II Encontro das Quebradas – um espaço de resistência cultural na cena do rap sergipano

O Encontro foi organizado pela Família BocasSecas e visa agregar a comunidade do São Conrado com outras quebradas

*por Lua Nascimento

No último sábado, dia 09, aconteceu o 2º “Encontro Das Quebradas”, evento que vem movimentando o Rap Sergipano. Com a programação cheia, o evento contou com a presença de várias vozes do Rap local, como Sistema Cruel, Família BocaSecas, Bruxas do Cangaço, RAR, NQL e mais oito grupos que marcaram o público, fazendo com que o dia fosse mais do que apresentações musicais e sim um espaço de resistência artística dentro da quebrada.

O Encontro, que foi localizado no São Conrado, na zona Sul da cidade, foi organizado pela Família Bocasecas e visa agregar a comunidade com outras quebradas, juntando pessoas e grupos musicais que vivem em zonas distintas da cidade.

Dessa forma, espaços como esses contribuem para o lazer da comunidade, que é culturalmente carente  de eventos que priorizam a conscientização, onde cada voz que entra e se manifesta tem grande importância para todas as quebradas presentes.

Os envolvidos na organização entendem que, sem o apoio da população, não há mudança. O Rap, com a união geral, veio em disparada nesse sentido e são dessas ações que surgem a mudança dentro da comunidade.

A verdade é que, um evento nesse sentido muda a cor do bairro, que culturalmente pouco tem a oferecer aos moradores, ficando cada vez mais cinza.

“Jogar bola, não tem nenhum espaço, esporte, não tem campo de futebol aqui onde a gente mora, nenhuma praça da juventude, não tem incentivo nenhum…”, diz Alisson (Oh Rato), MC e integrante da Família Bocasecas.

Saulo BeatMaker, MC e integrante da Família Bocasecas, desabafa: “A gente percebeu que a música tem muito poder e os conselhos podiam alcançar muita gente, tá entendendo? Aí a gente optou por fazer isso, porque a gente não sabia como mudar, né? O que fazer pra mudar de uma forma que alcance muita gente?. E não tinha como, a gente só vendo os amigos se perdendo cada vez mais sem fazer nada”.

Cena independente

De forma autônoma, mais uma vez, eles ocuparam o espaço de um lava-jato já desativado, limpando e deixando tudo para uma boa recepção.

O encontro, que não possuiu fins lucrativos, evidenciou que uma organização não precisa de financiamento nenhum, senão da própria união e ajuda da quebrada, para ser realizado. O dia também foi de arrecadação de alimentos para os moradores do bairro.

Gelo MC, integrante da Família Bocasecas, afirma: “A gente não tá visando assim financeiramente e pá. Lógico que todo mundo quer viver do que gosta, tá entendendo? Mas a gente é mais além do que viver do que gosta, é passar uma mensagem”.

“Muitos aqui entrou, só deu um quilo de alimento, que vai voltar pra eles mesmos. Vai ser doado pra comunidade aqui, tá ligado?”,  completa, Alisson (Oh Rato).

Cena do rap feminino

Dentro desse mesmo evento se apresentaram algumas vozes de mulheres que vêm representando muito na cena atual do RAP. Dani Dk, Mc do grupo Artigo 163, ressalta: “O Rap feminino tem ganhado oportunidade, tá ligado? É pra crescer mais e mais, ajudar as manas também, que ninguém tá só. A gente tá vivenciando uma parada cheque, experiência e espaço que a galera dá. E só agradeço também, né? Inclusive não só aqui, MV, uma parada aí das Minas Da Vandal, Gabi, Salva, as minas que representa aí a pixação,” completa.

Jessica Porto, do Cria Das Favelas, expressa a importância desse evento. “É sem palavras, vei. Aqui na quebrada tava tendo violência, uma semana atrás da outra tá tendo homicídio. Uma senhora estava amamentando seu filho dentro da própria casa e foi vítima de tiros perdidos e ficou na cadeira de rodas, tá ligado?”, relata.

Ela completa, “Então a gente pensou em fazer esse evento pra galera tá colando e mostrar que nosso foco é a paz e o que for pra tá fazendo nós tá aí pra mudar esse quadro.”

A jovem Rapper reforça o que mudou com esse evento cultural. “Desde o primeiro encontro que foi massa e melhorou. Inclusive, os alimentos do outro evento foi dado a essa mulher que levou as balas, e a gente fez esse evento pra abraçar a sociedade e cortar o que o sistema nos deu e infelizmente essa é a cena que a gente vê e a realidade é essa velho. É cruel e a gente faz tudo isso pra aliviar nossa dor,” exalta.

O próximo “Encontro Das quebradas” está estimado para acontecer no meio do mês que vem, no mesmo local: o São Conrado. A ideia é que a periferia se junte e some no movimento, fortalecendo essa cultura para que aconteça novamente na localidade.

O intuito é reforçar a importância da união geral, como Gelo MC expõe, gritando com o coração dentre o olhar dos seus companheiros:

–  “Paz pra todas as quebradas”.

Até o próximo evento.

*Lua Nascimento é midiativista

 

Comentar

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s