Carta pública a respeito da mostra audiovisual da 34ª edição do FASC

praça são francisco
Foto: Adilson Andrade.

O Festival de Artes de São Cristóvão nasceu em 1972, através de uma iniciativa do Ministério da Educação, como ação comemorativa do sesquicentenário da independência do Brasil. Primeira atividade de extensão cultural da Universidade Federal de Sergipe, o FASC foi organizado pela instituição até o ano de 1997, quando a responsabilidade da realização do festival foi repassada então para a prefeitura do município de São Cristóvão.

Agora, após um período de pausa de 12 anos, tivemos a realização da sua 34ª edição e apesar do grande mérito existente no resgate de um dos mais importantes festivais do estado, algumas críticas e considerações merecem ser apontadas com a intenção de pensarmos juntos novos caminhos para o evento.

Apesar de existirem pontos questionáveis no que diz respeito à organização da sua programação musical (como o remanejamento de artistas locais, a divulgação da participação de grupos sem haver uma negociação prévia com os mesmos ou ainda a participação de membros da comissão organizadora dentro da programação oficial), iremos nos ater aqui a discutir a mostra de cinema realizada no Cine Trianon.

A mostra ocorreu durante os três dias do evento, exibindo um total de 12 obras juntamente com um compilado de filmes infantis provenientes do Curta-SE. Cada realizador recebeu a quantia de R$350 reais por obra exibida.

O cinema sergipano esteve presente no FASC desde a sua primeira edição, através do Festival Nacional de Cinema Amador (FENACA), que ocorreu inicialmente dentro da programação do FASC e posteriormente ganhou corpo próprio, sendo realizado na biblioteca pública Epifânio Dória. Dentro do FASC, como ações do FENACA, ocorreram mostras competitivas, debates e encontros de cineastas, que aproveitavam o espaço para discutir questões pertinentes à área.

Não se pretende aqui levantar uma crítica sobre a falta de um maior espaço dedicado ao cinema na 34ª edição do FASC, pois sabemos que esses são ainda os primeiros passos sendo dados na retomada do festival. A nossa indagação é dirigida ao distanciamento da Coordenação de Audiovisual do FASC em relação à comunidade cinematográfica sergipana e ao processo de seleção dos filmes que foram ali exibidos.

Vivemos atualmente um momento de reorganização dessa comunidade, com exemplos concretos como a criação do curso de Cinema e Audiovisual da UFS (antes apenas Audiovisual) e a organização do coletivo de mulheres do audiovisual sergipano.

Nesse sentido, a Coordenação de Audiovisual do FASC parece ir na contramão desse fluxo ao não fazer uma consulta prévia com nenhum grupamento a fim de construir o espaço de maneira democrática. Mesmo havendo uma parceria histórica entre o FASC e a UFS, como dito acima, não foi realizado por parte da Coordenação de Audiovisual nenhum contato com a coordenação do curso de Cinema para que o processo de seleção das obras fosse divulgado entre o seu corpo discente e docente. E é aí que vem a nossa segunda questão: a divulgação da seleção de filmes para a mostra.

Nas primeiras fichas de inscrição para submissão de trabalhos artísticos não havia opção para trabalhos audiovisuais, motivo pelo qual algumas pessoas acreditaram que não haveria nessa edição espaço para exibições cinematográficas. Posteriormente, no entanto, uma tímida divulgação via facebook apareceu convocando a submissão de trabalhos audiovisuais. Porém, por mais importante que seja divulgar eventos e seleções em redes sociais, a comunicação de um festival realizado com dinheiro público nunca pode se limitar a essas mídias, porque isso significa que, se a pessoa não participa de um determinado grupo online ou se ela não possui como amigos os agentes organizadores do evento, ela não terá acesso às informações. E isso não significa que ela não tenha um trabalho para submeter, apenas reflete que a comunicação não está sendo efetiva. O exemplo claro disso é que a postagem de divulgação da seleção, feita em 13 de novembro de 2017, no grupo “Audiovisual Sergipe”, teve apenas uma curtida e três comentários.

O reflexo dessa falha está estampado na programação da mostra, onde temos três filmes do mesmo diretor (sendo um deles, uma obra de 2008) sendo exibidos. Situação que só ocorre em festivais ou mostras quando se pretende uma homenagem ao realizador, o que imaginamos não ser o caso já que nada foi divulgado nesse sentido. Outros dois diretores também se apresentaram com mais de uma obra. Entre os 12 filmes exibidos, três eram parte de uma mostra paralela, com curadoria própria, organizada pelo Programa de Pós-Graduação em Direito (PRODIR). Dentro dessa mostra, paralela e não remunerada, estavam dois dos únicos três filmes realizados por mulheres exibidos no Cine Trianon.

Isso quer dizer que não há filmes suficientes sendo produzidos ou que não há mulheres atuando como realizadoras no estado? Como isso seria possível se mesmo em uma mostra interna da UFS, realizada esse ano dentro do In-Comunicações (evento organizado durante a semana acadêmica) houve a necessidade de uma seleção de filmes devido à quantidade de trabalhos submetidos? A mostra realizada no FASC não representa, portanto, em nada a atual produção sergipana.

