Quem são os Beatmakers da cena Rap de Salvador? Um bate papo com Christian Dactes

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Foto: Arquivo pessoal

*por Henrique Oliveira

Dando continuidade à série de entrevistas “Quem são os Beatmakers da cena Rap de Salvador?”, a Revista Rever conversou com Christian Dactes, Dactesnobeat, 22 anos, que ingressou no mundo musical aos 14 e 3 abriu o estúdio Nacalada Rec, um dos principais estúdios de gravação de Rap da cidade. Christian Dactes é cria da região do Subúrbio Ferroviário de Salvador, local em que o estúdio surgiu, mas que atualmente se encontra no bairro de Brotas.

Dactes diz que praticamente 80% dos grupos e MC’s de Rap de Salvador já passaram pelas suas mãos, se não com seus beats, pelo menos com mixagem e masterização. E só para termos uma noção disso, grupos e MC’s como DDH (Direto do Hospício) ouça aqui, Áurea Semiséria – ouça aqui, 16 Beats – ouça aqui, Ramon Kaizen – ouça aqui, Contenção 33 – ouça aqui, Indemar Nascimento – ouça aqui entre outros que não dariam para listar aqui nesse texto, tem nos seus trabalhos os dedos de Dactes.

Além de Beatmaker, Christian Dactes também é MC em dois grupos: o N’Ativa – ouça aqui e o Alta Dose ouça aqui. Desde que saiu do último emprego como garçom em um restaurante, Dactes tem investido na carreira de produção musical, que a sua paixão é fazer beat, tudo é motivo para fazer beat, como ele mesmo diz: “se estou triste faço beat, se estou feliz vou fazer beat”, chegando a produzir na média de 7 beats por dia.

Nesta entrevista conversamos sobre produção musical, a conciliação entre as funções de produtor e cantor e projetos para o futuro. Dactes disse que tem o total apoio da sua família, pois um dos desafios na vida do Beatmaker é a separação do seio familiar, porque geralmente os Beatmakers acabam saindo da casa dos pais para poder ter mais liberdade para trabalhar no seu próprio estúdio. Dactes nos contou que estudou para ser Beatmaker e é disso que quer viver. E para quem quiser gravar no estúdio Nacalada Rec o número para contato é: (71) 99263 – 8305.

Rever: Por quais motivos você se tornou Beatmaker? No seu canal no Youtube você ensina a fazer um Beat de Trap. Como você aprendeu a produzir?

Dactes: O começo disso tudo é que desde os 9 anos de idade eu já ouvia Rap. Eu não tinha um estilo definido, mas quando escutei o Hip Hop me apaixonei. Depois eu resolvi que eu queria ser MC, comecei com algumas letras, mas estava conhecendo o mundo do Rap.

E eu comecei a reparar mais nos timbres e nas melodias que os cantores americanos usavam, referências de Soul, referências de Jazz, Samples, recordações mais antigas, e ficava pensando e analisando a qualidade, resolvi que queria aprender a fazer. E conheci o programa Fruity Loops, baixei, mexi, depois achei que estava difícil e que não era para mim não, queria ser só MC mesmo e deixei o programa para lá. Só que depois deu vontade de mexer novamente. Eu fui lá e baixei mais uma vez, aí depois eu pensei que não iria parar mais. E tudo isso foi um processo de 4 meses, passou um tempo, eu estudei o programa completo, de cima a baixo, e até hoje tem coisas novas que eu estou aprendendo. Eu fui estudando o programa, tutoriais, comprei vídeo-aulas, aí fui aprendendo.

E eu acabei gostando muito do ritmo Trap e resolvi fazer um tutorial de beat Trap no meu canal no Youtube – assista aqui – fiz um, mas que foi muito na empolgação, e o corre de trampo estão tão a mil, que eu nem tive tempo de fazer outro, só que eu pretendo fazer mais, colocar uns beats disponíveis de graça no canal também, quero movimentar bastante, porque tem muito beat que eu faço, chego a fazer entre 6 e 7 beats por dia, dependendo do dia. E tem muito menino bom que eu quero poder ajudar, um ajudando o outro a gente vai conseguindo.

Rever: Seu estúdio se chama Nacalada Rec, que também dá nome ao coletivo. Fale o porquê desse nome e quem são os mc’s e grupos que compõem o coletivo.

Dactes: NaCalada Rec surgiu após o coletivo, já tinha o estúdio antes, mas que se chamava N’ativa House, depois que a gente começou a se enturmar com uma galera, a gente se juntou e resolveu formar esse coletivo e no dia a gente decidiu pelo coletivo Nacalada, e depois eu mudei o nome do estúdio porque eu gostei do termo na Nacalada.

