minas Gerais, de São Paulo e do Rio de Janeiro, não do Nordeste. Eu não tenho nenhum tipo de pretensão em ser referência. São as nossas dores, as dores que eu sinto, as dores que eu vejo os irmãos passarem, a vontade é mesmo de expressar o que sentimos. Eu não me construo sozinha, tem vários tipos de referências. Tenho a minha avó, que foi guerreira, eu tenho a minha mãe, Iranildes, Drica Silva, as meninas do Slam, como Jaqueline e Ludmila, vários tipos de referência que estão dentro desse parâmetro que a gente se constrói. Não estou sozinha. Tem minha avó, que é a maior referência na minha vida enquanto mulher nessa sociedade.

Revista Rever: Aqui em Salvador acontecem o Sarau da Onça, o Sarau do JACA – Juventude Ativista de Cajazeiras – e o Slam da Raça, que também são espaços de poesia. Qual a relação de vocês com esses eventos?

O Sarau da Onça tem uma grande influência, é um tipo de sarau que ocorre numa metodologia diferente, que se aproxima mais da juventude negra. E o Sarau do JACA é mais de quilombo mesmo, dentro dessa aproximação e representação enquanto ancestralidade. O Sarau da Onça para mim, Fabiana, tem mais essa aproximação com o jovem da periferia, enquanto linguagem. O Sarau do JACA tem uma visão mais de aquilombamento de união de povos. E o Slam da Raça é a periferia, porque ele acontece dentro das quebradas da Soronha de Itapuã, então é de grande importância para a representatividade enquanto gueto, de mandar mensagem para os pivetes que estão na biqueira, que estão ali transitando, que são do movimento, escutarem aquelas poesias e se tocarem. Então são representações distintas, mas muito importantes todas elas. E na nossa banca de juradas nós trouxemos pessoas que fazem partes desses saraus. A gente trouxe Gisele Soares, a Deusa do Ébano, que cola no Sarau da Raça, trouxemos Gleise do Sarau da Onça, Bethânia que é do Sarau do JACA. Temos essa parceria porque são locais que a gente participa, que a gente valoriza, é mais um processo de troca mesmo.

V Edição do Slam das Minas / Fotografia: Tamires Allmeida

Revista Rever: No Brasil, os números da violência contra as mulheres são assustadores.  Dentro desses números, a violência contra as negras tem aumentado, são as mulheres negras também as maiores vitimas letais em ações policiais. Afetadas pelo desemprego, pelo menor salário e encarceramento. O Slam das Minas é também um espaço de fortalecimento das mulheres?

Sim, a gente traz essa proposta de fortalecer as mulheres negras nesse ambiente, abrimos um espaço para as expositoras em nossos eventos. Para que as mulheres empreendem, que vendem turbantes, que são trancistas, que vendem roupas. Na nossa última edição, que está prevista, se tudo der certo, para acontecer na primeira semana de outubro, vamos fazer oficinas de estética afro, teatro, artesanato, de escrita criativa…  Um espaço para gente inserir as mulheres nas artes e de uma forma que elas sejam autônomas, que consigam ganhar o próprio dinheiro, desenvolvendo seus próprios trabalhos. E sobre os números enormes de feminicídios, até a oficina de escrita criativa que a gente vai oferecer, as meninas nas suas poesias trazem muito isso, então o nosso espaço é para falar e denunciar isso, falam sobre a violência sofrida. Tem um número muito grande de mulheres que foram assassinadas e que tinham alguma proximidade com a gente, como foi o caso de Ellen Moreira [assassinada pelo então namorado na Ilha de Vera Cruz]. São coisas que pautadas nos nossos eventos, nós falamos sobre isso e as poetizas falam. Além de criarmos esse espaço do afro empreendedorismo feminino. E que a saída para a população negra, para as nossas comunidades, está entre nós mesmos. Então, abrir o espaço para que o próprio público, que ela consuma coisa nossa, que nós produzimos, e que não o opressor, não o colonizador, não as grandes multinacionais. Que a gente tenha essa visão e essa consciência. O que a gente produz, a gente pode consumir entre nós mesmo. É muito importante para que a gente encontre esse fortalecimento. E o feminicídio, a gente traz na conferência de Angela Davis uma apresentação que pautou essa questão. De ser impactado enquanto mulheres que são mortas, e tem que compreender que os nossos companheiros negros, que os homens negros que são violentadores dentro das nossas próprias comunidades, compreendam que eles estão nos matando, e não vamos mais nos calar, não vamos aceitar certos tipos de violência, que o próprio homem negro exerce dentro das comunidades. Ele tem que compreender que ele é colocado na situação onde acredita que tem um falso privilégio e acaba pisando em cima de nós, por acreditar nisso. E dizer  que uma estatística muito horrenda, você ter 54% de mulheres pretas mortas pelo feminicídio. É assustador, e quando você vai ver que quem está matando essas mulheres são os homens negros das próprias comunidades. É ainda mais assustador como esse sistema funciona perversamente, fazendo com que destruamos as nossas próprias comunidades. E compreender que os homens vão pegar a visão deles, de que ele tem que parar com isso, e que nós não somos os inimigos. O opressor é o inimigo. Nós, mulheres, estamos peitando isso. Ou assume seu lugar como aliado, ou vai ficar de fora, porque nós mulheres vamos seguir construindo nossos laços.

Revista Rever: O Slam das Minas se encerra em 2017 ou vocês têm intenção de continuar?

A gente tinha proposta de fechar o cronograma de seis edições, que seria até agosto. Mas vamos ficar dois meses preparando a produção do último Slam para que ele seja legal, e assim voltaríamos em novembro. Não temos noção do que vai ocorrer, porque ainda não realizamos essa última edição. Mas a ideia era fechar em agosto, e dar uma descansada para voltar no final do ano com uma edição especial. Depois, só retornaríamos em 2018 com as programações do Slam. Mas a ideia também é continuar o fortalecimento. A gente não está pensando em parar o Slam das Minas da Bahia em 2017, não, queremos continuar com o projeto, como já falamos, é um projeto que está dando certo. Que continue dando, que traga muito mais mulheres para a cena de poesia de Salvador. E, talvez, com uma proposta nova, com um modelo que a gente consiga trazer mais o público sem tornar desgastado.

*Henrique Oliveira é membro da REVER, mestrando em História Social pela UFBA e militante do Coletivo Negro Minervino de Oliveira/Bahia.

 

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