“A luta das mulheres precisa ser de classe”, alerta Luciana Araújo em debate

Curso “Mulheres, raça e classe” foi promovido pela Insurgência e refletiu sobre a obra de Angela Davis

*por Iris Brito Lopes
Fotos / Luciana Nascimento

Pensar uma nova sociedade mais distante das opressões que estruturam o capitalismo requer criar novas relações sociais livres de dominação e competição. Foi em clima de “erguendo-nos enquanto subimos” ou de “vamos juntas” que mulheres se reuniram na manhã de sábado, 9, no curso “Mulheres, raça e classe”, promovido pela corrente Insurgência do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL) e conduzido pela jornalista e militante negra feminista de São Paulo Luciana Araújo, em Aracaju.

O debate propôs uma reflexão sobre o livro homônimo ao curso, da filósofa e ativista estadunidense Angela Davis, que pautou a agenda do movimento feminista negro no Brasil ao proferir conferência (assista aqui a conferência completa) em Salvador-BA no mês de julho, quando visitou a cidade pela quarta vez e o país pela sexta.

Em “Mulheres, raça e classe”, publicado pela primeira vez em 1981 com tradução no Brasil apenas no ano passado, Davis propõe um ensaio sobre a condição da mulher negra durante a escravidão nos Estados Unidos e aponta caminhos para o feminismo interseccional, que interliga gênero (mulheres), raça (negra) e classe (trabalhadora). Aos 36 anos, a obra permanece atual e necessária por refletir a questão de gênero inserida num debate maior sobre o enfrentamento ao capitalismo. “Não basta a luta de gênero se ela não tiver o recorte de classe. Precisamos ter a compreensão de que o feminismo liberal não liberta todas as mulheres”, iniciou Luciana.

No Brasil, país que tem apenas 129 anos de abolição da escravatura depois de 358 com negras e negros debaixo dos chicotes no regime escravo, abrir o olhar para a obra de Davis permite compreender a atual condição de opressão à população negra, marcada pelo genocídio e o encarceramento da juventude, pela exploração do trabalho das empregadas domésticas, pela visão da mulher negra como campo de força inesgotável, entre outras heranças escravagistas.

Luciana lembra das práticas racistas assumidas pelo movimento feminista universal durante o sufrágio, quando mulheres brancas eram contrária ao poder de votos para mulheres e homens negros, com o argumento de que a inclusão dessa população nas eleições seria maior do que a de mulheres brancas e isso resultaria na escolha por um candidato que levaria ao subdesenvolvimento do país. Qualquer semelhança com a contemporânea visão de que “nordestinos não sabem votar” não é mera coincidência.

A tão forte pauta pelo ingresso da mulher no mercado de trabalho, por exemplo, é vista de outro ângulo pelas mulheres negras que, desde muito novas, trabalham. Davis aponta que não havia divisão de gênero durante a escravidão quando o assunto era repressão e trabalho. Tanto quanto os homens, as mulheres escravizadas sofriam com a tortura, as chicotadas e o trabalho forçado, com a diferença de que eram elas o alvo do abuso sexual.

 A investigação de Davis sobre a escravidão também revela a forte atuação política das mulheres negras na luta pela abolição. “Elas enfrentaram um regime, um modo de produção, pelo fim do modelo escravagista”. Não à toa, mulheres negras também lideraram quilombos e estão hoje na ponta de lança da insurgência das revoltas periféricas. “Existe uma pujância do movimento negro que recentemente relocou com mais força lutas que já são históricas. Precisamos resgatar nossa história, nossa ancestralidade”.

O evento contou com a participação de mulheres envolvidas em diversos grupos sociais

Intersecção

É justamente por estarem na base da pirâmide social, atravessadas por condições de gênero, raça e classe, que as mulheres negras quando se movimentam, sacodem toda a sociedade. Entram nessa luta as outras mulheres de minorias políticas. “O nosso feminismo tem que ser o feminismo dessas mulheres exploradas; das mulheres negras, imigrantes, asiáticas, travestis, lésbicas, transexuais”, declara Luciana.

A militante transfeminista membra da corrente Insurgência Linda Brasil, afirma se sentir acolhida nos espaços interseccionais. “Parte do feminismo ainda alimenta o determinismo biológico”, comenta.