O coletivo é grande, tem umas 10, 11 pessoas, tem o N’Ativa que sou eu, Gleison, Sico, Devon, Daniel e o nosso DJ Ricardo, tem Ramon Kaizen, Áurea Semiséria, Ramires AX,16 Beats, Débora Evequer e Renato Simões, estamos trabalhando e movimentando.

E o nome Nacalada tem a ver porque a gente sempre gostou de trabalhar na madrugada, de produzir música nesse horário, porque eu trabalhava o dia todo, e a noite era o que sobrava de tempo para gente, pegava um beat, escrevia e trabalhava a madrugada toda, o EP Tramas, que foi gravado pelo N’Ativa e 16 Beats – ouça aqui – foi todo feito na madrugada, a gente foi fazendo tudo no nosso jeito e foi fluindo. E esse nome também tem impacto, como se fosse um breu, mas sempre está gritando, falando alto, e coletivo é uma família, uma família que ta na calada, mas está trabalhando.

O Nacalada já produziu algumas cyphers, ‘Efeito Colateral’, com a participação de Tosh, Dactes, DoisAs e Devon – ouça aqui -, ‘Bastardos Inglórios’ gravada com Morris, Ramon Kaizen, 16 Beats e Oddish – ouça aqui – ‘Blackarma’ participações de Ramires AX, Átila Kush, Áurea Semiséria e Vuto – ouça aqui.

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Foto: Arquivo pessoal

Rever: E além de Beatmaker, você também é MC e canta no N’Ativa e agora também no ‘Alta Dose’. Qual é a diferença de um grupo para o outro e como você faz para conciliar os dois papéis?

Dactes: A galera realmente fica confusa com isso, é porque nós somos muitos de momento, gostamos de aproveitar os momentos. A gente tem o grupo N’Ativa, que já tem uma caminhada de 4 a 5 anos, Eu, Devom e Daniel nos conhecemos no colégio, tem Sico, que ele nem cantava e gostava mais de ouvir mais Rap americano. E tudo foi fluindo e a gente terminou nessa formação, tinha mais um que acabou saindo do grupo, se afastou por decisão própria e parou de fazer música. A gente sempre trabalhou nessa, Eu, Gleison, Devon e Daniel temos uma caminhada, esse costume nosso, nosso estilo e originalidade.

E já com o Alta Dose é junto com meu primo, que começou a fazer Rap esse ano, é outra vibe, outro estilo de música, diferente do que o N’Ativa faz, só que a gente conseguiu fazer outra parada no grupo, porque a gente vivia e morou junto por um tempo, resolvemos fazer o Alta Dose.

Eu e Sico também resolvemos fazer um EP solo, porque a gente mora junto e tem coisas que eu ele precisamos falar, nós somos assim, tratamos a música como se fosse uma conversa, se estamos na vibe de fazermos aquela parada, a gente vai e faz, somos bem nessa vibe, gostamos de energias. Então a galera vai se confundindo, mas depois vai se acostumando de como a gente é, nós somos meio malucos, mas é assim mesmo, a N’ Ativa é uma vibe e o Alta Dose é outra, estilos diferentes, músicas diferentes, com pessoas e cabeças diferentes.

E para conciliar a gente se vira, a gente faz o que gosta, eu gosto de produzir, amo produzir beat, a paixão que eu tenho é fazer beat, quando estou estressado eu vou fazer um beat, quando estou feliz quero fazer beat, eu gosto de me entreter com a música, sou viciado em música, em melodia, cresci escutando Soul, e gosto muito dessas influências. Eu vou separando os beats para um grupo, esse vai para o outro, vai sendo no momento, esse beat é massa e tal vamos gravar para esse grupo, combina mais, vai separando e vai acontecendo. A gente não se prende a ter que fazer, se tal beat vai cair bem para um grupo, escreve a letra e grava, assim vai conciliando e produzindo.

Rever: Aqui em Salvador seu estúdio tem sido o local de gravação do FreeVerse (RND Freeverse) para o Rap Nacional Download, que é um dos maiores site de Rap do país. É uma parceria entre você e o site?

Dactes: Não teve parceria, eu gravei acredito que 80% da cena de Salvador, que já passou por mim de alguma maneira, já gravei muita gente, em decorrer disso gerou fruto para o site. E numa época eu conheci a assessora Laísa Gabriela – atualmente Laísa Gabriela é assessora de mc’s como Baco Exu do Blues e Mobbzilla -, antes disso ela chegou lá no meu primeiro estúdio e me entrevistou, um tempo depois ela conseguiu um trampo no Rap Nacional Download. E ela queria movimentar bastante, queria fazer mesmo pela cena daqui, e conseguiu agendar vários FreeVerses aqui da cena e colocar, todos eles foram gravados comigo, foi isso que gerou meu nome tanto por lá, não foi uma parceria não, era o trabalho dela [Laísa Grabriela], que queria mostrar empenho no site, e como eu gravava uma grande parte da cena, acabou que chegou por lá.

