Uma visão socioeconômica de quem vive em Angola

Uma visão sobre a realidade socioeconômica de Angola, que se assemelha em alguns aspectos com o Brasil

*por Filipe Kiangala R. Aço

A economia angolana atravessa um dos piores momentos desde a sua independência[2] depois de passar um período bastante próspero e que não se deu atenção devida ao que deveriam ser as prioridades. Está então, num descontrole pêlos altos níveis de corrupção vividos por toda a sociedade angolana. Constatação feita e aceita unanimemente por lideres políticos, religiosos, intelectuais e não intelectuais. Todos têm consciência desse problema e sabem como tem de ser mais ou menos resolvido, inclusive é uma das promessas da presidência de Angola.

Actualmente em Angola depois de 4 anos com o preço do barril de petróleo com a média anual a se situar a acima dos 100 dólares americanos, o país hoje, parece quase irreconhecível para quem chegou por volta de 2008 e viu muitos problemas a serem resolvidos, o nível de vida a melhorar, muitas empresas com interesse de investir em Angola, muitas linhas de credito internacionais a serem abertas, estabelecidas e accionadas para projectos de todo tipo, em todas áreas de negócios, surgiram o aumento de instituições públicas para acompanhar as politicas criadas e foram restruturadas algumas que já não tinham muita eficiência ou porque se tornaram mesmo inúteis.

O país estava transformado num verdadeiro canteiro de obras que atraiu empresas de muitos países como também muita mão de obra, mesmo aquela que não era muito necessária, como por exemplo motoristas, auxiliares administrativos e muitos técnicos inexperientes que foram aprender em Angola, muitos como sua primeira experiencia profissional. Ou seja, os contractos não foram muito bem negociados e por parte de quem investia em Angola tentou aproveitar ao máximo as lacunas que tinham esses contractos.

Chegaram em Angola muita força de trabalho, para os grandes projectos que estavam a ser executados vinham até ajudantes e ganham em moeda estrangeira, mais do que um professor do ensino primário ganhava.

Poderia ter sido melhor, inclusive com a proximidade da língua deveria permitir que cidadãos brasileiros e portugueses qualificados ganhassem nacionalidade ou residencia tentando aproveitar desta forma o que os outros países formaram e têm em excesso. Mas não foi feito isso e inclusive foi dificultada a entrada de maneira pouco eficiente para o que se pretendia que era apenas contratar mão de obra qualificada.

Um pouco da sociedade Angolana

Os Angolanos foram doutrinados a aceitar essas condições, a diferença abismal de condições entre o estrangeiro e o nacional, a cultura dessa desigualdade social talvez foi uma herança do colonialismo. Então entre os angolanos têm quem ganha num mês o que um operário ganha num ano, já a diferença entre técnicos qualificados estrangeiros e técnicos com a mesma qualificação mas de nacionalidade angolana, pode chegar em cerca de mais de seis salários.

Em Angola depois da independência veio logo a guerra civil então o governo tentou suprir as todas as necessidades possíveis porque faltava tudo, alimentação, roupa, energia, água, foram tempos muito difíceis, e o povo foi praticamente desencorajado a pratica da agricultura em muitas zonas porque o pais durante a guerra foi amplamente armadilhado com explosivos antipessoais (minas) então a população passou a depender muito do governo e ficou alocada fora das suas zonas de origem, a psicologia de dependência do governo foi reforçada nesses tempos de guerra civil.

O salário mínimo é de 15.000 kwanzas que equivale a 282 reais se for ao câmbio do banco, mas a economia está tão debilitada que a real comparação seria 119 reais, a maioria da população deve ganhar entre os 25.000 e os 120.000 a partir daí os salários aumentam drasticamente e reduz também quem recebe esses valores. O salário máximo da função pública que é do presidente e é aproximadamente 1.200.000 de kwanzas. A partir de 200.000 kwanzas para cima não é só o salário que grande parte recebe, mas também se juntam alguns outros benefícios que somados com o salário base chega as vezes mais do que o dobro e se juntarmos mais o dinheiro que ganha com a corrupção então essa pessoa pode ganhar bastante e normalmente ostentam jóias, gadgets, carros e têm um padrão de vida bem alto.

