Crônica – Casa de Orates

Foto de Elliot Cooper no Unsplash

Casa de Orates, uma crônica sobre a casa na qual ninguém quer morar

*por Ana Paula Rocha

Quando eu tinha por volta de dez anos de idade, meu pai me presenteou num dia qualquer com O Alienista, do Machado de Assis. Livreiro por quase vinte anos, para ele ter livros em casa nunca foi algo fútil, nem também imprescindível, apenas natural. Por isso mesmo, me dar gibis ou literatura do século XIX estava mais ou menos no mesmo patamar. Obviamente que aos dez anos, mesmo sendo boa em interpretação de textos literários e tentando sinceramente, não consegui compreender o que lia e acabei por suspender por tempo indeterminado o contato com aquela história. Só aos catorze completei a leitura entendendo as sentenças.

Creio haver dúvidas se um dia poderei dizer que o li, enfim. E, de tudo que me recordo dessa experiência, uma expressão ficou sendo remoída durante o intervalo de quatro anos que separa a tentativa frustrada e minha chegada ao ponto final: Casa de Orates. Eu repetia. Casa de Orates. Não nego que, até hoje, uma vez ou outra mastigo essa junção de palavras que quem sabe soarão eternamente exóticas para mim. Casa de Orates.

Ao fechar o livro fininho, uma dessas edições modestas nas quais o diagramador parece não saber o que é margem, a Casa de Orates era então algo de que eu já ouvira falar. Casa de Orates e alienista: manicômio e psiquiatra. Fora justamente com O Alienista do Machado que eu passara a levar à sério a grande incógnita que é a loucura (desde as escrachadas até as tímidas, cotidianas).

Pulando dos catorze para os vinte e dois, tenho então minha primeira ida ao Hospital de Custódia e Tratamento Psiquiátrico, o nome pomposo que cunharam para os antes conhecidos como Manicômios Judiciários, mudança ocorrida com a promulgação da lei nº 10.216/2001 que prevê um tratamento humano às pessoas com transtornos psiquiátricos.

No HCTP de Sergipe, eu assisti a quatro homens pintarem quadros pequenos e falarem sobre suas condições. Um deles, o que me pareceu mais lúcido, fez uma cópia da tatuagem que carregava no braço, uma imagem da praia à noite. Outro, meia idade e barriga protuberante com grossa cicatriz vertical, pintou flores e figuras geométricas coloridas. O mais calado de todos, O., desenhou o rosto de uma menina feliz e envolveu-a em corações. É porque ando muito sozinho, explicou. Mais uma vez enfatizou sua solidão. Na terceira percebi que se dava conta realmente.

O quarto integrante daquela reunião estranha (me questiono se, uma vez que me mantinha de pé observando, não alimentava uma espécie de cena de zoológico sem querer admitir) estava visivelmente perturbado. Foi o mais filosófico: desenhou uma porta e logo depois se mostrou temeroso de que alguém a cruzasse. As únicas cores que utilizou, se não me falha a memória, foram o azul e o amarelo. Insistiu com a psicóloga, que cuidadosamente ajudou-o a fechar a porta em azul. O rapaz perguntou se poderia se retirar e – mesmo que pareça muito cinematográfico e talvez mentiroso – saiu caminhando sob uma chuva iniciante enquanto eu estava abrigada, com um jaleco emprestado, muitos números acima do que uso, tentando me situar, “por que quis vir aqui?”.

Quando eu saí, achando nunca ter estado de fato lá dentro com esses que serão outros para a sociedade talvez para sempre, a expressão Casa de Orates retornou, muito forte. Casa de Orates. Entendi que Machado de Assis, quando escreveu “Casa de Orates” em O Alienista, falava do lado de fora. A Casa de Orates de Machado, pensei, é o mundo inteiro.

* Ana Paula Rocha é baiana radicada em Sergipe, onde cursa Letras Português/Inglês. Na edição de 2013 do Prêmio Off Flip de Literatura ficou entre os 20 melhores na categoria conto com o texto Os mortos, o cão e a pedra, publicado em coletânea. Em 2014 dirigiu o curta-metragem documental “Afogados”, selecionado no V Revelando os Brasis e exibido no Canal Futura. 

 

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