Indemar Nascimento lança seu EP: Um mundo dentro de outro mundo

Fotografia: Tamires Allmeida/ Modelos Rilton JR, Gisele Soares e Ayomi Zuhri

No EP, as composições de Indemar vão transitar pelos diversos problemas sociais que atingem a comunidade negra

*por Henrique Oliveira

Um mundo dentro de outro mundo, esse é o título do EP lançado pelo rapper baiano Indemar Nascimento. O MC nascido e criado no bairro de Itapuã, que é conhecido pela música Tarde em Itapuã de Dorival Caymmi, mas Indemar vem diretamente de uma Itapuã que não é relatada na música de Caymmi, a Baixa da Soronha.

Indemar tem 23 anos de idade, é MC, poeta, militante, recita suas poesias nos ônibus de Salvador como poeta itinerante, que é uma das formas da qual ele tenta ganhar a sua vida, idealizador e dono da marca Agô Nilê, juntamente com a fotógrafa Tamires Allmeida. Agô Nilê é uma palavra da língua yourubá, de tronco linguístico originário da Nigéria, local de onde vieram para o Brasil milhares de africanos escravizados, que significa Licença na Casa, uma marca direcionada para o povo preto, com o intuito de trazer representatividade, afirmação, identidade, força e beleza através das camisas. E começou sua história no Rap em 2011, quando precisou fazer uma música numa gincana escolar, e utilizou o beat da música Vida Loka parte 2 de Racionais MC’s. Em 2012 fez parte do grupo 3 Versos, nesse mesmo ano lançaram o primeiro CD chamado “Quem somos” ouça aqui. No final do ano de 2014 Indemar sai do grupo 3 Versos e inicia sua carreira solo e lança o álbum “Uma alma gritante”, ouça aqui, que teve como base de construção o relacionamento entre Mãe e filho, trazendo narrativas sobre a infância, o amor pela Mãe e espiritualidade.

A poesia também faz parte da vida do MC, e esse ano juntamente com o grupo de Capoeira Raça organizou um campeonato de poesia denominado Slam da Raça. A divulgação pública do EP aconteceu no evento a ‘Arte invade a Soronha’ no dia 1ª de Outubro, que além de Rap teve uma ação comunitária distribuindo almoço, corte de cabelo gratuito, atividade para as crianças e graffiti.

E como a militância antiracista é uma das marcas de Indemar e do próprio Rap brasileiro, logo na introdução do EP o rapper cita os nomes de várias pessoas negras, homens e mulheres que foram mortas pelo Estado racista e genocida brasileiro, entre eles os 12 jovens da Chacina do Cabula,  o pedreiro Amarildo que foi sequestrado por Policiais Militares do Rio de Janeiro em 2013, Cláudia Ferreira da Silva que foi baleada e arrastada presa numa viatura, Cydrak MC que foi morto numa chacina ocorrida em Fevereiro no bairro da Liberdade, em que 8 pessoas ficaram feridas e 3 foram mortas em um bar, após homens armados chegarem atirando de um carro.

A Secretaria de Segurança Pública disse que Cydrak era um dos alvos do ataque, que seria ligado ao tráfico de drogas, versão essa que foi contestada pela sua companheira, que conseguiu no jornal Aratu Online o direito de resposta, numa busca de tentar descriminalizar a vítima, já que os órgãos policiais sempre visam criminalizar as pessoas mortas e baleadas, negando a sua humanidade. Cydrak deixou a sua namorada grávida, mais um órfão do genocídio racial. Davi Fiuza, um adolescente que foi sequestrado por PM’s no bairro de São Cristóvão em 2014, cujas investigações apontam para 23 Pm’s como os responsáveis. E logo após a cada nome ser citado, é dito a palavra presente, para afirmar que essas pessoas não foram esquecidas, mostrando que o EP não é um projeto individual.

(Indemar Nascimento/ Fotografia: Tamires Allmeida)

E segundo Indemar: “Cada irmão ou irmã preta que morre é uma parte minha que morre junto, pois existe uma naturalidade, e uma grande frequência de mortes de pessoas negras nesse país, o que não anula o fato de isso ser doloroso e que sempre temos que gritar, cada vida significa uma esperança. O braço armado do Estado vem fazendo muitas famílias chorar e se a gente simplesmente se calar a boca se acostuma com isso, tudo há de piorar, é preciso dizer os nomes e afirmar presente para gente falar, olha estamos aqui e continuaremos lutando”.

No EP as composições de Indemar vão transitar pelos diversos problemas sociais que atingem a comunidade negra, como Racismo, violência Policial, tráfico de drogas, pela a história do Brasil, a altíssima letalidade de jovens negros no Brasil, principalmente em Salvador, a quinta cidade com maior índice de mortalidade de jovens negros do país. E olhando esses trágicos números, podemos perceber que Indemar é um sobrevivente das estatísticas sangrentas, pois muitos como ele, que são negros e de bairros periféricos nem chegam aos 20 anos de vida. Ainda são abordadas a violência contra as mulheres, homofobia e desigualdade social. É realmente um mundo dentro de outro mundo, só que no fim das contas é o nosso verdadeiro mundo!

E sobre a escolha do título e seus significados Indemar nos conta que: “A foto de capa tem mais de um sentido, explicar de uma forma que fique sem espaços para dúvidas. O EP estar no youtube em foramto full e isso tem uma explicação, ele conta uma história e essa história é contada por esse casal, as músicas se ligam uma a outra, e tem como propósito falar dessa vida periférica, dessas dores, do que é ser negro. A música ‘Quebra’ que está no final ela faz toda a ligação de tudo o que se passa no trabalho, por isso foi a primeira a ser lançada antes mesmo do EP ficar pronto, e ser a última faixa. Um outro significado é representar no nome do EP a filha que Sis, esposa de Cydrak que foi assassinado, que ela carregava um outro mundo dentro dela. Por isso que vem a ideia de uma família preta, tendo ali 3 pessoas que simbolizam todas as famílias periféricas e negras.”

(A Arte Invade a Soronha/ Fotografia: Tamires Allmeida)

O EP teve as participações do grupo de Rap 16 Beats na música de nome homônimo ao título, Poeta com P de Preto em uma poesia sobre o papel do Racismo na negação da identidade negra e a busca pelo seu resgate, com uma pergunta direta, ‘Qual é a sua identidade?’, na faixa ‘Ratxs da city’ Jeferson Devon e Áurea Semiséria dividem os versos, e não é a primeira vez que Indemar e Áurea Semiséria gravam juntos, no EP de Áurea chamado Roxo GG, Indemar participa da música ‘Os de verdade’, veja aqui essa dobradinha.

A fotografia da capa foi feita por Tamires Allmeida, os modelos que representam a família negra são Rilton JR, Poeta com P de Preto, Gilese Soares a Deusa do Ébano e a filha do casal, Ayomi Zuhri, design gráfico feito por Yan Cloud, os beats ficaram por DJ Lone, Dimano, Robert Beat e Dactes, e produção executiva da Agô Nilê.

Entre no mundo de Indemar Nascimento:

Henrique Oliveira escreve para a Revista Rever/ Salvador

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