Um brasileiro que vem para Angola mesmo sem muita qualificação pode ganhar a volta de 2.000 dólares americanos (cerca de 6.250 reais com referencia do Banco Nacional) e com alojamento pago e mais ajudas de custo. Muitos pegam o valor todo e enviam para o Brasil porque ele aqui não tem quase custos nenhuns, pois normalmente são suportados pela instituição que o contratou e ainda pode receber cerca de 800 dólares por mês de ajudas de custo que são aproximadamente de 132.000 kwanzas o que já é o salario de muito professor.

Como ele não vai trocar no banco nem em casas de câmbio que em Angola praticamente não funcionam pois o mercado clandestino para compra e venda de moeda estrangeira é muito forte e é praticado a vista de todos, então normalmente as pessoas trocam na rua, nas kínguilas como são chamados esses comerciantes, que normalmente são senhoras que ficam sentadas na rua acenando maços de notas para assediarem quem passa e atrair os interessados para o negócio que são normalmente angolanos que querem viajar ou estrangeiros que querem moeda nacional ou mesmo empresas, o que é muitíssimo normal em Angola e pode-se fazer mesmo a frente da polícia que poderá não acontecer nada.

Então esses 800 dólares trocados nas kínguilas podem equivaler a 316.000 Kwanzas (aproximadamente 6.000 reais) e já estávamos a falar de alguém que trabalha em um cargo importante. Outra realidade são as empresas petrolíferas que os salários aí são de outra escala, em que tem algumas pessoas e em alguns cargos com alguma responsabilidade ganham facilmente 700.000 kwanzas a 1.500.000 kwanzas (cerca de 30.000 reais).

Deste modo , no mercado petrolífero a desigualdade é mais acentuada, pois, a disparidade salarial varia significativamente, um exemplo disso, são os empregados/funcionarios que abastecem os carros que têm seus salários na faixa de 30.000 kwanzas (cerca de 575 reais). Portanto a maior parte da população que trabalha tem muita dificuldade de se sustentar por que se analisarmos uma cesta básica de alimentos e serviços para uma família constituída por um casal de adultos e duas crianças o valor para viverem durante um mês em Luanda deve estar por volta dos 60.000 kwanzas muito acima do salário mínimo.

A maior parte da população não tem ou é servida por um saneamento básico muito deficiente, com serviços de energia e abastecimento de águas igualmente deficiente e isso na cidade capital. A recolha do lixo é igualmente muito deficiente por isso se verifica muito lixo na cidade.

Os alugueres são muito caros, cerca de 500 dólares a 6.000 dólares em casas que até pode faltar água e luz, portanto é comum as casas terem um tanque de água para um mês cerca de 12.000 litros e um gerador de energia. Poderá aparecer alugueres mais baratos ou mais caros, mas as condições são drasticamente enormes tanto para os mais baratos que pode ser em uma casa num bairro de luanda sem saneamento e com esgoto exposto que facilita ou proporciona o aparecimento de doenças e animais indesejados tais como ratos e mosquitos.

A economia actual angolana

Muito diferente de há três anos atras (2014) em que estavam a surgir novos hospitais, escolas, universidades, criação de muitos empregos, angola registava um crescimento no seu PIB de dois dígitos de 2002 a 2013 o PIB passou de 12.500.000 dólares americanos para 124.900.000 de dólares americanos, foi um crescimento enorme e nada fazia prever a situação que se encontra hoje em Angola, dá a impressão de que se jogou dinheiro pela janela.

Os Hospitais se degradaram por falta de manutenção e não têm medicamentos porque em Angola não se produz medicamento e todos são importados até uma luva de médico ou uma seringa, comprimido para dor de cabeça, tudo. As escolas estão degradadas e os professores com salários em atraso por vezes de alguns meses, as estradas onde foram investidos milhões estão todas degradadas por falta de um plano de manutenção, os polos industriais que se construiriam não se tornaram eficientes e não atendem praticamente os materiais dos projectos que ainda vão surgindo, os sistema bancário está seriamente comprometido e sem confiança por parte dos angolanos como também do mercados internacionais. Angola perdeu acesso as divisas e a única maneira de os bancos comerciais conseguirem é através de leilões promovidos pelo Banco Nacional de Angola que deveria ser o supervisor.

