Quem são os Beatmakers da cena Rap de Salvador? Um bate papo com King Daka

Foto: Jorge Neto

Além de Beatmaker, King Daka é dono do estúdio Terror da Leste, idealizador do selo Otra Fita e produtor cultural

por Henrique Oliveira

A Revista Rever inicia uma série de entrevistas com os produtores musicais do efervescente cenário do Rap em Salvador, os Beatmakers, quem são os sujeitos que estão por trás dos Boombap, dos Traps e das batidas dos grupos e MC’s da cidade? O intuito dessa série é dar voz e visibilidade a essas pessoas, que não são tão conhecidas e reconhecidas pelos seus trabalhos pelo público em geral.

E para dar o ponta pé inicial, a Rever conversou com Everton Estrela, ou para os que estão inclusos no universo do Rap e da cultural Hip Hop de Salvador, King Daka, 26 anos de idade, morador do bairro de Pituaçu, onde também fica localizado o seu estúdio o TDL – Terror do Leste –. Daka disse que o incentivo para se tornar produtor musical veio do filme Ritmo de um Sonho, que conta a história de um cara envolvido com a criminalidade, que tem o sonho de se tornar rapper. O que é muito diferente na história de King Daka com a cultura Hip Hop, é que o primeiro contato através do seu Pai, que te deu um álbum do cantor Norte Americano, Eminem, porque geralmente as famílias acabam reproduzindo, infelizmente, o estigma de criminalização do Rap, que se torna uma barreira inicial na carreira de muitos artistas.

E além de Beatmaker, King Daka é dono do estúdio Terror da Leste, idealizador do selo Otra Fita e produtor cultural, já organizou quatro edições do Arte de Rua no Parque de Pituaçu, para ele, o Otra Fita estar para além da questão musical, na sua visão o papel do Rap é transformar a vida das pessoas, a cultura Hip Hop tem a capacidade de fazer o diferencial nas comunidades periféricas abandonadas pelo poder público, como estar o bairro de Pituaçu e que aqui é relatado. King Daka é produtor de MC’s como Digs – ouça aqui – James Lincoln – ouça – City Black – ouça – Grafi – ouça – e recentemente também passou a produzir dois MC’s que estão ganhando projeção nacional como DoisÁs, que já gravou um clipe solo e uma cypher no RapBox – ouça aqui ‘Perseu’ e a cypher ‘Exílio’ aqui. E Dark MC que também já gravou no RapBox – ouça aqui a cypher ‘Lírica do óbito’  – que em sua carreira solo após a saída do grupo Contenção 33, gravou seus lançamentos no Estúdio Terror da Leste com beat de King Daka, como ‘Cheiro de Maldade’, que tem participação de James Lincoln e Digs, ‘Pretos no Topo’ e a ‘Voz de um Pregador’, por exemplos.

King Daka disse que resolveu virar Beatmaker pela necessidade, tímido e humilde, ainda se considera em evolução, e que quando começou a produzir beat, ele mesmo não suportava ouvir o que fazia, pois não estava satisfeito. Mas Daka considera que ainda falta reconhecimento e valorização por parte do público aos Beatmakers, a atenção ainda fica concentrada nos MC’s, e que mais importante do que ganhar dinheiro com o estúdio, é ver as pessoas com as quais trabalha acreditarem no seu próprio potencial e poder contribuir com isso. E para quem quiser gravar, o estúdio Terror da Leste fica na rua José Lima, bairro de Pituaçu, telefone para contato: 985525995

Revista Rever: Qual foi o seu primeiro contato com a cultura Hip Hop?

 King Daka: Em 2001 meu Pai me deu um cd de Eminem, aquele que tem a capa vermelha [The Eminem Show], a partir daí não conseguir mais parar, e meu Pai sempre incentivou para o Rap, me dava CD, e meu deu os CD’s de MV Bill e Racionais. Essa parada de ritmo musical de artistas negros, de família e ia escutando. As primeiras influencias foram essas, Eminem, MV Bill e Racionais eu fiquei viciado, até o meu nome tem sentido com as letras do Racionais, Daka, eu era tão fã que fiz meu vulgo nessa onda, pelo nome ‘Vida Loka’, que eu tirei o ‘Vi’ e o ‘Lo’, deixei o ‘Da’ e o ‘Ka’, aí surgiu DAKA. Eu era viciado em Racionais, aí os parceiros da favela veio me apresentando Expressão Ativa, RZO, Império ZO, meu Pai em 2005 me deu o DVD de Detentos do Rap, um DVD antigão, na cadeia, e acho que foi o primeiro DVD de Rap do Brasil. E ganhei um DVD do Espaço Rap de uns parceiros que me dava, eu não tinha como conseguir, aí uns amigos me dava e meu Pai também.

