Resposta à “Carta pública a respeito da mostra audiovisual da 34ª edição do FASC”

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Foto:  Melissa Warwick

Sou Werden Tavares Pinheiro, tenho 36 anos e tenho um currículo talhado nos campos da música e do audiovisual. Já me apresentei em vários estados do país com música ou audiovisual. Tenho um disco solo e alguns com bandas. Tenho também alguns videoclipes dirigidos pra mim e pra outros artistas. Sou formado em publicidade e sou mestre em comunicação e pesquisador pela UFS (Observatório da Comunicação). Com esse currículo – e já tenho nele a experiência de ter produzidos vários eventos e festivais de arte de outras cidades – fui convidado pelo FASC para produzir a Mostra de Cinema no Cine Teatro Trianon e credenciado e selecionado para tocar no palco Frei Santa Cecília.
Meu pai fazia aniversário no dia de ontem, 6/12, e com ele eu aprendi que a gente só leva dessa vida 3 coisas: a amor, o currículo e a honra. Por essa lição foi com estranheza que li essa carta. Tudo que está nela poderia ter sido evitado com um inbox, um telefonema, um sinal de fumaça qualquer. Mas, nessa era digital, a urgência do textão sobrepõe-se a tudo. Pois bem, vamo aos esclarecimentos:
1 – a participação no FASC se deu por meio de editais internos (da UFS) e externos (Prefeitura). Os editais da UFS foram abertos para TODA a comunidade acadêmica. Por isso o Programa de Pós-Graduação em Direito teve participação na nossa mostra. Porque eles aproveitaram o edital e se inscreveram. Eu não trabalho mais na UFS, eu não tenho como saber da hierarquia e os tramites legais para o fluxo de informação. Como tivemos no FASC gente te vários cursos (Computação, Filosofia, Economia, Publicidade, Jornalismo…etc) não sei se essas informações chegaram até o Curso de Audiovisual.
2 – Já o Edital de Credenciamento da Prefeitura foi aberto à toda a sociedade. Um edital de CREDENCIAMENTO é diferente de um edital de SELEÇÃO. Os colegas de Audiovisual que ensinam PRODUÇÃO AUDIOVISUAL deveriam saber dessa diferença, antes de assinar a tal carta. Mas, vou tentar explicar em poucas linhas: este edital (se você levar todos os documentos) credencia você para ser fornecedor (nesse caso de arte). Não são licitações com tomada de preço, é cadastro de fornecedores com valor de menos de 2 mil reais. Ou seja, você entra em uma lista de fornecedores (de arte) que estão credenciados a serem contratados pelo poder público com com um cachê máximo. Vou deixar esse link aqui pra ajudar em algum dúvida: http://www.zenite.blog.br/afinal-o-que-e-credenciamento/
3 – Assim como quando eu coordenei a mostra audiovisual do In-Comunicações TODOS os filmes inscritos foram SELECIONADOS menos um “A Eleição é Uma Festa” de Fábio Rogério, porque já tinham 2 filmes dele na nossa mostra e 1 na do PRODIR. Vou repetir: TODOS OS FILMES INSCRITOS FORAM SELECIONADOS, menos 1 do Fábio Rogério. Três filmes, INFELIZMENTE, não puderam ser exibidos por falta de documentação (Voga, Relicta e Rosa Importa). Eu queria muito exibir o Rosa Importa, por se tratar da realidade da cidade. Eu liguei o dia inteiro para o realizador que, infelizmente, não conseguiu tirar a Certidão de Débito Municipal. Da mesma forma com o Voga e o Relicta. Ainda recebi recados de gente, FORA DO PRAZO, querendo exibir filme. Mas o que eu podia fazer? Existiu uma regra, um calendário, como eu poderia ignorar isso? Em respeito a todas as inscritas e inscritos eu me vi obrigado a dizer não para essa pessoa, com MUITA tristeza mesmo. Acho uma pena que ela tenha assinado essa carta. Mas, paciência.
4 – Infelizmente um número muito baixo de mulheres inscreveram seus filmes. Isso é preocupante. Mas sim, tivemos filmes de mulheres dirigido e/ou produzido. Tivemos um debate emocionado com a Isabela Everton, falando do INDONNU. Tivemos um debate lindo protagonizado pelas mulheres do Direito e a produtora do Contagem Regressiva (a Sandra), tivemos. Esse momento foi muito forte, porque ela lembrou de uma das companheiras que morreu antes do filme ficar pronto. E tivemos um número igual de homens e mulheres produzindo a mostra (2×2)
5 – Foi exibido o Operação Cajueiro, filme meu, de Rogério e de Vaneide e que teve participação de mais duas mulheres que assinaram essa carta. Eu não selecionei o filme, eu não participei desse edital que foi interno da UFS. Eu não fiz a escolha da programação desses filmes. Me digam o que eu deveria fazer? Mandar tirar o filme de uma discussão sobre direitos humanos? Jamais faria isso. Tentei que Vaneide fosse ao debate, mas ela não pode por questões pessoais. Então eu debati com duas professoras do Direito e mais um entrevistado do Operação Cajueiro. Eu não recebi 1 R$ pela exibição ou pelo debate. Meu único pagamento foi a alegria de promover esse debate importante com a população da cidade e com os e as estudantes e professoras e professores da UFS.
