Era o Hotel Cambridge: docficção traz debate sobre habitação urbana no país

Filme de Eliane Caffé mistura ficção e documentário para retratar os movimentos de ocupação urbana no Brasil

*por Raul Marx

“Não é cinema, é militância. Filme panfletário”.

Foi esse o primeiro comentário que vi sobre o filme em uma rede social. Uma parte do público consumidor de arte e comunicação no Brasil ainda cobra neutralidade vinda dos meios jornalísticos e das obras artísticas. Talvez ainda não foi possível criar um ambiente de maturidade sobre a questão. Neutralidade é um conceito difícil, ou até impossível de ser alcançado. Seja Hollywood, Globo Filmes ou cinema de guerrilha. Nada tende ao neutro. Tudo carrega discursos.

“Era o Hotel Cambridge” assume o ponto de vista dos moradores de uma ocupação urbana no centro de São Paulo. Uma escolha política, ainda mais sobre uma temática tão estigmatizada e marginalizada, como mostra uma das cenas em que José Dumont ler comentários na internet sobre uma produção realizada pelos moradores do prédio.

O nome do filme carrega o nome do lugar. Processo de ocupação urbana do movimento “Frente de Luta pela Moradia” (FLM) na cidade de São Paulo. Naquele espaço estão pessoas de diferentes realidades: nordestinos e refugiados de países em conflitos sociais, por exemplo. Na verdade, comenta um personagem em determinada parte do filme: “Vocês são refugiados brasileiros do Brasil”.

O filme carrega uma luz dura e enquadramentos planejadamente espontâneos para simular uma estética documental. Por vezes até coloca alguns personagens em planos fechados contando algo sobre suas vidas, simulando um depoimento. A ideia do longa é justamente essa. Eliane Caffé mistura personagens reais e atores como José Dummont e Suely Franco numa ocupação verdadeira para mostrar um discurso real sobre a questão da habitação no Brasil.

A grande contribuição de Eliane Caffé é, através das escolhas estéticas, humanizar aqueles personagens, é conseguir através de humor e da empatia colocar o espectador no ponto de vista dos personagens daquela ocupação. Talvez nenhum outro filme, nem um genuinamente “documental”, consiga trazer um retrato tão verdadeiro sobre um problema ainda muito longe de ser resolvido pelas políticas públicas no país.

Assista o trailer do doc:

*Raul Marx é midiativista, estudante de jornalismo e mestrando em cinema.

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