Kelly Key: uma análise feminista

Divulgação.

Kelly Key deveria ser lembrada como vanguarda do empoderamento da mulher brasileira através do mundo pop

*por Marília Souza

O feminismo ganhou força graças ao advento da internet em muitos lugares no mundo. Embora a luta feminista não se resuma a isso, a visibilidade dada ao tema graças às redes sociais e aplicativos deve ser levada em consideração. Essa força ganhou ainda mais peso quando cantoras pops, funkeiras, mulheres do hip hop e outras, adotaram a pauta em suas músicas. O fato é que, há muito tempo o feminismo está presente nas letras de grandes artistas nacionais e internacionais, mesmo quando o termo não era dito explicitamente.

Empoderamento feminino sempre veio sendo destrinchado e cantado por cantoras nacionais. Cantar a liberdade feminina em relação a relacionamentos, ao uso de seu corpo ou ao de gerenciamento de sua vida, foi usado por cantoras como Sandy, Tati Quebra Barraco, Shania Twain e Kelly Key entre os anos 1990 e inicio dos anos 2000. Além do empoderamento feminino, mulheres já abordaram a desigualdade de classes, como por exemplo a música mais famosa do grupo As Meninas.

Trago algumas letras da cantora Kelly de Almeida Afonso Freitas, conhecida como Kelly Key, que fez sucesso no Brasil no início dos anos 2000. O intuito é demonstrar como a cantora deveria ser lembrada como vanguarda do empoderamento da mulher brasileira através do mundo pop.

Baba Baby

“Coitado!/ Coi coi coi coitado!/ Você não acreditou/Você nem me olhou/Disse que eu era muito nova pra você/Mas agora que cresci você quer me namorar /Você não acreditou /Você sequer notou/Disse que eu era muito nova pra você/Mas agora que cresci você quer me namorar /Não vou acreditar nesse falso amor/Que só quer me iludir me enganar isso é caô /E pra não dizer que eu sou ruim /Vou deixar você me olhar/Só olhar, só olhar, baba/Baby, baba/ Olha o que perdeu/Baba, criança cresceu/Bem feito pra você, é, agora eu sou mais eu/Isso é pra você aprender a nunca mais me esnobar/Baba baby, baby, baba, baba /Baby, baba”

Estamos acostumadas a ouvir em diversas letras machistas os cantores falarem de novinhas, que no caso seriam as crianças hipersexualizadas pela cultura do estupro machista e patriarcal ao qual estamos submetidas.

Kelly conta a história de uma menina que desejava um homem mais velho (o que também nos é imposto por essa mesma cultura), e que ele não quis namorá-la, mas que ela hoje o esnoba após ter adquirido maturidade e autoconfiança.

A música traz para as mulheres a possibilidade de dominação de seus corpos, no sentido de não se sujeitar ou se submeter unicamente aos desejos dos homens, assim como o conceito de autoestima e valorização das qualidades femininas.

A prática apresentada e até algumas palavras utilizadas são falhas que muitas cantoras correm o risco de cometer, como por exemplo, Mc Carol cantar a música “100% Feminista” e em seguida cantar “Prazer, amante do seu marido”. São contradições que estamos sujeitas a todo momento pela formação que recebemos culturalmente.

Cachorrinho

“Sit, junto, sentado, calado/Sit, junto, sentado e calado/Se tem uma coisa que me deixa passada/É gritar comigo sem eu ter feito nada/Se tem uma coisa que eu não admito/É gritar comigo/Você gosta de mandar/Você só me faz sofrer/Você só sabe gritar/E grita sem saber/Mas sem mim você não vive/Sem meus cuidados amor/Fala baixinho comigo/A sua dona chegou/Vem aqui que agora eu tô mandando/Vem meu cachorrinho, a sua dona ‘tá chamando/Vem aqui que agora eu tô mandando/Vem meu cachorrinho, a sua dona ‘tá chamando/Sit, junto, sentado, calado/Sit, junto, sentado e calado”

A letra de cachorrinho é uma clara exposição de uma atitude machista e abusiva ao qual a personagem é submetida diariamente. E a partir de sua indignação com o cenário ela parte para a ação. Assim como diz Paulo Freire com a frase “Quando a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é ser o opressor”, a saída que a personagem encontra para as situações de abuso em que ela vive é a de se vingar do opressor reproduzindo a sua ação.

