NPD promove discussões sobre políticas públicas para o audiovisual em Sergipe

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Foto: Reprodução/Facebook NPD

Retomada do Fórum Permanente do Audiovisual foi discutida na reunião

*Por Matheus Brito

Parte das estratégias de incentivo ao audiovisual em Sergipe foi discutida no dia 13 de janeiro, no Centro Cultural de Aracaju. O Núcleo de Produção Digital Orlando Vieira (NPD) convidou estudantes e realizadores para falar de empréstimo de equipamentos, reformulação do Comitê Gestor do núcleo e a inclusão de um representante da área no Conselho Municipal de Cultura.

A partir de agora, os equipamentos do núcleo estão disponíveis para empréstimo para quem precisar usá-los sob algumas condições: é preciso assinar um termo de compromisso e fazer um seguro. A opção, no entanto, não agradou quem estava na reunião, uma vez que não é fácil garantir o seguro em Sergipe. A coordenadora do NPD, Ana Carolina Westrup, decidiu buscar alternativas.

Essas opções de empréstimo permanecem até março. Até lá, o NPD espera organizar cursos para instrumentalizar os interessados no uso dos equipamentos e encontrar parcerias que facilitem a elaboração dos seguros, como o Banese. Na reunião, participantes também recomendaram a criação de um manual de conduta sobre os empréstimos.

O Comitê Gestor do NPD é de caráter consultivo desde a fundação – em 2006. Naquela época, organizações de setores público e privado e da sociedade civil participavam do comitê – Secretaria de Comunicação Social da Prefeitura de Aracaju; ONG Missão Criança; Associação de Repórteres Fotográficos e Cinematográficos de Sergipe (Arfoc); Cultart; Casa Curta-Se; TV Cidade; e Sindicato de Jornalistas de Sergipe (Sindijor).

Segundo a coordenação do NPD, a antiga formação do comitê não atuou de fato. A isenção das televisões pública e estatal – TV Aperipê e TV Alese – pode ter retirado a responsabilidade de divulgar a produção local. Isso foi uma das reivindicações do antigo Fórum Permanente do Audiovisual (FPA) em Sergipe no início da última gestão do ex-prefeito João Alves Filho (2013/2016).

As instituições escolhidas na primeira formação do comitê não agradaram todo mundo. Para o ex-representante do Fórum Permanente Baruch Blumberg, seria importante manter contato com a TV Aperipê e TV Alese por causa do pouco espaço reservado aos produtos locais nos meios de comunicação privados. “O que podemos ver hoje é que as instituições escolhidas pouco fizeram pelo NPD. Quase todas elas têm pouca importância para o desenvolvimento do audiovisual local”, afirma.

As últimas reivindicações do FPA foram divulgadas na “Carta em defesa do fortalecimento do Núcleo de Produção Digital Orlando Vieira”. No documento, os representantes propuseram a transformação do NPD numa autarquia municipal e a mudança de atribuição do comitê gestor de consultiva para deliberativa.

Caso o caráter do comitê continue como consultivo, ele pode se tornar irrelevante, afirma Baruch Blumberg. “Deliberativo, ele passa a ter poder, e com isso, havendo eleições abertas à sociedade civil para as representações dos setores culturais no conselho, o poder passa em parte também para a sociedade civil”.

Na nova proposta, o NPD sugere a participação de oito organizações: Festivais de Cinema de Aracaju; Cineclube em Aracaju; Movimento de Mulheres do Audiovisual; Coletivos de Cultura Negra; professores do curso de Cinema e Audiovisual da UFS; alunos do curso de Cinema e Audiovisual da UFS; Comissão de Cultura da Câmara de Vereadores de Aracaju; e representação sindical da área de Comunicação.

O núcleo ainda vai entrar em contato com as instituições escolhidas para a nova formação do comitê. Segundo Baruch, as alternativas são interessantes. No entanto, ele acha problemática a inclusão de uma representação sindical da área de Comunicação por causa do distanciamento dos sindicatos da realidade da produção audiovisual local. Na reunião, alguns alunos da UFS sugeriram a criação de um sindicato específico para área a fim de assegurar e reivindicar pagamentos justos pelos trabalhos.

Conselho Municipal

A inclusão do Audiovisual no Conselho Municipal de Cultura de Aracaju foi a pauta mais discutida na reunião convocada pelo NPD. O vereador Iran Barbosa (PT) é o responsável por liderar as discussões sobre o conselho na Câmara Municipal, pois preside a Comissão de Educação, Cultura e Esportes.

Para a escolha do/da representante da área, realizadoras e realizadores precisam entrar num consenso. As sugestões envolviam a retomada do Fórum Permanente do Audiovisual. “Talvez o mais importante nesse momento seja discutir se o que precisamos é mesmo um Fórum ou a possibilidade de criação de uma organização de classe, um sindicato que abarque as realidades e a atualidade do audiovisual de Sergipe”, aconselha Baruch.

Até agora, ficou decidido que uma carta será entregue ao presidente da comissão quando acabar o recesso da Câmara Municipal – 15 de fevereiro. A redação da carta ficou a ser decidida na próxima reunião, dia 27 de janeiro.

Garantir a inclusão da pasta no conselho municipal é tranquilo, segundo Ana Carolina Westrup. “A gente tem que entender a importância de participar de um lugar como esse, de fortalecer isso. Sobretudo, para um resultado prático do que a gente vai ter de audiovisual em Aracaju”, afirma.

