O Mundo Negro de Gilberto Gil em Refavela

O ano de 2017 marca os 40 anos do lançamento de Refavela

*por Rafael Aragão

Gilberto Gil dispensa apresentações. Hoje aos 75, o baiano tropicalista é sem dúvida um dos maiores nomes da música brasileira. E ainda em atividade, mesmo após recentes complicações de saúde. O ano de 2017 marca os 40 anos do lançamento de Refavela. O disco que faz parte da famosa trilogia do RE, que inclui os discos Refazenda (1975) e Realce (1979). Shows, linha de roupas, livro e o relançamento do disco em vinil marcaram as comemorações, mas o que Refavela tem de especial?

Refavela tem como conceito a ebulição da cultura negra, que explodia em todo mundo e claro tinha suas manifestações no Brasil. Na Bahia em 1974 nascia o bloco Ilê Aiyê, no bairro da Liberdade, e tem na sua formação a ideia de orgulho negro e uma relação forte com a ideia de África tradicional. Outro movimento que estava em alta no período foi o chamado Black Rio, que também trazia o orgulho de ser negro no Brasil.

A referência de ambos era o Black Power americano, os processos de luta e libertação nos países africanos e um forte desejo de afirmação.  Gil estava atento a todos esses movimentos e trouxe um pouco de cada um deles para o Refavela. Não é à toa a inclusão da música de Paulinho Camafeu “Que bloco é esse?” que no disco foi rebatizada como “Ilê Aiyê” ou nos versos da faixa-título que abre o disco:

“ A refavela
Revela o passo
Com que caminha a geração
Do Black Jovem
Do Black Rio
Da nova dança do salão”

Outro fato que marca o conceito do disco é a viagem que Gil faz a Nigéria. Aos 35 anos, era primeira vez que ele pisaria no continente africano, para participar do 2º FESTAC – Festival Mundial de Cultura Negra. O festival aconteceu em janeiro de 1977 em Lagos, capital da Nigéria. “ Eu queria aprofundar a questão da revisita…e aí a oportunidade foi com a África e o festival da Nigéria, que foi uma coisa enorme! Na volta conclui que depois da fazenda haveria a favela- ambos territórios importantes, periféricos ao centro da civilização brasileira. O conceito já estava estabelecido, mas a coisa da África foi fundamental ” diz Gil, em entrevista sobre o disco a Marcelo Fróes em 2011.

Na Refazenda ele faz um retorno a suas raízes nordestinas, onde ele mistura essas influencias do sertão com o pop. A Refavela é um (re) encontro com a África, com o orgulho negro, com as novidades sonoras que seriam exploradas de forma ainda mais contundente em Realce.

Apesar de toda essa influência do ‘mundo negro’, das questões da diáspora e cultura black, o disco não é totalmente dedicado a essa temática. Músicas como “Aqui e agora” e “ Sandra” fogem desse universo e versam sobre o fato marcante na carreira de Gil que foi sua prisão em Florianópolis por porte de maconha na turnê dos Doces Bárbaros em 1976. Ainda assim, são músicas que tornaram o disco ainda mais popular e não chegam a quebrar a ideia ao qual o disco se propõe. O álbum foi gravado no estúdio da Phonogram com direção de produção de Roberto Santana e apresenta 10 canções e lançado em maio de 1977.

Refavela é Gilberto Gil no auge criativo e de sua sensibilidade. É um Gil conectado com seu tempo, ao mesmo tempo ancestral e com um olhar crítico sobre negro no Brasil. Como diz o manifesto incluso no disco “ Refavela, a franqueza do poeta; o que ele revela, o que ele fala, o que ele vê”. É isso que faça de Refavela um disco tão especial e atual.

*Rafael Aragão é jornalista e DJ.

 

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