Em 2005 eu fui no primeiro evento de Rap em Salvador o ‘Boca do Rap’, que era organizado pelos caras do Fúria 1 e Pivô do Caos, que hoje se chama A Febre. Os caras são pioneiros na quebrada, A Febre, Verbo de Malandro, que eram os caras aqui da quebrada, e serviu como inspiração. Eu pensei comigo, esses caras cantam Rap e eu também quero escrever, gosto tanto de Rap, por que eu não vou tentar cantar? Em 2007 fundei um grupo com meus parceiros Prost, Xapa e Fri que foi o Holocausto Periférico e comecei a me envolver e sentir a necessidade de gravar, fui procurar um estúdio lá em 2007, e o cara me disse “Pow mano, para você gravar é 50 conto, mais o beat é 150”, e eu era pirralho, não tinha nem 20 reais no bolso. E eu resolvi que eu iria aprender a gravar por mim mesmo. Eu vi o pai de um amigo gravando numa lan house com um cavaquinho, e me perguntei ele estar gravando com um cavaquinho, fui pergunta – ló como é que grava, e ele me ensinou ‘você baixa esse programa aqui o Audacity e começar a gravar’. Aí eu pensei, vou fazer um teste, vai que a base de Rap pega nesse bagulho? Aí comecei a gravar e a fazer umas gravações toscas, com aquele microfone de Skype, de PC mesmo.

A primeira gravação a gente pegou um micrfone da phillipes de karaokê com um cabo P2, e botamos na rua e dane – se a qualidade, a gente queria lançar qualquer parada. E eu pensei que não estava bom e que tinha que aprender, depois eu passei a me envolver na cena e conhecer as pessoas, como os caras do Realidade Sangrenta, Snow, que depois a gente criou a Família Kingsta, e que foi me passando uns programas melhores e me dando uns toques, tipo, ‘vocês escrevem bem mas gravação ainda tem muito para melhorar’, ele foi sincero em dizer que a gravação não estava boa, e isso foi o que me fez buscar evoluir e aprender a gravar. E a partir de 2008 e 2009 eu passei a me envolver mais com produção mesmo, e em 2010 eu gravei de verdade. Eu comprei aqueles microfones, que apesar de terem sido amadores, já consegui uma qualidade bem melhor, pelo fato de eu estar desenvolvendo como autodidata, sem ter estudo, nada, nunca fiz curso nem de produção para música e nem para ser Beatmaker, foi de aprender ‘natoralmente’. E aqui em Salvador não tem essa oportunidade para quem quer aprender a produzir, tinha um cursos, mas era para quem estudou em Escola pública, eu não estudei em Escola pública porque eu fui bolsista numa Escola particular. Eu não tive essa oportunidade.

Revista Rever: Quando você resolveu se tornar Beatmaker e como foi o processo de formação, você tomou algum curso?

King Daka: A questão de virar Beatmaker foi mais necessidade, meus primeiros beats eu fiz na cara e na coragem, porque eu não sabia muito mexer no programa, um parceiro passou a FL, eu tentei mexer, mas o bagulho era demo, você tinha que fazer o beat e converter, então do jeito que saia você tinha que botar, não tinha como você mexer e fazer mixagem, e eu não sabia o que era mixagem e masterização, foi mais na coragem. E eu virei Beatmaker de 2012 para 2013 que eu fiz os primeiros beats, e um amigo passou o programa, apesar que antes eu já tinha programa mas eu não sabia coisa nenhuma e largava de mão. Em 2013 já veio os manos da City Black encostando em mim, eles gostavam e diziam que meu beat era bom, mas eu não gostava, não suportava meus beats, mas eles gostavam e incentivavam, eu fazia de dois a três beats e eles levavam e gravavam. E disso eu fui me aprofundando, procurando vídeo na internet, vários vídeo aulas, aqui em Salvador não tem como você fazer um curso de produção musical, só se for para fazer um curso de produção musical online, para pagar e sai caro, porque a gente não tem esse retorno. A pessoa vai pagar mil reais em um curso, para ter um retorno daqui a alguns anos, porque a gente não tem condição de vender um beat aqui em Salvador por 150 ou 200 reais, como os caras de fora de Salvador. Você tem que vender mais barato, porque a galera daqui da cena também não estar tendo retorno com show. E quem faz show e ganha um dinheiro assim mais alto é um cachê de 500, 300 reais, não ganha um valor alto como os grupos de São Paulo. E a gente não tem uma mídia para se divulgar. É complicado.

