Não é amor, não é ciúme, é machismo

*por Angelica Gomes

Se considerarmos a trajetória cultural da sociedade brasileira, em um primeiro momento, torna-se efetivamente possível estabelecermos comparações entre o termo feminicídio e machismo. O primeiro termo tem a sua origem do inglês, tornou-se popular com a luta feminista contra a violência sofrida pelas mulheres, em especial a violência doméstica. A palavra ainda não está nos dicionários brasileiros, mas isso deve acontecer em breve, principalmente, porque a Presidenta Dilma Rousseff, em março de 2015, através da Lei 13.104 alterou nosso Código Penal para incluir o feminicídio entre as modalidades de homicídio qualificado.

O segundo termo já encontra-se dicionarizado. Segundo o dicionário de Silveira Bueno (1989), machismo, é uma atitude de quem não aceita a igualdade de direitos entre o homem e a mulher, achando que o homem é superior à mulher. O machista é o indivíduo que exerce o machismo. Portanto, em um pensamento machista existe um “sistema de hierarquia” de gêneros; onde o gênero masculino está sempre em posição superior ao gênero feminino, ou seja, o machismo é a ideia errada de que os homens são “superiores” às mulheres.

Ele está impregnado nas raízes culturais da sociedade, há muito tempo; está presente tanto no sistema econômico e político mundial, como nas religiões, na mídia e na família, este último apoiado em um regime patriarcal, onde a figura masculina representa a liderança.

O machismo já é cantado em versos e está na literatura como algo ligado ao amor.

 

Eu quero levar uma vida moderninha
E deixar minha menininha sair sozinha

Não ser machista e não bancar o possessivo
Ser mais seguro e não ser tão impulsivo

Mas eu me mordo de ciúme
Mas eu me mordo de ciúme

Meu bem me deixa sempre muito à vontade
Ela me diz que é muito bom ter liberdade
E que não há mal nenhum em ter outra amizade
E que brigar por isso é muita crueldade

(Ultraje a Rigor)

Observe a música do Ultraje Rigor. Há uma contradição logo no início: levar uma vida moderninha e deixar a minha menininha (no diminutivo) sair sozinha. Ao mesmo tempo em que a letra tenta  pregar a liberdade, na verdade, é irônica e exalta a possessividade nos relacionamentos que oprimem as mulheres.

Fazendo uma pesquisa sobre feminicídio encontrei uma página no facebook chamada Não foi ciúmes. O objetivo da página é destacar as desinformações e um mecanismo que tem o objetivo de suavizar uma palavra ou expressão que possa ser rude ou desagradável, o eufemismo que rondam os jornais e revistas  quando o problema é feminicídio. A página reúne matérias e notícias que insistem no erro e faz uma espécie de correção e argumentação para que as pessoas entendam a causa real desses assassinatos: o machismo.

Ao fazer uma busca no Google, sobre feminicídio, encontrei aproximadamente 103.000 resultados sobre o assunto. A Bahia está entre os estados que mais matam mulheres no Brasil, de acordo com o Mapa da Violência de 2015. Porém, desde que a lei federal do feminicídio foi criada, há dois anos, apenas dois casos foram julgados no estado.

Na última quinta-feira dia 30 de novembro, houve uma inauguração da Praça Mulheres em João Pessoa, Parque da Lagoa. A praça conta com seis placas simbólicas com nomes de mulheres assassinadas na cidade e uma delas Layse, a única sobrevivente, estava entre as mulheres homenageadas.

Em entrevista ao portal G1,  Layse diz que aos 20 anos começou a namorar um homem de 40 anos mais velho. As discussões, segundo ela, começaram no início do relacionamento. E o que era aparentemente  “confrontos verbais”, tornaram-se  confrontos físicos, com empurrões e murros.

A Organização das Nações Unidas (ONU) recomenda que crimes de ódio contra a mulher sejam mapeados e divulgados periodicamente para população. Segundo a instituição, o procedimento auxilia em investigações e ajuda a criar políticas públicas de segurança. O Brasil  alcançou a posição de 5º país mais violento do mundo contra as mulheres.

Buscando dados oficiais para este artigo, no site da Organização Mundial da Saúde (OMS), o número de assassinatos chega a 4,8 para cada  cem mil mulheres. O Mapa da Violência de 2015 aponta que, entre 2003 e 2013, o número de mulheres mortas em condições violentas passou de 3.937 para 4.762, registrando um aumento de 21% na década. Somente em 2013, foram registradas 4.762 mortes de mulheres – o que representa  treze homicídios femininos por dia.

Destaca-se que é no universo doméstico que ocorrem 55% dos assassinatos, 50% cometidos por familiares, 33% dos algozes são o marido, namorado ou ex das vítimas. Na mira principal, as mulheres entre 18 e 30 anos.

A causa desses altos índices de violência, é sem dúvida a desvalorização da mulher na sociedade brasileira, tanto social como economicamente. As mulheres são discriminadas no mercado de trabalho, ocupam cargos mais baixos e ganham em média 30% a menos que a maioria dos homens para exercer as mesmas funções. Essa desvalorização está na base da violência: agressões psicológicas e sexuais até o feminicídio que é a expressão mais grave dessa cultura de discriminação.

Fortemente articulado a essas questões, está o fato do machismo dominar as diferentes esferas da sociedade brasileira. É preciso, considerar com isso que o tema da igualdade de gênero faça parte dos debates e do currículo escolar, agregado a isso também um investimento em educação para prevenção à violência da mulher, a fim de que as próximas gerações desconstruam estereótipos tão presentes na sociedade brasileira.

Angelica Gomes é Mestre em Políticas públicas e Educação pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e Professora do Colégio Pedro II.

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