Com gosto de mangue

Foto: Melissa Warwick

“Um artista não se faz com pinturas, é o risco, é estar sempre a perigo, sem medo”

*por Fernando Correia

“a pedra, a flor, a palavra
o gesto, o dia, a estrada
brotam
das mãos do menino:
estrelas de sangue, esperma e argamassa
sóis de fúria e pranto e alegria
iluminando
o novo horizonte: claro e verdadeiro
como o azul que nasce do ventre da manhã”
(Mario Jorge)

Pichador, performer e amigo de sereias, Cirulo é ancestralidade em traços. Entre xilogravuras, sprays e nanquins, o artista anuncia tortos corações grafados nos muros e sereias que nadam em esgotos. Sempre provocativo, afirma, “descobri um gosto pelo sujo e abandonado, sou um artista degenerado”. Seu enunciado põe em xeque se poderia haver uma arte íntegra (conservada, preservada), ou seja, aquela que não teve suas qualidades próprias perdidas ou alteradas. Ora, se cabe justamente às expressões artísticas anunciarem o não-dito, isto é, aquilo que não é apresentado corriqueiramente, que subverte as significações dominantes, não seria um interminável papel do artista “reorganizar a linguagem e o pensamento, estabelecendo outras conexões com o mundo” (Alik Wunder e Susana Dias)?

Pensando assim, de certo modo, tudo que se pode pensar como degeneração da arte, em certo sentido, é mais uma reorganização dela (o que indica sua continuidade) do que seu extermínio. As ressignificações de um corpo nu, as compreensões de uma vida não-binária, as potencialidades dos desejos são elementos muito discutidos no atual cenário artístico brasileiro, embora com uma carga geralmente pejorativa canalizada por grupos conservadores. Talvez por isso Cirulo ache que sua arte é degenerada. Em tempos sombrios onde exigem que a arte afirme um discurso e defenda uma bandeira, tampouco pode-se afirmar o discurso e defender a bandeira que ele quer. Cirulo é daqueles que não defende evidências, daqueles que sabe que a certeza plena é o maior ato de covardia. Só o risco e a dúvida o colocam em movimento e…. bom, os tempos sombrios necessitam de certezas imóveis.

Um artista não se faz com pinturas, é o risco, é estar sempre a perigo, sem medo. É inventar o perigo e estar sempre recriando dificuldades pelo menos maiores, é destruir a linguagem e explodir com ela. Nada no bolso e nas mãos, sabendo: perigoso, divino-maravilhoso. E como a própria música afirma, é preciso ter olhos firmes para o sol e para a escuridão. Os olhos e mãos firmes de Cirulo aproximam xilogravura do pixo, real do virtual, uma quebra de representatividade, mas também um desafio a figuração, fazendo escapar linhas de fuga ao criar corpos de mulheres-sem-rosto (negras, gordas, sereias), desterritorializando imagens lugar-comum das mulheres.

Como afirma Deleuze em Lógica da Sensação, o estudo da figura privilegia o corpo e não o rosto, como se a figura sendo corpo não tivesse rosto, apenas cabeça. Tal como Francis Bacon é um pintor de cabeças e não de rostos. O rosto é uma organização espacial estruturada, dotada de uma rede de significações, conduzidas e atravessadas por fortes processos identitários. Ao desorganizar o rosto, Cirulo escapa dos processos de subjetivação tradicionais, perturbando a ideia normativa de representatividade a partir de outras visualidades que o artista constrói. Como refletem Alik Wunder e Susana Dias, podemos pensar, “que potências brotariam dessa demolição? Uma aposta de que a fotografia, desvinculada da função de representar, poderia atualizar potências, instaurar devires. Fazer proliferar a vida e o pensamento em meio à demolição das estruturas”.

Foto: Jéssica Dias

Embora não desorganize a mulher em si (pois é possível reconhecer elementos femininos), ao desfigurar e fazer vibrar o rosto, outros processos de subjetivação são compostos, criando “correlações entre os perceptos e precisamente os devires não humanos do humano” (Antônio Carlos Amorim). Deleuze e Guattari acreditam que é justamente essa uma das maiores potencialidades do fazer artístico, provocar percepções e afecções que reorganizam sensações. Portanto, sem estar presos aos modelos de recognição, as figuras de Cirulo apontam para uma imagem libertada das amarras representacionais, embora ainda resguarde conceitos dessa tradição.

Ao ser perguntado sobre a influência do espaço sobre a sua obra, ele é explícito, “a rua, sempre! Eu não ignoro um buraco na parede, ele vira a pele rasgada e sangrando de um personagem. Ou se tropeço em cachimbos de lata, não consigo ignorar quem esteve ali antes de mim e ir embora sem deixar uma mensagem, sem pedir licença e agradecer. Eu tento criar uma relação com o espaço e com quem passa por ali. Gosto do que me atravessa e me afeta, de falar com as pessoas sobre elas e às vezes peco por parecer óbvio, mas gosto que as pessoas saibam que elas têm voz”. Se é questão de ampliar a voz, Cirulo o faz com muita competência, no seu trabalho não vemos o diferente, mas o normal, aquilo que está ali todos os dias, mas que a arte – tal qual como conhecemos – finge não prestar atenção. Não à toa, suas obras têm gosto de mangue, cheiro de merda, pois é catando caranguejos ao som de batuque nagô que Cirulo precisa pisar no chão para pintar o céu.

*Fernando Correia é fotógrafo e colaborador da REVER

2 comentários sobre “Com gosto de mangue

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