E se tem matérias com meu nome lá no Rap Nacional Download relacionada a cena de Salvador, foi assim, sem parceria e mais uma coincidência de trabalho. Era gravado como um trabalho solo do mc, que depois conseguia uma matéria para o site. A Laísa Gabriela conseguiu chamar os mc’s para gravarem, inclusive o meu – veja aqui Preciso ir Freeverse 23 – mas gravei o de Mobb – veja aqui Problemas Freeverse 21 -, 16 Beats – veja aqui o Freeverse 22 com a música Melô – e Áurea Semiséria – veja aqui Deus é Mãe, no Freeverse 34. E também teve uma época que a gente fez a produtora Hypnos, que a gente juntava gravação, mixagem, beat e vídeo, e saiu dois FreeVerses, o de 16 Beats e de Mobb por essa produtora que acabou.

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Foto: Arquivo pessoal

Rever: E como é ser Beatmaker hoje em Salvador? Tem dado para te sustentar, manter o estúdio e tem te trazido algum reconhecimento?

Dactes: No começo eu tinha outro trabalho, em que eu era garçom em um restaurante, quando eu sair, depois que eu fui demitido resolvi investir mesmo no estúdio. Aí começou a rodar meu nome, trabalhei com algumas pessoas na região da Suburbana, e meu nome foi circulando, produzi para Baco Exu do Blues a música O Culto, e meu nome foi circulando para fora, produzir também para MC Xarope que saiu no RapBox (veja aqui o clipe Trem Bala parte 1: Xarope MC, Contenção 33 e Nois por Nois).

Essa caminhada que eu estou tendo vai gerando um reconhecimento, hoje eu consigo viver trabalhando no estúdio com mixagem, com produção de beat e gravação, para mim esse é o reconhecimento, só que poderia ser maior, dentro daquilo que a gente faz, mas a gente vem trabalhando sempre mais para que isso aconteça, para que as pessoas possam reconhecer que Salvador tem um trabalho bom e original, você não vê nada do que Salvador faz em outros estados, o que Salvador faz é totalmente original. E é isso, eu gosto de trabalha que eu faço, é o que vai gerando um reconhecimento na cidade, meu nome tá circulando porque estou sempre trabalhando por aqui, muita gente nova vem gravando comigo.

Eu vendo beat constantemente, mas não é tanto quanto gravação, mas beat eu tenho vendido bastante. E Tem beat meu com grandes referências daqui de Salvador, como DoisAs, Dark, Cintia Savoli, vai sair um som foda do Nova Era com um beat meu, e outros grupos que ainda vão ser conhecidos que tem produção minha, tem muita coisa pesadíssima que está para sair, só esperando o momento para ser divulgado. Pois se meu nome está circulando, vai circular dez vezes mais, porque tem muita coisa guardada, presa para ser solta e vou conseguindo minha renda assim. É essa paixão por beat que me faz circular na cena.

Rever: E você tem projetos na área de Beatmaker para valorizar mais o trabalho dos produtores?

Dactes: E eu estou pensando em um projeto para fazer com alguns Beatmakers, e a ideia é produzir os beats e convidar alguns MC’s para escrever e gravar as faixas, só que no vídeo o destaque não vai ser o MC, mas o Beatmaker. E vai ter o Beatmaker trabalhando no estúdio, saindo, curtindo a vibe do beat, o destaque vai ser o beat não a voz, a gente vai selecionar os MC’s dentro da nossa energia, estamos planejando em fazer tudo com vídeo, com muita qualidade.

E isso já estreando a banca de Beatmaker que estamos organizando, eu e mais dois, que são o Ramires AX e ‘Mancha’, vamos iniciar uma banca de Beatmaker aqui em Salvador. O projeto tem objetivo de dar de mais visibilidade ao Beatmaker, porque a gente precisa ser mais destaque no meio, fora daqui [do Brasil] você tem os Beatmakers chamando os MC’s para fazerem mixtape, para fazer vídeo, os nomes dos Beatmaker estão aumentando e se elevando, tanto lá fora, como aqui no Brasil. Mãolee está fazendo um projeto foda. E eu quero trazer isso para Salvador, porque eu acho que Salvador é foda. Eu vou fazer essa banca de Beatmaker, no entanto, só tem nós 3, mas quero formar com mais alguns, só que antes de tudo eu não quero formar uma banca onde eu não possa ter segurança e confiança nas pessoas, no estilo de beat que a gente gosta, vai ser bem organizado e queremos lançar vários vídeos e produções, muitas coisas boas vão surgir se as energias fluírem.

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*Henrique Oliveira é colaborador da Revista Rever/Salvador

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