Um cara que me incentivou mesmo a fazer beat foi Snow, o cara ‘bagaçava’ no beat, apesar de não saber de teoria musical, não sabia as notas das músicas, mas ele conseguia fazer umas produções muito boas, uns beat Trap, uma pegada Atlanta, ele me incentivou a conhecer o Trap, porque eu era fã das linhas mais gangsta como Facção Central, Realidade Cruel, A286, e ele me disse que eu precisava conhecer mais coisas, aí fomos procurar o Rap de Brasília, os caras da Tribo da Periferia, que já fazem uma produção mais independente, tem uns beat foda, um estilo próprio deles de Brasília, e tem um perfeccionismo, eles estudam muito e tem essa condição. E aqui em Salvador de espelho para mim é Servo e Diego 157 que eu viajo muito nos Boombap dele, apesar de eu não ter muita intimidade. Mas Servo foi um cara que veio aqui me ensinar a samplear, porque eu não sabia samplear e fazer um Boombap. E ele veio em um dia só e me disse, olhe você vai fazer isso aqui, se vire, mas a forma é essa aqui. Você vai cortar o sample assim, a bateria do Boombap é mais ou menos essa, vamos tentar fazer um beat, faça um teste, e foi até um beat de um parceiro meu, Grafi. E ele até parou de produzir beat, dizendo que iria deixar o legado para mim. E depois eu vi que estava melhorando e evoluindo. E Trap sempre foi a minha cara, porque eu já sabia tocar uns instrumentos, e consegui aprender mais rápido. O Boombap foi um processo extremamente complicado, porque a minha linha era o mais o gangster, até o Trap gangster, do que Boombap.

Foto: Jorge Neto

Revista Rever: Além de Beatmaker, você também é dono do Estúdio Terror da Leste [TDL], como foi montar esse estúdio?

King Daka: A fundação do TDL – Terror Da Leste – foi no ano de 2010, eu mesmo fundei, mas não tinha computador para gravar não, eu ia para casa dos parceiros que tinha computador para gravar. Eu sabia gravar e os caras tinham o computador, só que quem sabia gravar era eu, e daí a gente foi melhorando, como eu disse, o primeiro microfone era de Skype, tem até um vídeo e tudo a gente gravando com um microfone sem fio na casa de outro parceiro, só que com um cinto amarrado e segurando o microfone, não tinha pedestal, a gente não tinha dinheiro, não tinha condições. E nessa época não se tinha a facilidade de comprar um microfone condensador, que é um microfone de estúdio, comprar uns fones de qualidade, monitor de referência, não tinha, eu não trabalhava e ainda estava estudando. E em 2013 eu decidi que essa parada deveria virar um estúdio realmente, a gente comprou meu primeiro microfone de estúdio e montou lá no meu quarto, e a gente lançou dois CD’s nessa fase, que foi o CD da Família Kingsta e o do Holocausto Periférico que era meu grupo, chamado ‘Viver de Rap’ em 2013. E que foi totalmente produzido por mim, não os beats, porque alguns beats eram de internet e na época eu não fazia tanto beat assim, eu participei muito mais na questão da gravação, masterização e mixagem.