A construção de políticas públicas para o audiovisual só vão ser efetivas com a inserção econômica do setor na cultura. É o que pressupõe Ana Carolina. Por isso, formar um mercado é algo mais urgente. “A gente tem que trabalhar com produções independentes e formar esse mercado independente do audiovisual que ainda é muito ligado à publicidade”, diz.

Por outro lado, o curso de Cinema e Audiovisual e o mestrado interdisciplinar em Cinema da UFS preenchem o espaço de formação no estado. Para Ana Carolina, faltam editais de produção.

O único edital específico para o audiovisual da Secretaria de Estado da Cultura (Secult) em 2017, conforme o site institucional, foi o Prêmio Waldemar Lima, que selecionou três roteiros. Foi uma parceria entre a secretaria, o Tribunal de Contas do Estado (TCE/SE) e a TV Aperipê. No site da secretaria, não há uma divisão precisa dos editais dos anos de 2016 e 2017, por exemplo, nem registros de editais publicadas antes de maio de 2016.

O último grande investimento no Audiovisual sergipano aconteceu em 2015. Em parceria com o programa “Brasil de todas as telas”, do MinC, a Secult lançou o edital “Produção de Obras Audiovisuais Digitais de Curta e Média Metragem – Prêmio Wilson Silva”. Seis projetos foram selecionados e cada um recebeu R$ 50 mil. O dinheiro fazia parte do Fundo Setorial do Audiovisual e do Fundo Estadual de Desenvolvimento Cultural e Artístico (Funcart) de Sergipe.

“Acho que a gente está numa boa época para se organizar porque tem muitas coisas acontecendo nos últimos meses que mostram que o audiovisual quer ser reconhecido”, diz a professora do curso de Cinema e Audiovisual da UFS Damyler Cunha. Para ela, a carta pública a respeito da última mostra do Fasc (Festival de Artes de São Cristóvão) foi uma demonstração disso.

Damyler Cunha, que também é doutoranda na Escola de Comunicação da USP (Universidade de São Paulo), está há quatro meses em Sergipe. O potencial do audiovisual, diz ela, está nas manifestações populares de rua. “Eu não conheço muitos teatros, muitos centros culturais, mas eu acho que o povo manifesta às vezes mais na rua do que nesses lugares”. A festa do Lambe Sujo e Caboclinhos, em Laranjeiras, é um dos exemplos que ela cita.

O que falta, no entanto, é o audiovisual dar visibilidade às manifestações e fugir do padrão estético estabelecido pela TV, especialmente a Rede Globo. “Às vezes, tem coisas que acontecem no estado e não tem muito a ver com esse tipo de representação do corpo, mas que tem a ver com as pessoas que estão andando na rua no dia a dia”, finaliza.

NPDs

O NPD Orlando Vieira, criado em 2006, é resultado das ações do programa Olhar Brasil, do MinC (Ministério da Cultura), e fez parte de uma política de estímulo à cadeia do audiovisual a médio e longo prazo em estados com mercado pouco consolidado. Assim, Sergipe pode preencher a lacuna de formação de realizadores por algum tempo – o curso de Audiovisual da UFS, por exemplo, só foi criado três anos depois, em 2009.

Depois da instalação do núcleo, a Prefeitura de Aracaju lançou o primeiro edital voltado à área em 2007. No projeto de curta-metragem, cada líder dos cinco projetos selecionados recebeu R$ 15 mil e exibiu o trabalho na TV Aperipê. Além do primeiro edital, foi criada a primeira turma do curso “Formação e Capacitação em Audiovisual”.

“Quando o NPD foi criado, ele teve o papel efetivo na formação de uma cena. De lá para cá, você percebe o quanto evoluiu o audiovisual, a formação e a produção aracajuana a partir da criação do NPD em 2006”, conta a coordenadora Ana Carolina.

Algumas mudanças na gestão do núcleo são discutidas desde então. Na carta publicada em 2013, o Fórum Permanente exigia a implantação de políticas que dessem continuidade tanto à formação quanto à produção, assim como defendia a participação efetiva da sociedade no núcleo.

Outro ponto levantado pelos representantes do fórum era a reserva de recursos nos orçamentos anuais e Planos Plurianuais (PPA) e a independência orçamentária em relação à Funcaju. “A autonomia orçamentária e política lhe deixa livre, em parte das pressões e adulações que andam por todo o funcionamento de órgãos públicos, principalmente os que não são autônomos”, assegura Baruch Blumberg.

Neste ano eleitoral, a coordenadora Ana Carolina acredita que o NPD não vai sofrer tantas interferências porque é um nicho. “A gente vai ficar aqui no nosso cantinho, fazendo e acontecendo. Quando o pessoal já viu, já foi”. A coordenadora espera ainda este ano acessar recursos para formação do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA) e da Ancine (Agência Nacional de Cinema).

*Matheus Brito é colaborador da Rever

Um comentário sobre “NPD promove discussões sobre políticas públicas para o audiovisual em Sergipe

  1. Uma pena não encontrar nenhuma palavra sobre o esvaziamento desse importante espaço de discussão. Fotos com a sala de projeção lotada (justamente o oposto do que encontrei no dia do encontro) somente quando a galera se junta pra ir ver os filmes das amizades… depois sobra gente pra opinar e apontar “soluções”, sem estar presente para encarar contrapontos e fazer a autocrítica das próprias contradições… “Sintomático”, define… Sair de casa cedo pra se somar e construir a cena local? Nem pensar, só me chame quando sair o edital… caminhemos…

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