Todas as empresas em angola passam muitas dificuldades pela falta de divisas que está a ser racionalizada por sectores e necessidades prioritários. Está muito difícil importar.

A economia durante muito tempo foi dependente do petróleo e diamantes e hoje existe uma grande divulgação e preocupação da necessidade para a diversificação da economia investindo em sectores não petrolíferos como por exemplo a agricultura. Mas tal intenção tem sofrido muitas dificuldades porque não se espelham nos orçamentos anuais do estado de forma mais evidente sendo o Orçamento Geral do Estado, uma das principais ferramentas de gestão e tais orçamentos são apenas executados pouco mais do que 50% do planeado.

O grande problema de Angola está longe de ser a quebra do preço do barril de petróleo, mesmo que o barril estivesse a média anual de mais de 100 dólares Angola estaria na mesma situação pois essa situação já começou por volta de 2012 quando os mercados começaram a combater e a implementar medidas mais serias contra o branqueamento de capitais (lavagem de dinheiro), financiamento ao terrorismo e outros crimes cometidos no sector da banca internacional, talvez tenha começado com a crise de 2008 á 2010 no estados unidos no sector bancário e com os resgates mal sucedidos e com os escândalos que foram surgindo. O combate ao terrorismo e a países que o apoiam tiveram um efeito importante no controle do sistema bancário internacional.

Angola tem muitas dificuldades para cumprir o ,complice[4], exigido pelo sistema bancário internacional e com isso os bancos correspondentes que operam em Angola incorrem um grande risco de serem multados pesadamente em bilhões pêlos seus supervisores se encontrarem irregularidades e neste caso Angola é muito fácil encontrarem essas irregularidades. Por exemplo alguém de fora ou mesmo angolano pode chegar num banco e depositar uma grande quantia em dólares americanos ou numa outra moeda estrangeira e não haverá investigação nenhuma, supervisão nenhuma, serão cumpridas algumas formalidades e não vai passar disso. Pensa-se criar alguma autoridade para investigar movimentos ou crimes dessa natureza, mas ainda está no papel.

O último correspondente em divisas americanas o Deutsche Bank deixou de operar com receio de mais multas pois já estava a pagar umas bem bilionárias por irregularidades cometidas nos estados unidos, o mundo está conectado e muitos não se dão conta dessa conectividade. Pela dificuldade de aquisição das principais moedas comerciais Angola pensa como alternativa direccionar seus negócios para a china com trocas em moeda chinesa fazendo dela o seu parceiro privilegiado já se comentou e equacionou algumas vezes essa possibilidade.

Angola ainda tem muitos recursos por explorar e ainda é uma boa região para investimento, pela estabilidade política, por ser um país que ainda tem tudo por fazer, pelo clima, pela imensidão desse território. É um país muito novo e ainda vai passar por muitas transformações. Angola só precisa restruturar o seu sistema financeiro e direccionar bem as suas políticas, muitos erros foram cometidos, mas nada está perdido, os angolanos têm a experiencia de ter errado, há que assumir essa experiencia, corrigir e fazer o mais acertado possível. Em pouco tempo Angola será uma nação próspera.

* Filipe Kiangala Rodrigues Aço, nascido e residente em Angola, engenheiro electrotécnico, trabalha em projectos de energias e águas

Notas

[2] A Independência de Angola deu-se no dia 11 de Novembro de 1975, quando o então primeiro Presidente de Angola, Agostinho Neto, proclamou a independência de Angola de Portugal. Este acontecimento deveu-se, em grande parte, aos acontecimentos militares e políticos que ocorreram um ano antes em Portugal, aquando da Revolução de 25 de Abril de 1974 e o culminar da guerra de libertação iniciada a 4 de Fevereiro de 1961.

[3] O Banco Nacional de Angola é o banco central e emissor, tem como principais funções assegurar a preservação do valor da moeda nacional e participar na definição das políticas monetária, financeira e cambial.

[4] é o conjunto de disciplinas para fazer cumprir as normas legais e regulamentares, as políticas e as directrizes estabelecidas para o negócio

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