E com isso eu passei a me aprofundar mais em produção, em gravação e cresceu o estúdio. Em 2014 eu parei e entrei no trabalho. Só que os caras da City Black foram em minha casa me procuraram e incentivaram, dizendo para eu não podia parar de gravar, que queriam continuar gravando comigo e não tinham onde gravar. Aí eu botei na cabeça de voltar a produzir e retomar meu estúdio. E quando estava trabalhando eu comecei a juntar dinheiro para comprar as coisas, microfone novo, e foi um processo, não foi tudo de uma vez da forma que se encontra hoje. E foram 2 anos montando, comprando uma parada aqui hoje, daqui a 3 meses eu junto para comprar outro, porque eu ainda estava pagando. Eu comprava os kits muitos na OLX, que era mais barato, porque se eu fosse comprar na loja iria ser mais caro e eu não iria ter condição. Eu comprei meu microfone, depois montei o computador, aí comprei o monitor de referência, que era não esse que tenho, depois de um bom tempo juntei dinheiro para comprar essa cabine no final do ano passado. E paguei até barato, e se eu falar o quanto paguei ninguém acredita, comprei por 400 reais, ela pronta, e foi onde melhorou a qualidade das gravações, com uma acústica legal, se a galera falar lá fora, eu posso gravar ouvindo o que estar sendo gravando, é como se fosse gravar num estúdio fechado. E no meado desse ano eu parei o processo de comprar equipamento, e foquei realmente no estúdio, larguei o trabalho e estou tentando viver agora disso. Porque aqui em Salvador eu acredito que as pessoas não tem condições de pagar o verdadeiro valor da produção, nos estúdios profissionais se paga 120 reais a hora, aqui eu cobro 40 ou 50 reais uma faixa, a faixa pronta, e 120 reais é só a hora do cara ir gravar, fora o processo de mixagem e masterização, que já é outro valor. Não é fácil.

Revista Rever: A cena Rap de Salvador está em uma crescente, com vários mc’s e grupos surgindo, mostrando que na cidade não tem só Axé. Só que mesmo assim, o reconhecimento até para os cantores e grupos ainda é tímido. E para os Beatmakers é ainda mais difícil, eles precisam ser mais valorizados na sua opinião?

King Daka: A valorização está muito mais ligada a questão dos eventos e dos MC’s, quem é produtor e Beatmaker não tem essa valorização, essas pessoas ficam por debaixo do tapete, com a parte pior entre aspas, que é a da produção, que é ficar dentro estúdio ouvindo a música até achar que ela estar pronta, mas não tem esse valor, a gente fica sempre sobreposto. Quem são os produtores hoje que são conhecidos? Dactes, e o estúdio dos caras da Balastroda. É um estúdio aqui e outro ali, e mesmo assim não é uma supervalorização, porque a gente tem que baratear o nosso produto, vamos supor, o que seria 100 e 150 reais em outros lugares, aqui em Salvador a gente vende o beat de 40, 50 reais, você tem que diminuir, tem pessoas que cobram 250 reais no beat, a gente cobra no máximo 100 reais. Mas são poucos aqui da cena que tem dinheiro para pagar mais de 100 reais, porque ele não vai ter o retorno, até mesmo os MC’s assim da noite para o dia.

É uma faca de dois gumes, a gente faz nosso trabalho, e se tem feito um trabalho crescente dos produtores, eu acho, não tem uma superprodução, mas vem numa crescente, inclusive da minha parte, eu acho que estou evoluindo, não me sinto em um nível tão profissional ainda, por exemplo, no nível Lotto –  Pedro HYPERLINK “https://www.youtube.com/watch?v=HP7XGnG6tkA&t=374s”Lotto – e se você for comparar o estúdio dele com o meu, é bem menos, mas realmente ele não era daquele jeito, foi uma crescente. E eu acho que todo mundo estar nessa expansão e tende a crescer, só acho que tem que prestar mais atenção, não tem essa mídia focada em quem é Beatmaker, ninguém nunca tentou olhar quem era que estava movimentando a cena por trás, e quem é que estar produzindo essas músicas que a galera estar escutando? Não tem quem divulgue, e acaba que a gente fica mais para trás dos caras que produzem fora daqui. E você até tem uma mídia em cima de Lotto, de TH que produz o Primeiramente, eles tem quem os divulguem na produção, e aqui nós ainda estamos escondidos, não tem nada dito. Ainda falta a valorização e o reconhecimento, o público ainda foca muito no MC, na escrita, mas se a letra passa um sentimento, é porque também tem o papel do produtor.

Revista Rever: Explica para gente o que é o selo ‘Otra Fita’, quem são as pessoas envolvidas e os artistas que fazem parte dele?

