Contenção 33 lança “Vida do Avesso”: Ser preto e pobre no Brasil é problema puro

Arte: Cláudio Hipólito

*por Henrique Oliveira

“E a mídia oculta a nossa inteligência, pow, aplicando em nós doença,
e a mídia manipula a massa, e a massa acredita que as doenças veio da África,
usando a tática para o extermínio da nossa raça”
(MC High – Vida do Avesso)

No dia 30 de Novembro o grupo de Rap soterapolitano Contenção 33 lançou sua nova faixa ‘Vida do avesso’, juntamente com uma lyric – a letra da música legendada no vídeo –  no seu canal do Youtube.

A música tem a composição de MC Torre, MC High e a estreia de MC Joe nessa nova formação, o beat foi produzido por Andre L.A, a arte por Cláudio Hipólito, a Lyric e o vídeo ficou por conta de Elton Moutinho (Saqk), que é integrante do grupo Nois por Nois, a gravação com mixagem e masterização foi feita por Dactes, do estúdio NacaladaRec. E essa não foi a primeira vez que André L.A, Contenção 33 e o Nois por Nois produziram algo juntos, essa parceria também foi realizada na música ‘A rua é contenção’, lançada no ano passado, com beat de André L.A e composição do Contenção 33 e Nois por Nois – ouça aqui – uma das músicas de Rap mais importantes do ano de 2016 no cenário local e até mesmo nacional.

E dando continuidade ao protesto negro característico do Rap, em ‘Vida do avesso’ Contenção 33 vem narrando de forma crítica a dificuldade que é ser negro e pobre no Brasil, e o cotidiano de violência Policial nos bairros periféricos de Salvador. E como bem diz MC Torre no começo da música, ‘com duas filhas o desemprego bate desespero, preto, pobre, problema puro parceiro’, segundo o IBGE dos 13 milhões de desempregados no Brasil, cerca de 63% deles, 8 milhões são pretos e pardos. E os trabalhadores negros tem mais dificuldade de entrar no mercado de trabalho, pelo fato de não ter oportunidade de se qualificarem por meio do sistema de educação, além de enfrentar um mercado de trabalho excludente, que escolhe seus trabalhadores muitas vezes pela aparência branca, que é bem aceita e considerada atraente pelos empresários numa sociedade Racista. O que impede também que as pessoas negras acessem bons empregos e salários, sendo relegadas a cargos inferiores e a informalidade.

A novidade nessa música ficou pela estreia de MC Joe nos vocais, que sempre esteve presente com o Contenção 33, mas sempre atuando nos bastidores, no apoio ao grupo, que agora gravou a sua primeira faixa. E a estreia não poderia ser diferente daquilo que o Contenção 33 já vinha escrevendo em suas letras, Joe faz uma denúncia contundente à violência Policial e aos autos de resistência, que é a prática policial de matar pessoas, e alegar que foi em confronto, geralmente ligando as vítimas ao tráfico de drogas para criminaliza las: “Cada dia é um novo homicídio, e a desculpa da PM é sempre dizer que foi troca de tiro, me diz quem acredito nisso?Acho difícil alguém acreditar nisso.”

E em uma breve conversa com a Rever, MC Joe nos falou sobre o que significou compor e gravar essa música: ‘Uma experiência nova e sensacional, pois eu pude expressar um pouco da revolta pela opressão policial que acontece nos bairros periféricos não só de Salvador, mas do Brasil, de uma forma que conscientize os irmãos a pegar a visão também, que enquanto a gente se preocupa com o que acontece lá fora, acabamos nos esquecendo dos problemas internos da nossa comunidade’

A crítica aos autos de resistência registrados pela Polícia veio num momento em que a Polícia brasileira é a que mais mata no mundo, e os números não param de crescer. No mês passado o jornal O Globo divulgou uma matéria sobre ‘A tropa dos Confrontos’, em que nada menos do que apenas 20 PM’s do Rio de Janeiro, entre os anos de 2010 e 2015, participaram de supostos confrontos que resultaram em 356 mortes. O que indica que é muito difícil que esses Policiais Militares realmente participaram de confrontos como eles alegam, para construir a legítima defesa, e que de cada 10 mortos pela PM no Rio de Janeiro, 9 são negros. E sobre isso Joe analisa que:

‘A policia brasileira é a que mais mata no mundo, os moradores das comunidades temem mais a policia do que o crime, não existe segurança pública prara favelado, a Polícia só protege os bairros de classe média alta, já nos guetos tão mais para grupos de extermínio! Mas o bom que os irmãos agora tão resistindo e lutando pelos seus direitos, não estão se calando contra o opressor e estamos nos unindo para não deixar nada passar despercebido’.

Escute e compartilhe ‘Vida do Avesso’

Henrique Oliveira é colaborador e colunista da Revista Rever/ Salvador

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