Hoje, muitos homens estariam gritando “abaixo a misandria” por conta dessa atitude, mas, diferentemente de misandria, a reprodução do machismo existe entre as mulheres. O que Kelly traz aqui é um incentivo para que as mulheres saiam de situações humilhantes ao qual são expostas.

Por causa de você

“Por causa de você/Não uso mais batom/Rasguei meu short curto/Diminui meu tom/Troquei os meus amigos/Por alguém que só me arrasa/Por causa de você/Não posso mais entrar em casa/Por causa de você/Perdi minha liberdade/Te entreguei minha vida/Só fiz tua vontade/Briguei com o mundo/Larguei tudo Eu não olhei pra trás/E agora vem você/Me dizendo/Que não quer mais/É ou não é pra chorar?/É ou não é pra/Diz você…/É ou não é pra chorar?/Quando alguém/Não sabe amar/É ou não é pra chorar?/É ou não é pra/Diz você…/É ou não é pra chorar?/Se coloca/Em meu lugar/O que é o amor?/Eu não sei/Sinceramente já pensei/Sinceramente eu não sei/Pra que tem um coração?”

Essa pode ser a música mais denunciativa de relacionamento abusivo que podemos já ter ouvido nas rádios brasileiras. A descrição das situações são fortes e reais, se assim podemos dizer ao fazer alguma comparação com a vida amorosa da cantora.

Além de alertar para práticas abusivas, Kelly questiona as mesmas práticas ao serem vendidas as mulheres como forma de amor. Essa música é quase um apelo para que as mulheres que passam pelos mesmos traumas percebam que não é amor, é cilada e elas têm que procurar ajuda.

Chic Chic

“Chic…chic…Chic…Chic… /Chic…chic…Chic…Chic… /Ninguém me entende quando eu aumento o rádio /A vida que eu levo nego pensa que é fácil /Ninguém me entende quando eu aumento o rádio /E fico rebolando na frente do espelho /Ninguém me entende quando eu aumento o rádio /A vida que eu levo nego pensa que é fácil /Acordar, lavar, varrer, passar /De cabelo em pé assim ninguém me quer /A unha cruz credo né? /Ainda tenho que aturar a família do mané /Faz isso, faz aquilo, nhanhanhanha, o paciência /Eu deixo tudo limpinho, você bagunça tudinho /Assim eu não aguento mais /Eu quero ser famosa, ser uma grande artista, gravar comercial,ser capa de revista /Eles vão ver só quando minha música tocar, vou dar maior gritão,Ahhhhh /Eu vou passar batom, chic…chic…chic…chic… /Eu vou ficar bonita, chic…chic…chic…chic… /Segura. Eu vou rebolar,vou rebolar,vou rebolar /Eu vou passar batom, chic…chic…chic…chic… /Eu vou ficar bonita, chic…chic…chic…chic… /Segura. Eu vou rebolar,vou rebolar,vou rebolar/chic…chic…chic…chic…”

Podemos ver a domesticação da mulher e a opressão ao prendê-la em papéis pré-determinados pela sociedade. Com o uso do diálogo fácil, Kelly mostra como relacionamentos podem culminar na prisão da mulher em tarefas domésticas, no seu impedimento de trabalho fora de casa e até na perda da sua vaidade. O apelo principal é pela emancipação da mulher, ou pelo seu empoderamento, como gostam de tratar. A questão é que ela apresenta a necessidade das mulheres terem domínio pleno de suas vidas.

Ainda em músicas como “Adoleta”, “Pegue e puxe”,“Anjo” e tantas outras, Kelly Key coloca a mulher como protagonista de sua vida. Mesmo que haja contradições sobre as práticas e alguns deslizes nos discursos, a cantora trata do empoderamento feminino de forma simples e realista.

Usando a música como forma de alerta e protesto, as cantoras experimentam um dos avanços que o feminismo proporcionou para a sociedade, o de pensar a partir de suas próprias experiências e da liberdade de expor as deficiências sociais. O feminismo não nasceu com as músicas da cultura de massa, mas ganhou força e visibilidade. É preciso apenas lembrar que não iniciamos agora com Beyoncé, Kelly Key já te empoderava desde o início do século.

Um salve Kelly!

* Marília Souza é jornalista

2 comentários sobre “Kelly Key: uma análise feminista

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