Literatura em papelão

Livro Cacimbas, de Joaquim Prata, publicado pela Chica Cartonera (Foto: Lourdes Morante)

Com caráter de negação à reprodutibilidade, produção artesanal e obras sempre únicas, a Chita Cartonera traz para Sergipe uma nova forma de produzir livros.

por Adele Vieira, Clarissa Martins e Lourdes Morante

Eloísa Cartonera, a pioneira no mundo

Funcionando de maneira autônoma e artesanal, a editoração cartonera começou em 2003 com a coorporativa Eloísa Cartonera criada em Buenos Aires pelo artista plástico Javier Barilaro e pelo escritor Washington Cucurto, num momento de crise nacional na Argentina. Esse projeto impulsionou um movimento cultural de editoras cartoneras que se espalhou de maneira progressiva pelo mundo e especialmente na América Latina.

Os livros cartoneros levam esse nome por serem produzidos com papelão – cartón, em espanhol – de caixas descartáveis coletado nas ruas ou comprado diretamente de cartoneros (profissão equivalente aos catadores no Brasil e que surgiu com o desemprego causado pela crise argentina de 2001).

Após passar pelos processos de corte e pintura artesanais, o papelão é reutilizado nas capas dos livros, que por sua vez podem ter como conteúdo textos impressos ou escritos à mão, e depois são cuidadosa e manualmente costurados às capas. Os resultados, por serem frutos de trabalhos artesanais, são sempre únicos e irreproduzíveis.

Essa foi a forma singular de editoração encontrada pela Eloísa Cartonera de publicar livros a baixo custo e de maneira independente, fugindo dos circuitos editoriais convencionais e ajudando o trabalho dos cartoneros.

O principal objetivo era promover a circulação de uma literatura que por vezes fica à margem do sistema de publicação instituído pelo mercado editorial, com a participação de diversos setores da sociedade no processo de criação e produção.

Cartoneras pelo mundo

Segundo levantamentos feitos em 2016 pelo selo editorial paulista Malha Fina Cartonera, existiam por volta de 183 cartoneras no mundo e permanecem ativas cerca de 110. Ainda de acordo com esses levantamentos, a maior parte das cartoneras em atividade concentra-se na América, seguida pela Europa e África, inexistindo na Oceania e tendo o Brasil como líder no ranking da América do Sul, com 19 cartoneras ativas.

 No Brasil, o movimento cartonero começou em 2017 na cidade de São Paulo com o coletivo Dulcinéia Catadora, que resultou da parceria dos fundadores Lúcia Rosa e Peterson Emboava com integrantes da Eloísa Cartonera durante a 27° Bienal de São Paulo.

Essa primeira editora cartonera impulsionou a fundação de várias outras pelo país, principalmente em Pernambuco, estado brasileiro com maior número de cartoneras ativas e o único do Nordeste a confeccionar livros de tal forma, de acordo com os dados da Malha Fina Cartonera obtidos em 2016.

Por que uma cartonera em Sergipe?

Sergipe nunca produziu pouco conteúdo literário. Ocupações e eventos como o Sarau da Caixa D’água em Lagarto, e o SLAM do Tabuleiro em Aracaju, propiciam o surgimento de um público interessado em saciar a ânsia de produções culturais na literatura.

Além de incentivar a manifestação de diversos talentos literários, Ana Rita Souza, integrante da Chita Cartonera, explica que o papel de uma editora independente na cena atual não só é fundamental por proporcionar a fomentação da cultura, mas também para dar continuidade às produções artísticas.

Para ela, uma vez que essa editora surge e se dispõe a publicar artistas que dentro do cenário editorial convencional tem espaços negados – seja por falta de interesse da editora pelo conteúdo produzido ou pelo preço exacerbado das publicações -, sua existência tornase uma ferramenta primordial para a expansão e emancipação da cultura local.

O estado de Sergipe, assim como tantos outros estados brasileiros, têm passado por um período de intensa efervescência cultural, essa ebulição demanda a necessidade de fazer registros para divulgação dos trabalhos realizados, assim como para perpetuar e servir de memória para a posteridade e é nesse cenário que a Chita surge e se funde.

Gravação da leitura do livro Cacimbas, de Joaquim Prata (Foto: Adele Vieira)

Por que Chita Cartonera?

A cartonera aracajuana carrega o nome de um tecido de algodão muito popular, não só no estado como também no país. Tons vivos, estampas de cores intensas e desenhos geralmente florais são as principais características visuais da chita, tecido indiano que chegou ao Brasil em 1800 após vários processos burocráticos, financeiros, culturais e também de melhorias.

Seu baixo valor de mercado foi fundamental para a popularização do tecido e o transformou em um dos ícones da identidade nacional. Inicialmente utilizado em toalhas de mesa e almofadas, a chita passou a ser usada também na confecção de roupas e em festejos populares, assim como nas publicações da Chita Cartonera.

