Dark MC na CypherBox “Lírica do óbito”: O Rap verdade que massacra

Dark MC
Foto: RapBox

“Um boy me perguntou, se tu almeja a paz por que só narra dor pow? Oh, como narrar flor, se o sistema opressor faz questão de impor sua ira contra a minha cor?” (Dark MC, Julgue – me)

*por Henrique Oliveira

“O rap verdade que massacra lock onde o ódio dos olhos é tão ameaçador quanto a Glock dos canas. Sigo enriquecendo o globo antes que alguém o estoure, já que é destruindo que os seres normais fazem fama”. São com esses versos que Dark MC começa sua parte na CypherBox 14 “Lírica do óbito” lançada ontem no canal RapBox, gravada juntamente com o grupo alagoano NSC (Neurônio Subconsciente), Manor Fler, do grupo paranaense Família IML, e Nocivo Shomon.

Dark MC começou no Rap fazendo Freestyle aos 15 anos de idade. Suas primeiras gravações musicais foram em parceria com André LA – ouça aqui. Ele também participou da primeira formação do Contenção 33, lançando a música que o fez ser conhecido: ‘Madrugada Fria’, com participação de Carol ‘RDC’. Na música Dark narra o que acontece nas madrugadas das periferias de Salvador, fatos que muitos conhecem, mas que fingem não se interessar, como a chacina do Cabula, acontecida na madrugada do dia 6 de Fevereiro de 2015, em que 12 jovens negros foram executados por Policiais Militares. Na letra o MC dá voz a muitos que se encontram numa zona marginal criada e mantida pela opressão do Estado racista, dando voz não só àqueles que ainda estão nessa zona, mas também aos que já se foram.

Além de “Madrugada Fria”, Dark MC também gravou a maioria das músicas lançadas pelo Contenção 33, como “Daqui da Laje partes 1 e 2”, “Ruas Sujas partes 1 e 2”, “O Tempo Fechou”, “Lemos Brito” e “A Rua é Contenção”, gravada juntamente com o grupo Nois por Nois, que compõem a mixtape – ouça aqui – do Contenção 33 chamada Ruas Sujas.

Dark tem participações em trabalhos com DDH – Direto Do Hospício – como a música “Solitária”. Com Cintia Savoli gravou “Lei das Quadradas”, na qual o MC manda um recado direto para os desavisados “que a porta de entrada no crime é a de saída da vida” com clipe lançado no canal RapBox em Janeiro – assista aqui -, e recentemente, junto com Moobzilla, lançou a faixa também com clipe “Preserve – se”.

Após sair do Contenção 33 e se jogar em carreira solo, Dark MC lançou 4 músicas: “Cheiro de Maldade”, com participações de James Lincoln e Digs, onde os mc’s trazem toda a tensão de quem se arrisca pela sobrevivência em meio a vida bandida; “Aponte – me”, “Beco Sujo?” e “Pretos no Topo”, todas produzidas no Estúdio Terror da Leste, com beats de King Daka.

E por todo esse repertório carregado de críticas sociais, denúncia e militância política através do Rap, Dark MC recebeu o merecido convite de LeoCasa1, responsável pelo canal RapBox, para ir em São Paulo realizar umas gravações.

Fazendo jus à sua carreira, Dark regravou a música “Julgue – me” no Solo 6 – veja aqui -, na qual o MC mostra todo seu potencial lírico e poético, com rimas ácidas, denunciando o Racismo, a desigualdade Social, trazendo o que há de melhor na análise sobre a realidade no Rap brasileiro da atualidade, onde afirma que só vê como resgate no país o uso do Rap nacional como instrumento de paz, e como ele mesmo diz, é uma pedrada, protesto puro. O clipe lançando no final do mês de julho já alcançou 96 mil visualizações.

Na sua passagem por São Paulo Dark ainda concedeu uma entrevista ao site Ponte Jornalismo – Direitos Humanos e Segurança Pública – confira aqui – sobre temas como a sua experiência de vida, pois o MC tem como origem o bairro de Rio Sena, localizado no Subúrbio Ferroviário de Salvador, onde conviveu desde cedo com a violência e os problemas sociais comuns de todas as periferias brasileiras; a luta que o Rap baiano e nordestino passa para furar o bloqueio por causa do preconceito e a centralização da indústria cultural voltada para o axé music. Na entrevista Dark MC diz que quem está de fora da cultura Hip Hop acha que seus versos são violentos, mas ele rebate dizendo que não são, porque na verdade o que é violento é a nossa realidade e ele não faz nada além do que pregar em cima dela.

A Revista Rever conversou com Dark MC sobre o que significou para a carreira dele essa oportunidade de ir para São Paulo, o trabalho em parceria com o RapBox, a gravação da Chyper e as conexões estabelecidas com outros mc’s e grupos:

“Eu acho que essa ida para lá foi muito gratificante. Foi um dos presentes que a cultura Hip Hop me proporcionou, uma sensação ímpar, podendo apresentar meu trabalho e sair do meu estado de origem, poder regravar uma faixa que eu realmente amo, com uma qualidade e nível nacional, com uma gravadora monstra que é a Casa1. Eu consegui apresentar para todo Brasil. Na entrevista para o Ponte Jornalismo eu fiquei feliz de desferir umas palavras contra o sistema em outro estado, e não só em cima de beats, trocar uma ideia e expor o que eu penso, o que eu sinto. Foi muito bom, eu amei a oportunidade que o Hip Hop me deu, só tenho a agradecer mais e mais.
Na minha letra eu sigo os mesmos trâmites das minhas composições. É protesto mesmo, não quis me adequar a nada, meus pensamentos, eu quis passar a mesmas mensagens de sempre, porque a gente está em uma situação difícil, nossos irmãos morrendo e eu quis utilizar um pouco mais da poesia. Foi massa a conexão com os caras, Alex e Carol do NSC, Mano Fler e Nocivo. O Nocivo Shomon eu não cheguei a conhecer, pelo fato de que no dia que gravamos a chyper, ele estava ocupado e não pôde chegar na situação, mas depois ele fez a parte dele e o trampo está aí na pista”.

Dê play e confira porquê Dark MC é um dos maiores compositores do Rap nacional!

*Henrique Oliveira é colunista e colaborador da Revista Rever/Salvador

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