Terror e miséria num Brasil em transe: sobre a terra de Glauber Rocha

*por Romero Venâncio

“Pois a dialética não precisa de distâncias brumosas: está em casa dentro das quatro paredes da prática, e, em pé na soleira do momento, recita as palavras que encerram A Mãe: E nunca se tornará hoje!”
(Walter Benjamin. “Ensaios sobre Brecht”)

“Terra em transe” de Glauber Rocha faz 50 anos! Esse filme é nossa “má consciência” enquanto Brasil em transe desde o golpe de 1964 e seus desdobramentos. Expliquemos a coisa: sempre que retornamos a esse passado sempre insepulto, porque sempre mal interpretado no seu mal ajuste de contas de uma geração que pagou caro o preço da opressão e da derrota, esse filme volta com a carga toda.

Esse tempo se chama hoje: Juiz Moro e toda judicialização da política; vozes cavernosas que pedem a volta da ditadura e seus militares de plantão; juventude sem rumo, sem emprego, ressentida, tola e deslumbrada com autoritários da hora; restauração de políticas desastrosas num país que vive de desastre em desastre… Nesse Brasil (ainda em transe), “Terra em transe” faz todo sentido. Um filme que nasceu das entranhas de uma derrota histórica. Só nesse quesito, o filme teria sua maior atualidade. Mas precisamos saber que o filme é datado (como toda obra inscrita no tempo histórico).

  O filme “Terra em transe” veio ao público em 1967, como tentativa (bem sucedida, diga-se de passagem) de resposta a uma derrota das esquerdas e a uma frustração das grandes naquele momento. A derrota histórica das esquerdas tem nome preciso e data exata: o golpe de 1964. Estava no governo João Goulart com o apoio do PCB, de uma série de intelectuais progressistas como Paulo Freire, Celso Furtado, Darcy Ribeiro, organizações estudantis, políticos como o saudoso Leonel Brizola, etc…

Ou seja, tínhamos um governo progressista (para dizer o mínimo!). Havia um clima restrito, mas havia: um Brasil que parecia inteligente e preocupado com uma ideia de Nação. Era cinema novo, teatro de Arena, Teatro Oficina, MPB engajada, CPC da UNE, Ligas Camponesas (acontecimento singular na história do movimento camponês brasileiro), Movimentos populares de cultura, Teologia da libertação em seus primeiros passos (numa instituição como a Igreja católica que parece sempre imutável na história!!!).

Para os mais desavisados, havia em marcha uma possibilidade de revolução e para os mais realistas, vivíamos um momento de efervescência política rara dentro de um clima progressista ainda restrito as classes médias. Somente. Mas já era muito. Num país em que a “casa grande” manda inconteste na história e que as reações da “senzala” são incipientes, intermitentes, ainda que justas e necessárias, aquele clima anos 60 era para se comemorar. Temas como reforma agrária, reforma urbana, reforma universitária, distribuição de renda, relações exteriores independente estavam em pauta pelo governo Jango.

O cinema foi um capítulo muito interessante nessa história. Desde os anos 50 com o fabuloso “Rio 40 graus” de Nelson Pereira dos Santos que se percebia algo novo nesse cinema. Fora dos esquemas industriais, sem atores e atrizes de sucesso e com temas voltados para a realidade dos de baixo desse Brasil que teima em não considera-los, o cinema aos poucos estava se tornando novo de fato… Os negros apareciam no cinema. Os sertanejos vinham como protagonistas desse cinema, os favelados, os pobres de toda sorte tinha papel de destaque nesse cinema novo. Isto não é pouca coisa e incrementava ainda mais o clima anos 60 que se aprofundava no Brasil e na América Latina.

Era um cinema com consciência latina, de “terceiro mundo” (termo muito utilizado à época). Usando um termo bem ao gosto de Glauber Rocha: um “cinema revolucionário”. Cada vez mais ficava claro a necessidade de se pensar e fazer um “cinema de autor” por estas bandas latinas de inflexão política e inserido no combate ao neocolonialismo e à hegemonia cultural dos EUA. Um projeto absolutamente novo em toda a história do cinema brasileiro. Um cinema que até esse momento, não tinha a menor consciência de seu papel político nessa engrenagem do capital. Como não era apenas um capitulo brasileiro, a feição e articulação desses cinemas novos ganhou expressão e densidade em encontros, manifestos (basta ver o genial “Estética da fome” de Glauber Rocha) e festivais que começavam a ter visibilidade social e presença política no continente e fora dele.

Todo esse processo foi interrompido a força pelas ditaduras na América Latina e, em particular, no Brasil em 1964. Com o golpe civil-militar brasileiro, todo esse cenário político-cultural começa a ruir. Perseguições, exílios, assassinatos, censura extremada e anticomunismo delirante passam a ser a tônica desse Brasil que estava cada vez mais ficando “em transe”. Não se sabia o que teria acontecido para chegarmos onde havíamos chegado. Havia perplexidade no ar depois de 1964 e ainda mais depois de 1968 com o fechamento cada vez mais do regime ditatorial de plantão.

É nesse contexto que nasce “Terra em transe”. Segundo o crítico Ismail Xavier: “Neste filme de 1967, Glauber armou o drama barroco do desencanto, marcado pela percepção aguda da crise de um projeto revolucionário alimentado durante anos.” Sem dúvida, o filme é uma obra de desencanto e de aguda percepção da quadra histórica em que estava enfiado um Brasil e uma esquerda que tinha perdido a sua consciência. No livro: “Alegorias do subdesenvolvimento”, Ismail Xavier faz uma síntese perfeita do que é “Terra em transe”: “O sonho acabou. A revolução está fora do alcance. O político conservador, Porfirio Díaz, comandou o golpe de estado, suprimiu as eleições e pôs um fim às aspirações políticas do líder populista Vieira e seus aliados. Paulo Martins, poeta, jornalista, conselheiro político, agoniza. Atingido pela repressão ao empreender o gesto isolado de resistência, o poeta ferido de morte revê sua trajetória política e a do país.”

A Eldorado de Glauber era um Brasil em forma alegórica, por certo. Todos estão ai em termos dos personagens reais que figuravam naquele Brasil pré-1964: Jango, os comunistas, os empresários, os estudantes, os camponeses, o povo… Tudo alegoricamente bem situados. Dentre tantas possibilidades de comparação histórica da época do filme (1967) e da nossa época (2017), uma nos vem sempre a mente nesse momento: o trajeto feito pelas as esquerdas brasileiras de oscilações, atropelos e contradições na lida com o povo pobre.

Quando convém aos “políticos profissionais” de esquerda e seus conselheiros, o povo é sempre clamado e usado como exemplo, quando não convém, esse mesmo povo é trocado por alianças que garantam a “mítica” governabilidade… Será esse um dos “enigmas” da prática política no Brasil? O filme de Glauber Rocha acaba nos colocando diante de uma questão que ainda hoje faz sentido ou uma velha cilada para as esquerdas: ficar entre o projeto elitista e autoritário ou a fragilidade do projeto populista de curta duração… Mas sabendo sempre de algo fundamental: 2017 não é 1967. 50 anos depois, o Brasil não é mais o mesmo.

*Romero Venâncio  é professor do Departamento de Filosofia –UFS

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