A luta das mulheres negras também é sobre território e territorialidade, que abarca não só a imprescindível Reforma Agrária, mas a luta por terra das comunidades quilombolas, ribeirinhas e de outros povos tradicionais. Participante da Marcha das Mulheres Negras de São Paulo, Luciana comenta que neste ano elas receberam uma participação muito enriquecedora das mulheres indígenas.

“A gente já foi muito desumanizada. Nossa trajetória nos deu mais sensibilidade para compreender a luta dessas outras mulheres. Quem nunca foi desumanizada tem mais dificuldade de entender”, pontua sobre a interseccionalidade.

Pelo direito de abortar e de ser mãe

Luciana destaca que o aborto para as mulheres de cor preta foi, além de uma reivindicação pelo direito ao corpo, um mecanismo de luta de classes, praticado pelas escravas para não perpetuar a escravidão, para não gerar em seu próprio ventre mais uma vítima do regime escravagista, filho do seu próprio algoz. “Precisamos enxergar o aborto não só como máxima autonomia da mulher, mas também compreender que foi uma imposição histórica com a qual precisamos lidar”.

Mas o debate sobre direito ao corpo não se encerra no aborto. Com sua filha no colo durante quase todo o debate, revelando a Luciana-mãe, a militante se considera uma privilegiada por poder ter decidido sobre sua gestação. Ela argumenta que a garantia dos direitos sexuais e reprodutivos para aquelas que desejam ser mães também deve ser uma pauta feminista. “O movimento feminista precisa refletir que a mulher negra foi espoliada da família desde a saída de África e ainda depois, quando teve filhos vendidos, mortos ou torturados”.

Da mesma maneira, as esterilizações forçadas se apresentam como política genocida sobre a população não branca. As mães pobres são comumente responsabilizadas pela pobreza de suas comunidades, deixando-se de discutir a desigualdade social, a questão dos métodos contraceptivos, o sexo forçado, entre outras tantas circunstâncias nas quais elas estão inseridas. “Sempre dizem que pobreza é culpa da mulher pobre que coloca mais filho no mundo. A laqueadura precisa tratar da escolha de ser mãe de uma maneira mais profunda”.

Luciana afirma que é preciso difundir as produções de mulheres negras

A esquerda, o capitalismo e o feminismo negro

“Ou a gente discute as opressões entrelaçadas, porque é assim que o capital aplica e opera, ou a gente tá fadada ao fracasso”, dispara Luciana na discussão provocativa e autocrítica sobre o racismo na ideologia de esquerda.

“A esquerda precisa entender que fortalecer a nossa luta não é apenas fortalecer as mulheres negras, mas fortalecer a luta contra o capital. A esquerda tem que acatar nossas pautas e a gente tem que chamar a esquerda junto, porque eu considero que a nova sociedade tem novas relações, que não tem nada a ver com a que o capital impôs”.

O capitalismo já se deu conta de que as pautas de gênero e de raça são uma nova demanda social e, estrategicamente, “tenta sequestrar nossas pautas”, com uma abordagem carnavalizada e pouco aprofundamento político, “nos levando novamente ao mito da democracia racial”. “É o caso das práticas médicas que recusam o conhecimento das populações negras para se apropriar dele e vender para gente industrializado”, exemplifica.

Para aprofundar o debate

As produções de mulheres negras ainda são pouco difundidas, por isso, Luciana sugere autoras e diretoras negras para quem quer entender mais sobre o assunto:

– Mulheres, cultura e política, de Angela Davis

– O Livro da Saúde das Mulheres Negras, de Jurema Werneck

–  Revoltas, motins, revoluções: homens livres pobres e libertos no Brasil do século XIX, organizado por Monica Danras

– Lugar de negro, de Lélia Gonzalez

– Produções das autoras Sueli Carneiro, Wilma Reis e Luiza Bairros

– Documentário 13ª Emenda, de Ava DuVernay

*Iris Brito Lopes é midiativista e cursa jornalismo na Universidade Federal de Sergipe

 

 

Um comentário sobre ““A luta das mulheres precisa ser de classe”, alerta Luciana Araújo em debate

  1. Excelentes colocações. Devemos abrir os olhos para um feminismo amplo, pois um feminismo visto como um coletivo de mulheres, em nome de um modelo de mulher não tem razão de ser. Basta abrir os olhos e ver que as diferenças na sociedade são enormes: raça, classe social, nível de instrução, sexualidade … Ou o feminismo abrange essas diferenças, ou permanece elitizado.

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