Som, chuva e panfleto

“O violão de Demétrio ajuda a driblar o frio e o peso das denúncias que estatelam sobre nossas cabeças”

*por Henrique Maynart

Aracaju, 14 de setembro de 2017. Mais uma tarde chuvosa no calçadão da João Pessoa esquina com a Rua Laranjeiras, o pé d’água segue até a primavera dar o ar da graça e setembro pedir arrego. Dois toldos, uma caixa de som, dez mil panfletos, cadeiras, mesas e gogó a gosto em mais um ato contra o sucateamento da educação pública, a reforma da previdência e pela anulação da reforma trabalhista. A convocação do ato, unificado, esteve por conta da boa e velha sopa de letrinhas do movimento sindical: Adufs, Sintufs, Sinasefe, Sindsprev, Sindibge e CSP-Conlutas. Sigla pouca é bobagem.

As falações tiveram início às 15 horas e 14 minutos, seguidas do regimental toró. Trabalhadores e trabalhadoras da saúde aferiam a pressão dos batedores de perna do calçadão, idosos em sua totalidade, enquanto os dirigentes sindicais conversavam com a imprensa local. As cadeiras enfileiradas recebiam as pessoas que se abrigavam da chuva, era o tempo de espiar o panfleto na rabeira do olho. A vida seguia tediosa do lado de fora do toldo: Os pedintes e fiéis na porta da igreja de São Salvador, o locutor da farmácia alertando para as promoções da semana, os trabalhadores da Torre recolhendo o lixo curiosa e vagarosamente, o carro de pipoca estacionado na esperança de aglomeração juntamente com o carro de mingau e puba. Os militantes panfletando e as pessoas tomadas pela agonia dos compromissos, coisa de gente que tem mais o que fazer, sabe como é.

O violão de Demétrio ajuda a driblar o frio e o peso das denúncias que estatelam sobre nossas cabeças, além da fedentina de barata que escapole dos esgotos centenários do centro da cidade. “Podem me prender, podem me bater. Podem até deixar-me sem comer”. A canção de Zé Ketti popularizada na voz de Nara Leão sintetiza bem o tempo das contrarreformas, embaladas milimetricamente pela Lei Antiterrorismo que Dilma Roussef nos deixou como legado. Isso sem falar no texto-base da própria Reforma da Previdência. A aceitação das pessoas ao panfleto do ato é seguida de um semblante sombrio. As pessoas, como que condenadas a dar de ombros frente ao inverno dos próprios direitos, não enxergam qualquer saída, mas a manifestação segue.  A vida também.

As bandeiras e faixas estendidas, os braços esticados arremessando sorriso e panfleto em mais um burburinho na encruzilhada que abriga o antigo prédio da Divisão Regional do Trabalho (DRT). Este canto acolhe mobilizações sindicais de diversas categorias por décadas de ódio e desgosto na planta baixa de Aracaju. Seguíamos, sob o olhar vigilante do H.Dantas estacionado na outra banda do Rio Sergipe, teimando contra os ataques da direita na defensiva, sob os pingos que caíam do céu acinzentado. A primavera nunca demorou tanto, mas a desgramada há de chegar.

*Henrique Maynart é jornalista

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