O intuito desses questionamentos não é o de jogar pedras na Coordenação de Audiovisual do evento e sim indagar o porquê de haver sido tomado esse caminho. É objetivo dessa carta, também, cobrar publicamente que isso não ocorra nas próximas edições do festival.

A Coordenação pode argumentar que foi aberta uma seleção e que houve inscrições, porém o coordenador da mostra não percebeu a falta de pluralidade ou o baixo número de filmes recebidos? Será que não houve espaço para uma autocrítica no que diz respeito à divulgação da seleção de filmes? É sabido que a conduta padrão em toda seleção que não apresenta um número suficiente ou considerável de inscritos, é a de postergar a data limite e intensificar a comunicação a fim de se atingir mais pessoas.

Festivais e mostras realizados com dinheiro público devem atender às demandas da comunidade na qual estão inseridos. Sabemos que existem poucas janelas de exibição e divulgação para o nosso trabalho no estado, por que então não utilizar um evento como o FASC para ampliar de maneira democrática a visibilidade do cinema produzido em Sergipe? Esse lugar é nosso e devemos ocupá-lo.

Desejamos uma longa vida ao FASC e nos colocamos à disposição para construir coletivamente os seus espaços.

Assinam esta carta:

Ana Ângela Farias Gomes – Profa. do Curso de Cinema e Audiovisual (UFS)

Baruch Blumberg – Realizador Audiovisual

Caroline Mendonça – Realizadora Audiovisual

Clara Cavalcante Bueno – Estudante do curso de Cinema e Audiovisual (UFS)

Damyler Cunha – Profa. do curso de Cinema e Audiovisual (UFS)

Diane Veloso – Atriz e Realizadora Audiovisual

Diogo Velasco – Prof. do Curso de Cinema e Audiovisual (UFS)

Dominique Araújo Mangueira – Estudante do curso de Cinema e Audiovisual (UFS) e editora

Everlane Moraes – Estudante de Direção de Documentário na Escuela Internacional de Cine y TV (EICTV – Cuba). Estudante de Artes Visuais (UFS)

Gabriela Caldas Gouveia de Melo – Realizadora cinema/ audiovisual e professora de artes

Jean Cerqueira – Prof. do curso de Cinema e Audiovisual (UFS)

Lilian Sara de Oliveira Cerqueira – Estudante do curso de Cinema e Audiovisual (UFS)

Lu Silva – Montadora

Luciana Oliveira – Realizadora Audiovisual

Luna Safira Costa Carvalho – Estudante de cinema, empresária e produtora cultural

Maíra Ezequiel – Jornalista e Profa. do curso de Cinema e Audiovisual (UFS)

Maria Vitoria Nunes Uema – Estudante do curso de Cinema e Audiovisual (UFS)

Mauro Luciano de Araújo – Prof. do curso de Cinema e Audiovisual (UFS)

Moema Pascoini – Realizadora e Profa. do curso de Cinema e Audiovisual (UFS)

Nah Donato – Produtora audiovisual

Raul Marx Rabelo Araujo – Midiativista do Coletivo Rever e Mestrando do Programa de Cinema e Narrativas Sociais (PPGCINE/UFS)

Samuel Macêdo – Membro do grupo Sétima e Prof. do curso de Cinema e Audiovisual (UFS)

Suyene Correia Santos – Crítica de Cinema e Profa. do curso de Cinema e Audiovisual (UFS)

Yanara Galvão – Mestranda do Programa de Cinema e Narrativas Sociais (PPGCINE/UFS)

 

Resposta de Werden Tavares Pinheiro, produtor da Mostra de Cinema no Cine Teatro Trianon do 34ª edição do FASC: https://reveronline.com/2017/12/07/resposta-a-carta-publica-a-respeito-da-mostra-audiovisual-da-34a-edicao-do-fasc/

Um comentário sobre “Carta pública a respeito da mostra audiovisual da 34ª edição do FASC

  1. Estando em Cuba, nao posso acompanhar de perto todas as problematicas que dizem respeito ao Audiovisial em minha terrinha dos caranguejos! uma lastima para mim…

    De qualquer maneira, creio que sempre é bom abrir para o diálogo, proponer melhoras, agradecer as pequenas conquistas, indignar-se com as pequenas injusticas, chamar para construir’mos juntos, pedir explicacoes justas e enfim… nao concordar se for o caso!

    Espero que as coisas melhorem! Espero que nao fiquem marcas de ego e orgulho pelo caminho. Nao podemos perder tempo com magoas!!! Avante todos os realizadores, juntos!!!! Caminhemos sempre em busca de mais e do melhor! Merecemos todos e devemos fazer isso por todos e claro, na medida do possivel!!

    Vamos lá, se reunam-se e sigam um diálogo! Para que proximo ano estejamos todos!! Que nao seja selecao e sin inclusao!! 20 sessoes de filmes seguidos se for o caso!!! Um dia inteiro de exibicoes, para que todos estejamos!!! É pedir muito? Nao!!!!!!!!!!!! Um projetor, uma parede, umas cadeiras ou no chao, pessoas interessadas, realizadores contentes!!!
    Nao sei… qual a solucao? Nós é que temos que ditar as regras!

    Everlane Moraes

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