6 – De fato, eu enquanto Coordenador de Audiovisual, não realizei nenhum contato direto com a Coordenação do curso porque existia uma hierarquia que dizia que a UFS resolveria isso internamente. Mas, minha gente, sério, todo mundo que assinou essa carta me conhece. Custava um inbox? Ou uma reunião formal mesmo. Existiram várias reuniões entre a UFS e a Prefeitura. Porque o curso de Audiovisual não se fez presente? O curso de publicidade esteve. Eu pergunto aqui, por que o curso de Cinema e Audiovisual não esteve presente ao Fórum Pensar São Cristóvão? Não foram nem sequer prestigiar o egresso do Curso, Romário Carlos, que exibiu o filme lá. Tinha gente de VÁRIOS CURSOS. Teve debate com a Tarciana Portella que é uma das mulheres mais importantes das políticas públicas de cultura do Brasil. Se eu ainda fosse professor de Produção Audiovisual eu estaria com a minha turma completa lá. Visto que além da importância do evento é um evento produzido pela UFS. Sei que o que importa é resolver essa questão pra melhorar o aproveitamento do evento, mas antes dos professores quiestionarem a Coordenação de Mostra, acho que precisam resolver a comunicação interna.
7 – Sobre a divulgação da Mostra ou do FASC em sí, eu não posso responder nem comentar. Essa não era a minha parte. Eu já me excedi postando as notícias e links da inscrição na comunidade de Audiovisual (duas vezes, e não uma como diz a carta) e na minha time line por diversas vezes. Mas eu acredito que o festival cheio e o cinema lotado TODOS os dias mostram que eles conseguiram divulgar bem, dentro do tempo e prazos legais que tiveram;
8 – Sobre as inscrições, tá lá no grupo. Ajudei enquanto pude tirando as dúvidas post a post. Inclusive com print de pedaços do site de inscrição. Todo mundo era livre pra perguntar. Tudo é uma questão de boa vontade.
9 – Não foi apenas um realizador que teve 3 filme exibidos. Foram 2. Quem teceu essa crítica nem sequer leu a programação direito ou foi à exibição. Tínhamos uma demanda grande de filmes infantis e exibimos as Aventuras de Seu Euclides (os três episódios). Exibimos também os filmes do Curta-se, na mostra “Festivalzinho”.
10 – Eu, pessoalmente, telefonei para o Coordenador do Sercine e me ofereci pra fazer uma parceria entre a Mostra e o Festival. Não houve interesse por parte dele nem de inscrever o próprio filme, sob a alegação de que ele iria “inscrever em Berlin. Por isso tem que ser inédito”. Muito embora ele tenha lançado o filme no próprio festival. Eu não posso forçar as pessoas a inscrever seus filmes.
11 – Me digam um festival em Sergipe que tenha um alto índice de filmes locais inscritos? Quantos filmes sergipanos, sobre tudo de gente que mora e produz aqui, foram inscritos esse ano? E no Curta-SE? Eu fiz essa autocrítica e faço todos os dias. Será que não chegou a hora dos realizadores e do curso de cinema fazerem o mesmo?
Me senti apedrejado sim por essa carta. Me senti tocado na honra. Senti todo o sacrifício que eu e um monte de gente fez ser jogado pela janela do carro em movimento. 3 vezes eu chorei no FASC:
– Um dia de reunião em que eu não tinha grana pra gasolina ou pra passagem. Em que eu tive que escolher entre o remédio pra diabetes e a reunião e eu escolhi a reunião e ainda dispensei um freela;
– Durante a mostra infantil, com a sala lotada, de mães, pais e crianças. Foi maravilhoso e eu queria que a minha filha estivesse ali;
– Hoje. Com essa carta.
Por último eu queria deixar uma coisa bem clara: eu nunca privilegiei nenhum amigo meu nessa mostra. Da mesma forma eu NUNCA fui privilegiado em nada que eu participei na minha vida. Ao contrário, eu já fui vítima de muita coisa esquisita em seleções ou em concursos. Lisura e transparência são a marca que eu tento imprimir a todos os trabalhos que eu faço. Me senti atacado com essa carta, chorei, deu vontade de morrer, mas o meu coração está certo de que eu dei o meu melhor e de que fiz tudo certo. Se existiram falhas, não foi por falta de esforço.
À todas e todos que assinaram essa carta deixo aqui mais uma vez o canal aberto. Me digam na cara, por favor. Façam a crítica a mim diretamente. Essa carta foi desproporcional e desnecessária. No fim só serviu para camuflar muitas coisas ruins que acontecem no caminho entre a realização e a universidade. Cortina de fumaça. Por fim, a carruagem segue.
Tudo o que tenho nessa vida são: o amor das minha pessoas, minha honra e meu currículo. Não tirem isso de mim com histórias mal contadas.
Vida longa ao FASC! O/

Resposta do Coletivo Rever: A Revista Rever é um veículo midiativista preocupado em apresentar um outro olhar para e da sociedade. O nosso coletivo visa garantir o direito de voz para setores marginalizados, minorias, movimentos sociais, artistas e a cena cultural alternativa. Nesse sentido, a publicação da “Carta pública a respeito da mostra audiovisual da 34º edição do FASC” tem o intuito de apresentar a discussão para o debate público. Na nossa leitura, a carta não duvida da honestidade e integridade do seu produtor, pelo contrário, apresenta críticas construtivas e propositivas a instituição que organizou o festival, no sentido de ampliar a democracia e os debates em torno de uma política pública. Por coerência, a publicação da resposta de Werden Tavares, produtor da mostra, caminha nesse sentido. A discussão está colocada e esperamos que apresente caminhos para que as próximas edições do FASC sejam ainda mais democráticas e melhores.

Carta pública a respeito da mostra audiovisual da 34º edição do FASC:
https://reveronline.com/2017/12/07/carta-publica-a-respeito-da-mostra-audiovisual-da-34a-edicao-do-fasc/

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