Mas como surgiu a ideia de uma cartonera em Sergipe?

Foi justamente em Pernambuco, até então único estado nordestino representante das cartoneras, que a produtora audiovisual Thais Ramos teve o seu primeiro contato com esse tipo de editoração.

Ela participava do Festival de Inverno de Garanhuns 2017 quando conheceu a Mariposa Cartonera, editora cartonera pernambucana, na feira literária e percebeu que outras bancas também possuíam esse mesmo tipo de publicação. Ficou encantada com os livros feitos de papelão e até mesmo comprou um para presentear uma amiga, que hoje faz parte da equipe da Chita.

Durante a viagem de volta para a casa foi acompanhada por pensamentos como “por que não tem uma coisa dessa em Sergipe?”. Foi aí que percebeu que conhecia escritores com desejo serem publicados, possível público, e pessoas que poderiam construir o caminho entre as duas demandas.

Ainda em Pernambuco, já pensou em quem podeia compor a equipe a partir de suas formações acadêmicas ou habilidades. Ana Rita, formada em Letras, seria a editora dos textos, Euler Lopes a ajudaria nesse processo; Kaippe Reis seria ótimo no desenvolvimento das capas e na resolução de demandas mais corporativas; Marianna Viana teria o cuidado suficiente que o processo de montagem e costura dos livros necessita, além de poder desenhar nas capas; e Thainá Carline, formada em Design, seria a responsável pela diagramação dos livros e do projeto visual da marca.

Mesmo com o projeto inicial já estabelecido na mente de Thais, era incerta a reação de seus amigos, assim como a concretização da ideia. Porém, num encontro casual, onde nem todos do grupo idealizado estavam presentes, a sugestão foi feita e acatada, e rapidamente os grupos de planejamento foram criados nas redes sociais Facebook e WhatsApp. Assim nascia a Chita, primeira cartonera sergipana.

E como financiar essa ideia?

O crowdfunding, plataformas de financiamento coletivo, foi a maneira encontrada pelo grupo de conseguir custear o projeto. No dia 3 de setembro a Chita iniciou sua campanha através da plataforma Catarse, com uma meta estabelecida (dois mil reais), sem data para finalização da campanha (campanha flexível) e oferecendo recompensas para quem contribuir financeiramente. Em oito de outubro o crowdfunding finalizou-se com arrecadação de 35% a mais do objetivo inicial.

Durante a campanha, vídeos-poemas e de leitura foram gravados pelo coletivo, com a função de divulgar e promover a editora. Os vídeos contém fragmentos dos livros que serão publicados e são postados na rede social Instagram da editora. Esse foi uma das formas de publicitar a editora e atrair interesse de investimento do público.

O dinheiro vai ser utilizado na impressão e produção de uma grande quantidade de livros que serão entregues como recompensas aos apoiadores do projeto no Catarse. Com a quantidade restante de livros, o coletivo planeja participar de eventos culturais e feiras literárias com o intuito de vendê-los, assim como comercializá-los através do site que será criado em breve.

Gravação da leitura do livro Cacimbas, de Joaquim Prata (Foto: Adele Vieira)

Proibido mulheres: na escrita, nos prêmios e publicações. Mas não na Chita.

A Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), reconhecida por muitos como o evento literário mais importante no Brasil, esteve rodeado de polêmicas sobre a falta de diversidade dos autores que participavam das premiações, publicações e até dos debates. Ser homem e branco, aparentemente era o pré-requisito que a FLIP exigia para participar do evento. Em 2014, as mulheres representavam apenas 15% da programação e só em 2017 a festa literária reuniu mais autoras do que autores.

Desse modo, destaca-se a importância do caráter de resistência do coletivo Chita Cartonera, enquanto precursores de uma editora sergipana LGB e um espaço de fortaleza feminina é fundamental. Embora tenha acontecido de forma inconsciente, a editora é composta por mais mulheres que homens e todos seus integrantes são lésbicas, gays ou bissexuais.

Dentre, suas primeiras publicações está o livro Coração Despovoado, da mulher lésbica e poeta Débora Arruda, o que existe como resposta aos ideias da editora. Na cena da literatura alternativa sergipana, tudo segue um movimento cíclico e orgânico, numa tentativa de resistência aos modos capitalistas de produção de cultura. Nesse trajeto ocupações culturais morrem assim como tudo que é vivo, para dar espaço à outras.

Nesse novo existir, a Chita Cartonera chega, seja por resistência literária, seja por resistência política, já que tudo passa por essa onda, a editora conquista a cena não só pela sua importância inegável para dar continuidade a vida da cultura sergipana, mas por reescrever a história de quem faz a literatura contemporânea do estado.

2 comentários sobre “Literatura em papelão

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