Racismo na Globo tudo a ver. Seguindo o slogan

Professora faz um análise das telenovelas da globo como reprodutoras do racismo no Brasil

*por Angelica Gomes

Recentemente, assisti a um documentário chamado: A negação do Brasil – O negro nas telenovelas brasileiras. O documentário faz uma reflexão sobre os papéis interpretados por atores negros nas novelas brasileiras com um caráter negativo e estereotipado.

Partindo do ponto de vista de que a novela ainda é um dos produtos mais importantes da televisão e um elemento significativo na construção da identidade cultural e social do país, nota-se que ela se constitui facilmente em um reforço para o racismo.

Ainda hoje, as telenovelas, tem grande influência na opinião pública em diversos temas como: drogas, saúde, homossexualidade, empoderamento feminino ou corrupção. Elas abrem espaços para discussões e redirecionam o olhar do telespectador. Mas quando o assunto é as questões raciais, ainda é uma discussão menor.

Por exemplo, na atual novela das nove, O Outro Lado do Paraíso, a menina negra é uma empregada sensual, se apaixona pelo rapaz branco, classe média e por isso é vítima constante do racismo da patroa. Nesse sentido, as diferenças físicas ainda são utilizadas como rótulo qualitativo e indicativo de suposição de inferioridade ou de superioridade.

É uma mensagem oculta, mas real que tenta justificar uma “superioridade étnica” a partir de atributos herdados biologicamente, ou seja, a cor da pele determina algo “não confessado”: a relação de poder e dominação de determinados grupos sobre outros.

A professora de Antropologia Solange Martins Couceiro de Lima, no artigo: A personagem negra na telenovela brasileira: alguns momentos”(Revista USP, 2001) fala que “um dos estereótipos mais conhecidos, explorados, decantados em prosa e verso, é o da mulher negra sensual, a mulata, termo que se tornou um signo para invocar sensualidade e outros atributos a ela ligados”. Para ilustrar vejamos a imagem da atriz, Erika Januzza, representando sua personagem na novela atual das nove.

A fotografia ao lado mostra duas atrizes dançando. Destaca, porém, a sensualidade da atriz negra (Erika Januzza) e os trajes comportados da atriz branca (Bianca Bin). Valoriza um padrão de beleza, até a pouco tempo desprezado, mas reforça o mito racista que há somente nos negros atributos físicos, deixando a emoção e a inteligência como privilégios dos brancos.

Na novela Pega Pega, Dom (David Junior) é adotado por Sabine (Irene Ravache) quando ainda era uma criança, sendo criado na Europa. Mas é filho biológico de uma família pobre e namora com uma camareira negra. A mulher branca “salva” o menino negro da pobreza e ele retorna para sua família negra e pobre com dinheiro para ajudá-la. O filho rico e negro vem unir as raças, os pobres e ricos, e assim nessa visão a democracia racial, crença de que no Brasil não existe racismo, se concretiza. Mesmo Dom (David Junior) sendo um homem rico, o negro é retratado como alguém subalterno, porque o personagem só se torna rico devido ter sido adotado por uma mulher branca e rica.

Segundo a antropóloga da ECA-USP, “o que em linhas gerais se pode perceber de modo quase recorrente é que as tramas que se iniciam criam expectativa de uma discussão mais séria sobre a questão racial mas, frequentemente, acabam por diluir, diminuir ou atenuar a proposta inicial”.

Ela afirma ainda, por rotularem a telenovela de “obra aberta”,

no sentido de que a trama inicial sofre mudanças ao longo dos 5 ou 6 meses de duração. As mudanças ocorrem por muitas interferências que advêm da queda nos índices de audiência, dos grupos de discussão que a TV Globo reúne para aferir a opinião do público e que geralmente são convocados no início, meio e fim de cada novela, dependendo dos indicativos de oscilação na audiência.

Diante disso, a reviravolta que todos afirmam que acontecerá com a personagem de Erika Januzza poderá ou não acontecer devido ao índice de audiência. E pela aceitação ou não da sua personagem pelo público.

Apesar da Rede Globo, representar na maioria das suas telenovelas a moderna sociedade brasileira, os negros (metade da população brasileira) e afrodescendentes ainda são coadjuvantes quando falamos em telenovelas, séries, propagandas. Devido o canal ser aberto e alcançar um público grande, as telenovelas e séries, bem como as propagandas, são responsáveis por elaborar e propagar modelos identitários que serão referência para as pessoas que assistem.

É necessário, debatermos as maneiras preconceituosas e desigual ao qual o negro é representado nas novelas a fim de que possamos indicar as relações historicamente construídas no Brasil pelos negros, marcados pelo racismo, o preconceito e a discriminação.   Para que com isso possamos superar o “mito” de que no Brasil não existe racismo. Nessa  perspectiva, proporcionar mais estudos sobre a diversidade cultural e contribuir para que as  Políticas de Promoção da Igualdade Racial sejam cada vez mais discutidas na sociedade.

*Angelica Gomes é Mestre em Políticas públicas e Educação pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e Professora do Colégio Pedro II.

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