King Daka: O Otra Fita na real não foi fundado com a intenção de ser um selo, seria uma marca mesmo de amigos, porque a nossa intenção era só as blusas, a gente fez 12 blusas e eu me afastei por 2 anos, eu fundei, mas sair. Só que quando eu voltei, já foi com um outro propósito, porque quando eu me afastei os cara continuaram com o Otra Fita, indo para os eventos, só que sempre com a blusa e quando chegava nos locais chamavam a atenção, porque ia 10 a 15 pessoas com a camisa que era um grupo de amigos, e chama a atenção, as pessoas com a blusa, tipo torcida organizada, e quando chega com a camisa é logo identificado. E os caras conseguiram expandir, eu pensei que agora é a hora de fazer crescer mais, e como eu me envolvia com Rap, e já tinha eu e Prost, que era do Holocausto [Periférico] e eu pensei em chamar os caras do City Black, que foi o primeiro grupo a entrar no Otra Fita como selo, e eu perguntei se eles queriam fazer parte e eles aceitaram, aí Prost veio me apresentou Digs e o Rapnozes, e hoje Digs também faz parte do selo, aí depois veio Neto ‘Cogumelo’, e Alan  que hoje é o ‘Cabeça de Nego’.

A gente fez o primeiro evento que foi o Arte de Rua, fizemos as nossas apresentações e passou um tempo James Lincoln entrou no Otra Fita, e no início do ano Dark MC entrou e teve uma crescida real para gente, porque ele já tinha um público fortalecido e nós já tínhamos um público do nosso trabalho aqui da comunidade pelo fato dos eventos que vínhamos fazendo, depois entrou DoisAs e Graffi. O Otra Fita como selo vai para além do Rap é uma família, porque se um está com problema o outro chega para fortalecer, a gente quer fazer uma parada que movimente a cena do Rap de Salvador e de expansão, que não fique só preso aqui na cidade. A gente vê que Dark está fazendo show fora, teve a oportunidade de ir para São Paulo, e que além de ser uma oportunidade para ele, foi uma oportunidade para gente também porque ele divulgou o Otra Fita por lá, Graffi foi para Aracaju, James já está indo para outras quebradas, os caras estão fazendo evento aqui e ali, eu estou produzindo, e está vindo gente de vários cantos aqui no estúdio, e o estúdio também movimenta o selo, por fazer parte, mas não é o selo. O estúdio é Terror da Leste e o selo é o Otra Fita.

E eu por ser o frente, sou o cara que dou conselho e produção, que é o cara que fica preso aqui nesse quarto, matutando planos, eventos, fazendo reunião, porque tudo aqui é decidido por votação, passo as ideias e apresento, e nas reuniões decidimos o que vai ser bom e vamos seguindo o planejamento e soltando os trabalhos. E nós estamos crescendo assim, por meio de muita conversa, troca de ideia, e eu aprendi muito disso na empresa em que trabalhei, reunião não para repreender, mas para melhorar e saber o que está se passando, por isso que estamos nessa crescente, nós não vemos só os defeitos é mais achar as soluções. E tem Eme Tavares, que é assessora do Otra Fita e fica responsável pela organização, planejamento, o desenho das camisas, por criar e executar os projetos, administra a rede social, o fechamento de contratos e parcerias.

Arte de Rua 3ª Edição/ Foto: Gabriel Castro

Revista Rever: O ‘Otra Fita’ organiza o evento ‘Arte de Rua’ no Parque de Pituaçu, faz campanha de arrecadação de agasalho e também já vi que vocês fizeram um mutirão de limpeza do próprio Parque de Pituaçu. Fala um pouco dessas ações.

King Daka: A visão da gente é que nós não temos um governo e os políticos que vão fazer, se eles não vão fazer nós vamos ficar sempre na merda, e temos que buscar o diferencial dentro da nossa comunidade, eu acho que nós podemos fazer o diferencial, porque tem muita gente aqui da comunidade que é envolvido com a gente, entre nós. A próxima meta nossa é um mutirão na praça, com pintura, graffiti, e reformar a praça, não vai ter nenhum envolvimento político – partidário, vai ser nós mesmos fazendo, a comunidade do Pituaçu se envolvendo, que é a Rádio Comunitária, é um parceiro da barbearia, sou eu com o Rap é um parceiro que graffita, é outro que pode trazer uns poetas, que é um poeta aqui do bairro que sempre ajuda a gente. Porque se a gente não fizer, a praça vai ficar abandonada, ano que vem é ano eleitoral e eles vão dizer que foram eles que reformaram, e eu não quero passar por isso, pelo o que eu sei, pois sou morador do bairro de Pituaçu desde guri, todos os políticos, até os que moravam aqui e foram Vereadores, falavam com nós na época da eleição e aí todo mundo passa, depois que acaba a eleição você não vê nenhum aqui no bairro, só fazem o tal do banho de asfalto, que é reformar o asfalto da rua e a praça continua na mesma, a última reforma da praça tem 12 anos, meu filho não era nem nascido, eu tenho um filho de 4 anos que não pode brincar na praça, eu brinquei na praça, joguei gude, não pode pow, os moradores não se sentem a vontade na praça. A meta da gente é essa, que o morador do bairro e quem venha de fora se sinta a vontade ao chegar no Pituaçu e diga que estar chegando em um ambiente massa, e a gente quer mostrar que independente de governo ou não, nós querermos fazer que as pessoas se sintam a vontade de aproveitar a praça, como foi com o Parque [Pituaçu] e o Arte de Rua, a galera não estava mais afim de ir para o Parque de Pituaçu, o Parque estava morto, eu vi porque eu passei 3 anos morando no bairro do São Caetano, voltei e vi o Parque abandonado, senti vontade que isso tinha que mudar, aí eu troquei ideia com a galera, que nós tínhamos condições de fazer um evento lá sem precisar de relatório, pelo fato de eu fazer o evento na praça, com o intuito de movimentar e trazer a galera de volta ao espaço do Parque.

E a gente fez o primeiro Arte de Rua que foi em Agosto, com batalha de MC, e foi um teste para gente ver o que iria acontecer, e deu uma boa quantidade de pessoas para um teste, depois teve a segunda edição, e deu gente também, e ficamos um tempo sem fazer, porque estávamos nos organizando, porque a gente sempre dar um tempo para soltar uma boa quantidade de faixas, para depois voltarmos com o lançamento e o evento, que é planejamento também. A gente deu uma pausa de Maio para cá, está chegando Dezembro e nós vamos fazer, e que vai ser um evento beneficente para as crianças do bairro, que aqui tem um orfanato. E tudo que arrecadarmos será dado as crianças dos orfanatos e do bairro. E eu não posso ajudar com dinheiro, mas no que eu puder ajudar os moleques da quebrada eu faço, tem uns guris aqui de 9 anos que diz que quer cantar Rap, eu boto aqui dentro do estúdio para gravar. Eu gosto de ver isso, eu gosto de ajudar, e me sinto bem, porque se eu não puder ajudar eu só não atrapalho, mas o que tiver no meu alcance eu vou ajudar qualquer pessoa, e tem gente que não tem como pagar para gravar, eu digo pelo menos pague uma parte só então.

E para mim o Rap tem o papel de realizar o diferencial na vida das pessoas, a gente pode mudar a vida delas, James e outros caras que eram envolvidos realmente, os caras estão acreditando que o Rap vai mudar a vida deles, a gente trocar ideia e vê eles dizerem que eu faço com que eles acreditem no sonho, isso me faz bem, mais do que o dinheiro que vêm chegando, eu gosto me sentir bem por ver as pessoas bem, é coisa minha de vida, desde guri sempre foi assim. É que nem ser Professor, quando nós vemos um aluno se dando bem, as coisas boas vão acontecendo, é a mesma coisa aqui, eu sou muito incentivador. O nosso próximo projeto é esse evento, continuar com o nome Arte de Rua, vai acontecer o dia todo na praça, e já era para gente ter feito o Arte de Rua há muito tempo, mas nós tivemos uns problemas, pelo fato de perdermos o espaço do Parque de Pituaçu, estamos tentando recuperar, para fazer evento lá, só que o principal agora é reformar a praça, porque a gente quer reativar esse espaço, fazer batalha de MC semanal, que pelo fato de ter o nome Otra Fita a galera sabe que sempre é um evento legal. O último evento que eu colei foi a Batalha da Ativa, e a gente ajudou no som, que foi doado pela gente, um evento dos outros, mas no que a gente puder ajudar, e a gente tem condições de ter um som para fazer evento, que é de um parceiro da comunidade mesmo, é tudo feito aqui, o fotógrafo é daqui, um amigo que queria a minha câmera, que eu desse para ele, e eu disse que ele iria tirar umas fotos, mas não iria dar a minha máquina, aí partir disso, desse incentivo, ele foi comprar uma câmera e já cobre vários eventos. E o projeto do Otra Fita é esse, incentivar coletivamente.

Henrique Oliveira é colaborador da Revista Rever/ Salvador

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